                    Robinson Cruso


                    Daniel Defoe


                    Editorial Verbo


                    Clssicos Juvenis Verbo


                    Digitalizao e Arranjo


                    Agostinho Costa


                    Ttulo da edio original:

                    The Life and Strange

                    Adventures of Robinson Crusoe,

                    of York, Mariner


                    Verso


                    portuguesa segundo a traduo do sc. xix,

                    de Pinheiro Chagas,


                    condensada e actualizada pelos Servios


                    Edio da


                    Editorial Verbo


                    Capa e ilustraes de Augusto Trigo


                    Composio: Fotocompogrfica Impresso:


                    Tilgrfica - Soc. Grfica Lda.


                    em Junho de 1995



ndice


     I - Nascimento e Educao de Robinson
                    - quer por fora embarcar .. 05
     II - Primeira viagem ...................... 08
     III - Segunda e terceira viagem - Cativeiro 14
     IV - Evaso ............................... 19
     V - Chegada e demora no Brasil ............ 26
     VI - Nova viagem - Robinson naufraga
                    numa ilha deserta .......... 31
     VII - Visita de Robinson ao seu navio
                    encalhado .................. 38
     VIII - Robinson estabelece-se na ilha ..... 48
     IX - Trechos do dirio de Robinson ........ 57
     X - Continuao do dirio - tremor de terra 61
     XI - Continuao do dirio - doena, cura
                    tristeza, consolao ....... 70
     XII - Continuao do dirio - excurso
                    na ilha e escolha de uma
                    segunda residncia ......... 76
     XIII - Trabalhos assduos - nova excurso
                    na ilha .................... 82
     XIV - Robinson consegue fazer-se bom carpinteiro
                    e hbil cultivador ......... 86
     XV - Robinson Ceifeiro, oleiro, moleiro
                    e padeiro .................. 92
     XVI - Robinson constri um barco ......... 100
     XVII - Gnero de vida de Robinson ........ 104
     XVIII - Passeio no mar ................... 108
     XIX - Aumento de riquezas ................ 115
     XX - Encontro assustador. Perigo
                    - medidas de precauo .... 123
     XXI - Agitao de esprito, projectos
                    homicidas ................. 130
     XXII - Apario de selvagens. Naufrgio
                    de um navio espanhol ...... 137
     XXIII - ROBINSON SALVA A VIDA A UM NDIO:
                    D-LHE O NOME DE SEXTA-FEIRA 145
     XXIV - SEXTA-FEIRA INSTRUDO E BEM
                    TRATADO POR ROBINSON,
                    PRESTA-LHE TEIS SERVIOS - 153
     XXV - Combate contra os selvagens.
                    Robinson Salva a vida a um
                    espanhol e ao pai de
                    Sexta-feira ............. ..163
     XXVI - Robinson concebe a esperana
                    de sair da sua ilha ....... 171
     XXVII - Marinheiros revoltados abordam
                    A ilha. Robinson corre em
                    auxlio do seu capito .... 179
     XXVIII - O capito, com a ajuda de
                    Robinson, reassume o comando
                    do seu navio ........ ..... 186
     XXIX - Robinson embarca no navio ingls
                    e volta ao seu pas ....... 197



                                     I


               NASCIMENTO E EDUCAO DE ROBINSON
               - QUER POR FORA EMBARCAR


  Nasci no ano de 1632, na cidade de York, de uma boa famlia
originria de outro pas. Meu pai era de Bremen e
estabeleceu-se   primeiro em Hull, onde fez fortuna
negociando; s depois foi para York e a casou com minha me,
que pertencia a uma famlia muito considerada daquela regio.
Da me veio o nome Robinson Kreutznaer, embora nos chamem
Crusoe devido  habitual corrupo das palavras em Inglaterra.
  Tinha dois irmos mais velhos do que eu; um era
tenente-coronel de um regimento de infantaria inglesa,
comandado pelo famoso coronel Lockart, e foi morto na Batalha
de Dunquerque contra os Espanhis. Quanto ao segundo, nunca
soube o que fora feito dele, e meu pai e minha me no estavam
melhor informados a respeito do seu destino.
  Como eu era o terceiro rapaz da familia e no tinha
aprendido qualquer ofcio, comecei a ruminar na minha cabea
grandes projectos. Meu pai, que era muito velho, no me
deixava na ignorncia; proporcionara-me a melhor educao que
pudera, dando-me lies ele prprio, e enviando-me depois para
uma excelente escola pblica em York; destinara-me ao estudo
das leis, mas eu tinha outras vistas. O desejo de ir para o
mar dominava-me totalmente; esta inclinao opunha-se 
vontade e s ordens de meu pai, e tornava-me to surdo s
advertncias e splicas de minha me e de todos os meus
parentes, que se poderia dizer que desde ento uma espcie de
fatalidade me arrastava misteriosamente para um estado de
padecimento e de misria.
  Meu pai, homem grave e srio, deu-me excelentes conselhos
para me fazer renunciar a um desgnio em que me via to
persistente.


                              5


  Um dia chamou-me ao seu quarto, onde a gota o retinha, e
falou-me muito a srio sobre este assunto. Perguntou-me que
razo tinha eu, ou antes que loucura era a minha, de querer
deixar a casa paterna e a ptria, onde podia ter amparo e boas
esperanas de enriquecer pelo trabalho e levando uma vida
suave e agradvel. Exortou-me, nos termos mais extremosos e
ternos, a no fazer uma loucura de rapaz, a no ir ao encontro
de males de que a natureza e o meu nascimento me preservavam;
fez-me notar que eu no tinha necessidade de ir procurar po,
que faria tudo para me arranjar uma profisso leve e honrosa;
que, tal como trabalharia para a minha felicidade, se eu
quisesse ficar em casa e estabelecer-me como ele desejava, no
queria contribuir para a minha perda favorecendo a minha
partida. Concluiu dizendo que tinha diante dos meus olhos o
triste exemplo do meu irmo mais velho a quem tambm tentara,
em vo, dissuadir de ir  guerra dos Pases Baixos, no
conseguindo evitar a sua perda. Acrescentou que nunca deixaria
de rezar por mim, mas avisava que, se desse esse mau passo,
Deus no me abenoaria e ainda havia de arrepender-me de ter
desprezado os seus conselhos. Este discurso foi
verdadeiramente proftico, embora ento no o previsse; e
notei que as lgrimas corriam abundantemente pelos seus olhos,
sobretudo quando falou na morte do meu irmo. Mas quando disse
que eu viria a arrepender-me sem ter ningum para me consolar,
comoveu-se a tal ponto que se interrompeu e confessou que no
tinha foras de dizer mais.
  Comovi-me sinceramente com esse discurso to terno, e podia
eu ser insensvel? Resolvi no pensar mais em viagens, e
estabelecer-me em casa segundo as intenes de meu pai. Mas
ai!, essa disposio passou como um relmpago: e para evitar
da em diante as repreenses de meu pai, decidi ir-me embora,
sem me despedir dele. Todavia, no o fiz logo, e moderei um
pouco o excesso dos meus primeiros movimentos. Um dia que
minha me parecia mais alegre do que de costume, disse-lhe que
a minha paixo de ver o mundo era invencvel; que me tornava
incapaz de fazer fosse o que fosse com bastante resoluo para
chegar ao fim, e que meu pai faria melhor em dar-me licena
para viajar, do que em obrigar-me a tom-la por mim prprio.
Pedi-lhe que reflectisse no facto de eu ter dezoito anos, e
que era muito tarde para recomear estudos ou entrar como
escrevente em casa de um procurador, e se tal sucedesse tinha
a certeza de nunca cumprir com as minhas obrigaes, de fugir
de casa do mestre para ir embarcar. Mas se quisesse falar a
meu favor e obter de meu pai a licena de fazer uma viagem por
mar, eu lhe prometia, no caso de  voltar e de me no dar bem
com essa vida errante, recuperar depois o tempo perdido com
toda a minha boa vontade.
  Ao ouvir isto, minha me disse-me, zangada, que seria
escusado falar de novo com meu pai sobre aquele assunto; se eu
quisesse perder-me, no via outro remdio, mas nunca dariam o
seu consentimento, no queriam contribuir para a minha
desgraa.
  Apesar de me ter dito tudo isto, soube depois que contara
tudo a meu pai e que, muito magoado, ele dissera suspirando:
  - Este rapaz podia ser feliz se quisesse ficar em casa; mas
ser a mais miservel de todas as criaturas se for para pases
estrangeiros; nunca consentirei em tal loucura.
  S passado um ano consegui escapar-me. Contudo obstinava-me
a fechar os ouvidos a todas as propostas que me faziam de
seguir uma vida... Muitas vezes at me queixei de que fossem
to firmes em me contrariar numa coisa pela qual sentia to
grande inclinao.


                                   6  7


                              II


                      PRIMEIRA VIAGEM


  Um dia, estando eu em Hull, onde fora por acaso, e sem ideia
alguma formada, encontrei um dos meus amigos que ia embarcar
para Londres, no navio de seu pai. Convidou-me a ir com eles,
e para melhor me convencer, empregou a linguagem usual dos
marinheiros: no me levaria nada pela passagem. Nem consultei
os meus pais nem me cansei a mandar-lhes notcias minhas;
abandonando a coisa ao acaso, sem mesmo implorar o auxlio do
cu nem me importar com as circunstncias, ou com as
consequncias, embarquei a bordo de um navio que ia para
Londres. Esse dia, o mais fatal de toda a minha vida, foi o 10
de Setembro de 1651.
  No creio que alguma vez houvesse aventureiros cujos
infortnios comeassem mais cedo e durassem mais tempo que os
meus. Apenas o navio saiu o rio de Humber, o vento comeou a
refrescar e o mar a encapelar-se furiosamente. Como nunca
tivesse sado ao mar, a doena e o terror, apoderando-se ao
mesmo tempo do meu corpo e da minha alma, mergulharam-me numa
angstia que no posso exprimir.
  Comecei logo a reflectir sobre o que fizera e sobre a
justia divina que castigara em mim um filho vagabundo e
desobediente. Desde ento as lgrimas de meu pai e as splicas
de minha me
- os bons conselhos de ambos, apresentavam-se vivamente ao meu
esprito; e a minha conscincia, que no estava ainda
endurecida como depois, pesava-me por ter desprezado lies
to salutares e ter-me desviado dos meus deveres.
  A tempestade tornava-se mais violenta, o mar agitava-se cada
vez mais; e ainda que isto no fosse nada em comparao do que
vi depois, era o bastante contudo para assustar um marinheiro
novato. A cada instante esperava ser tragado pelas ondas todas
as vezes que o navio se abaixava, julgava que ia para o fundo
para no voltar mais.
  Nesta angstia, muitas vezes prometi que se Deus me salvasse
desta viagem e me fizesse a graa de me ver em terra, nunca
mais embarcaria num navio nem me exporia a tais perigos, antes
havia de ir direitinho para casa.
  No dia seguinte o vento abrandara, o mar sossegara e j
comeava um pouco a acostumar-me. No deixei de estar triste
todo o dia, sentindo-me ainda indisposto com o enjoo. Mas, 
proximidade da noite, o tempo limpou, o vento cessou
inteiramente, seguiu-se uma noite encantadora; o Sol ps-se
sem nuvens, e no dia seguinte assim nasceu tambm. O ar que
apenas era agitado por uma aragem suave e ligeira, a onda
unida como o gelo, o Sol que brilhava nesse espelho, oferecia
aos meus olhos o mais delicioso espectculo. Dormi bem a
noite, e, longe de ser ainda incomodado pelo enjoo, estava
cheio de coragem, admirando o oceano
  antes to irritado e terrvel. Mas, receando resolues que
fo ue eu persistisse nas ara, o ra az veio ter comigo e,
batendo-me no ombro disse:
  - Ento, camarada, aposto que tiveste medo a noite passada.
No  verdade? Aquilo era apenas um sopro.
  - Como? - disse eu. - chamas quilo um sopro? Era uma
terrvel tempestade!
  - Uma tempestade!? - replicou ele -, que ignorante! No era
nada. Na verdade rimo-nos do vento quando temos um bom navio e
estamos ao largo; mas queres que te diga? s ainda um novato.
Vamos, toca a beber um punch. V que lindo tempo est agora.
  Enfim, para abreviar esta triste parte da minha histria,
seguimos o velho costume dos homens do mar: fez-se um punch,
embebedei-me; e numa noite de farra mergulhei em lc l todos
os meus arrependimentos, todas as minhas reflexes sobre o
procedimento passado e todas as resolues para o futuro. Tl
como  tempestade sucedera a bonana e a tranquilidade nas
guas, tambm acabada a agitao dos meus pensamentos e
dissipado o meu receio, lembrados meus primeiros desejos,
esqueci inteiramente as promessas e as penitncias que formara
durante o perigo.  certo que tinha alguns intervalos de
reflexo, que os bons sentimentos voltavam por vezes como
acontece nestas ocasies; mas repelia-os, tratava de curar-me
deles como de uma doena. Bebendo e estando sempre
acompanhado, evitei a volta desses acessos. De modo que, ao
fim de cinco ou seis dias, obtive sobre a minha conscincia
uma vitria to completa como a poderia desejar um rapaz que
procura abafar os remorsos.


                                   8  9


  Ao sexto dia de navegao, chegmos  baa de Yarmouth. O
vento era contrrio, soprava de sudoeste desde a tempestade,
pelo que fomos obrigados a ancorar nesse porto. Durante esses
dias muitos navios de Newcastle entraram na baa, onde vo
todos os que esperam bom vento para chegar ao Tamisa.
  Ao oitavo dia, de manh, o vento aumentou, e toda a
tripulao teve ordem de ter tudo preparado para dar ao navio
todo o alvio possvel. Por volta do meio-dia o mar
encapelou-se prodigiosamente: o nosso castelo da popa
mergulhava a cada instante, e as vagas inundaram o navio mais
de uma vez. O capito mandou lanar a ncora mestra, e ainda
assim fomos  garra. A tempestade era terrvel e eu j via o
assombro e o terror no rosto dos prprios marinheiros. Ainda
que o capito fosse um homem infatigvel e competente, ouvi-o
muitas vezes proferir devagarinho estas palavras:
  - Meu Deus, tende piedade de ns! Estamos todos perdidos.
  Nesta primeira confuso, estava eu estendido imvel e gelado
de terror no meu beliche, que era ao p do leme, e no sei
como exprimir a situao do meu esprito. No podia sem
vergonha recordar-me do meu primeiro arrependimento, que
pisara aos ps por um endurecimento terrvel do corao.
  Sa do beliche para ver o que se passava c fora. Nunca
espectculo to terrvel ferira os meus olhos: as vagas
elevavam-se como montanhas,  vinham quebrar-se em cima de ns
a cada instante. Para qualquer lado que voltasse os olhos, s
via consternao. Passaram dois navios junto a ns,
pesadamente carregados: tinham os mastros cortados rente, e os
nossos marinheiros gritavam que um navio que estava a uma
milha acabara de ir para o fundo. Dois outros navios
desgarrados tinham sido lanados da baa para o mar alto,
vogando sem mastros e  volta. Os navios ligeiros, pelo seu
menor peso, estavam menos expostos  tormenta; passaram dois
ou trs por p de ns que corriam de vento em popa s com a
vela do gurups. Para a tarde, o piloto e o contramestre
pediram ao capito licena para cortar o mastro de papafigos;
ao que este ltimo mostrou muita relutncia: mas o
contramestre lembrou-o de que se no o fizesse o navio iria
para o fundo infalivelmente, e consentiu; cortado o mastro de
papafigos, o grande comeou a mover-se com tanta fora e dando
tais abalos que tiveram que o cortar tambm, ficando a coberta
rasa de um lado a outro.
  Imaginam como estava eu, que nunca navegara  a quem a
pequena tempestade anterior causara j to grande terror.
  Mas o temporal continuou ainda e com tanta fria, que os
prprios marinheiros confessaram que ainda no tinham visto
outro assim: O nosso navio era bom, mas to carregado e metido
na gua que os marinheiros gritavam de quando em quando que
iam a pique. Tratei de saber o que queria dizer ir a pique,
porque ainda no o sabia e antes nunca o soubesse. O temporal
era to violento que eu via o que raras vezes se v: capito,
contramestre e alguns outros mais, rezando as suas oraes,
esperando a cada momento que o navio fosse para o fundo. Para
cmulo de infelicidade, pelo meio da noite, um homem que fora
mandado visitar o fundo do poro disse que havia l uma
abertura, e um outro disse que levvamos j quatro ps de
gua. Ento foram todos dar  bomba. Esta s palavra lanou-me
numa tal consternao que me deitei na cama na beira da qual
me sentara.
  Mas os marinheiros vieram tirar-me da letargia, e
disseram-me que, nada tendo feito at aqui, podia agora ir dar
 bomba como qualquer outro.
  Por isso me levantei e fui para a bomba, onde trabalhei
vigorosamente. Enquanto estas coisas se passavam, o capito,
vendo alguns navios com carvo que, no podendo afrontar o
temporal, eram obrigados a fazer-se ao largo e queriam vir ter
connosco, mandou disparar um tiro de pea para dar sinal do
extremo perigo em que estvamos. Eu, que no sabia o que isso
significava, fiquei to espantado que julguei o navio
quebrado, ou que lhe sucedera algum acidente terrvel, numa
palavra, desmaiei.
  Como estvamos num momento em que cada um pensava na sua
prpria vida, no fizeram caso de mim nem do estado em que me
encontrava; um outro tomou o meu lugar na bomba, empurrou-me
para o lado com o p, deixou-me todo estendido, por me julgar
morto; no tornei a mim seno muito tempo depois.
  Continuavam a dar  bomba; mas, ganhando a gua o fundo do
poro, havia toda a probabilidade de que o navio fosse ao
fundo; e embora o temporal comeasse a abrandar um pouco, no
era possvel que o navio navegasse at poder entrar num porto,
pelo que o mestre persistiu em mandar disparar a pea para
pedir socorro. Uma pequena embarcao, que acabava de passar
junto a ns aventurou um barco para nos socorrer; foi com
muito risco que esse barco se aproximou, e no parecia j
possvel que nos abordassem nem que ns nele embarcssemos,
quando, enfim, fazendo os remadores os ltimos esforos e
expondo a sua vida para salvar a nossa, lanmos-lhe um cabo
com uma bia e demos-lhe grande largura. Eles, afrontando o


                            10  11


trabalho e o perigo, agarraram-na; ns, depois de os ter
puxado para a popa, embarcmos no escaler. Era escusado pensar
em atracar ao navio dos nossos salvadores: combinmos que nos
deixssemos flutuar, mas que o aprossemos o mais que
pudssemos para a terra, e o nosso capito prometeu que, se o
escaler sofresse avaria encalhando na areia, indemnizaria o
capito do outro navio. Ora remando, ora ao sabor do vento,
navegmos para norte quase at Winterton-Ness. No se passara
ainda um quarto de hora depois de termos deixado o nosso
navio, quando o vimos ir a pique e foi ento que soube, pela
primeira vez, o que queria dizer essa expresso em termos de
marinha; mas tinha a vista um pouco turvada e mal podia
distinguir as coisas quando os marinheiros me disseram que o
navio se afundava: porque desde o momento em que eles me
tinham embarcado no escaler estava como petrificado, tanto
pelo medo que se apoderara de mim como pelas minhas reflexes,
que j me faziam sentir todos os horrores do futuro.
  Durante esse tempo, os nossos marinheiros faziam fora de
remos para se aproximar da terra tanto quanto possvel; e
quando o escaler subia com as ondas, vamos ao longe um grande
nmero de pessoas em terra que acudiam  praia para nos
socorrer logo que estivssemos prximo. Mas no avanvamos
para terra, e at no podamos atracar antes de passar o farol
de Winterton, porque para esse lado a costa segue para oeste,
para Cromer, e assim quebrava um pouco a violncia do vento.
Foi neste lugar, e no sem grandes dificuldades, que saltamos
em terra.
  dali continumos a p at Yarmouth, onde fomos tratados de
uma maneira digna para aliviar desgraados, isto , com muita
caridade, quer da parte do magistrado, que nos proporcionou
agasalhos, quer por parte dos mercadores desta cidade e dos
proprietrios de navios, que nos deram suficiente dinheiro
para ir a Londres ou voltar a Hull.
  Foi ento que eu devia ter tido o bom senso de tomar o
caminho de Hull para voltar para casa. Mas, como tinha algum
dinheiro na algibeira, resolvi primeiro ir-me por terra a
Londres. Cheguei a essa cidade, e ali, assim como no caminho,
tive grandes questes comigo mesmo sobre o gnero de vida que
devia seguir - se havia de voltar para casa ou ir para o mar.
  Voltar a casa era evidentemente o partido mais sensato, mas
a vergonha afastava de mim essa ideia. Imaginei que seria
apontado a dedo por toda a vizinhana, e que teria vergonha de
aparecer diante de meu pai e minha me, diante de quem quer
que fosse. Tive muita vez ocasio de notar o pouco sensato que
, em vez de seguir pela razo, ter ao mesmo tempo vergonha de
pecar e vergonha de se arrepender.
  Fiquei algum tempo neste estado de irresoluo no sabendo
que modo de vida seguir,  medida que o tempo passava, a
lembrana da minha ltima desgraa apagava-se da minha
imaginao, e se me voltavam alguns leves desejos de regressar
esmoreciam logo de tal modo que afinal deixei completamente de
pensar nisso e procurei fazer uma nova viagem num navio que ia
para as costas de frica.  Resolvi embarcar nele.


                           12  13



                              III


                    SEGUNDA E TERCEIRA VIAGENS
                    - CATIVEIRO


  Em todas estas aventuras, foi uma desgraa para mim no ter
embarcado na qualidade de simples marinheiro; ter-me-ia, 
certo, sujeitado a um trabalho muito duro, mas em compensao
teria aprendido navegao, e seria capaz de vir a ser piloto,
imediato, e talvez capito de um navio. Mas, nisto como em
tudo o mais, estava escrito que eu havia de escolher o pior; e
sentindo-me com dinheiro na algibeira e bom fato no corpo, no
queria ir para bordo seno com ares de fidalgo; desta maneira
nem aprendi qualquer trabalho nem fiquei em estado de vir a
t-lo.
  Logo que cheguei a Londres, tive a felicidade de cair em
boas mos: coisa que nem sempre acontece a um rapaz estouvado
como eu era. A primeira pessoa com quem travei conhecimento
foi com um capito de navios, que estivera na costa da Guin
e, tendo l sido feliz resolvera voltar. Esse homem gostou da
minha conversa e, ouvindo-me dizer que tinha vontade de ver
mundo, props-me embarcar com ele nessa mesma viagem:
assegurou-me que no seria obrigado a fazer a menor despesa,
que comeria com ele e seria o seu companheiro; que se eu
quisesse levar alguma coisa comigo, gozaria de todas as
vantagens que o comrcio pode proporcionar, e que talvez o
lucro que da me proviesse no frustrasse as minhas
esperanas. Aceitei a oferta do capito, que era um homem
franco e honrado. Aventurei nesta empresa uma soma de quarenta
libras esterlinas, que empreguei em quinquilharias, segundo os
seus conselhos. Juntara eu esse dinheiro com o auxlio de
alguns dos meus parentes, que tinham correspondncia comigo, e
que, como julgo, tinham levado meu pai e minha me a
contribuir secretamente com esta soma para a minha primeira
aventura. Posso dizer que, de todas as minhas viagens,


                              14



foi esta a nica que teve xito; devo muito  boa-f e 
generosidade do meu amigo capito; porque entre muitas
vantagens que tirei com ele, tive a de aprender sofrivelmente
a matemtica e as regras da navegao, a avaliar precisamente
a marcha de um navio, e a orientar bem as velas. Se ele tinha
gosto em me ensinar, tinha-o eu tambm em aprender: de tal
modo que esta viagem me tornou ao mesmo tempo marinheiro e
mercador. Com efeito, trouxe cinco libras e nove onas de p
de oiro  minha parte; com o que ganhei, em Londres, perto de
trezentas libras esterlinas. Este xito inspirou-me vastos
projectos, que depois causaram a minha runa. Este bom amigo,
o capito de navios, morreu poucos dias depois da nossa volta
a Londres. Mas resolvi tornar a fazer a mesma viagem. Deixei
em depsito, nas mos da viva do capito, duzentas libras
esterlinas, levei comigo mercadorias no valor das outras cem,
e embarquei no mesmo navio, com um homem que da primeira vez
fora o piloto e desta era o comandante.
  Nunca fizeram viagem to desgraada. Navegando entre as
Canrias e as costas de frica, fomos surpreendidos, ao romper
do dia, por um corsrio turco de Sal, que nos deu caa a todo
o pano. Enfunmos todas as velas para nos safarmos, mas vendo
que o corsrio se aproximava e que ao fim de algumas horas
seramos alcanados, fomo-nos preparando para o combate.
Tnhamos a bordo doze peas de artilharia; o corsrio tinha
dezoito. Pelas trs horas da tarde, estava ao alcance de tiro
de pea, comeou o ataque; mas comeou mal, porque, em vez de
nos atacar pela popa, como pretendia, deu a descarga para um
dos nossos bordos. Ns, ento, apontmos-lhe oito dos nossos
canhes para sustentar o ataque, e demos uma descarga que o
fez recuar, no sem nos ter respondido, fazendo comear a sua
fuzilaria, que era de duzentos homens. Os nossos marinheiros
conservavam-se firmes; nenhum deles fora ferido. O corsrio
preparou-se para renovar o combate, e ns para o sustentar.
Mas vindo do outro lado  abordagem sessenta dos seus,
lanaram-se  nossa coberta, e comearam  machadada, cortando
e talhando mastros e enxrcias. Recebamo-los a tiros de
mosquete,  lana,  espada e outras armas, conseguindo
expuls-los da coberta por duas vezes. Mas no quero insistir
nesta poca lgubre da minha histria; depois de desamparado o
navio, com trs marinheiros mortos, outros oito feridos, fomos
obrigados a render-nos e fomos levados prisioneiros a Sal, um
porto pertencente aos Mouros. Os maus tratos que ali sofri no
foram to terrveis como eu imaginava; os nossos marinheiros
foram levados para o interior do pas,


                                    15


ao stio onde o imperador vivia, mas eu fiquei como parte do
quinho do corsrio porque era novo e gil, e assim prprio
para o seu navio. Uma tal mudana de condio, que de homem
livre me tornava escravo, emergiu-me no desespero. Recordei-me
do discurso verdadeiramente proftico de meu pai, que me
predissera que havia de vir miservel e que no havia de ter
ningum para me socorrer na minha misria. No conhecendo grau
mais alto de calamidade, parecia-me que a predio estava
inteiramente realizada, que a mo de Deus cara sobre mim, e
que estava perdido e sem recurso. Mas isto no era seno uma
amostra dos males que devia sofrer, como se ver no seguimento
desta histria. Esperava eu que o meu novo senhor me levasse
quando fosse para o mar, que o seu destino seria, mais tarde
ou mais cedo, ser aprisionado por um navio de guerra espanhol
ou portugus e que desse modo resolveria a minha liberdade;
mas essa esperana desvaneceu-se logo, porque, quando
embarcou, deixou-me em terra para tratar do seu jardinzinho e
fazer o trabalho habitual de um escravo em casa; e quando
voltou ordenou-me que dormisse no seu camarote para guardar o
navio.
  Quando estava a bordo, s pensava em fugir; mas depois de
ter pensado bem nisso, no achava expediente algum que pudesse
satisfazer um esprito razovel porque no tinha ningum em
quem me fiasse, ningum que quisesse embarcar comigo, nenhum
companheiro de escravatura: de tal modo que, durante dois anos
inteiros, no vi a menor oportunidade de executar tal
projecto, apesar de entreter muitas vezes a minha imaginao
com esta ideia.
  S depois veio uma ocasio bastante singular, que despertou
em mim o pensamento de trabalhar para recuperar a minha
liberdade. O meu patro ficava em terra mais do que de costume
e no equipava o seu navio - e isso por falta de dinheiro,
segundo vim a saber - mas no deixava de sair, duas ou trs
vezes por semana, com a grande chalupa para pescar na enseada.
Nessas ocasies levava-me consigo, assim como a um jovem
escravo mouro, para remar no barco; ns ambos divertamo-lo e
eu mostrava-me muito hbil na pesca: enfim, o meu patro
estava to contente comigo, que s vezes mandava-me com um dos
seus parentes chamado Ismael e com o jovem escravo para lhe
pescar um prato de peixe. Aconteceu que, uma vez, tendo ns
ido pescar de manh, com uma grande calmaria, levantou-se de
repente um nevoeiro to espesso que nos tirou a vista de
terra, apesar de no estarmos afastados dela seno meia lgua:
pusemo-nos a remar sem rumo certo; trabalhmos todo o dia e
toda a noite seguinte:


                                    16


  no dia seguinte pela manh achmo-nos no mar alto; em vez de
nos aproximarmos da praia, tnhamo-nos afastado dela pelo
menos duas lguas; mas voltmos a salvo, no sem muito custo e
at com bastante perigo, porque o vento comeava a estar um
pouco forte, e sobretudo tnhamos muita fome.
  Este acidente tornou o nosso patro mais acautelado para o
futuro. Resolveu no ir mais  pesca sem uma bssola e algumas
provises, de mais a mais tendo  sua disposio o grande
escaler do navio ingls que ele nos tirara. Assim, ordenou ao
seu carpinteiro, que era tambm um escravo ingls, que
construsse, no meio desse escaler, uma cabana semelhante  de
uma barca, deixando suficiente espao  popa e  proa:  popa
para manejar o leme e iar a vela grande;  proa para o
movimento livre de duas pessoas que pudessem fazer toda a
manobra. Este escaler navegava com uma vela latina ou
triangular que passava por cima do camarote; neste camarote,
que era muito baixo, o capito tinha bastante lugar para se
deitar ele e um ou dois escravos, e ainda para uma mesa e
pequenos armrios de guardar os licores, o po, o arroz e o
caf. O meu patro saiu muitas vezes com este barco para ir 
pesca; e como eu tinha a habilidade de lhe apanhar muito
peixe, nunca ia sem mim. Ora aconteceu combinar ele um passeio
com dois ou trs mouros de alguma distino, nesse escaler,
para pescar e divertir-se.
  Com esse fim, fez provises extraordinrias, que mandou
embarcar na vspera, e ordenou-me que tivesse prontas trs
espingardas com chumbo e plvora, porque tencionavam tambm
caar.
  Preparei todas as coisas conforme as suas ordens. No dia
seguinte pela manh esperava-o no escaler, que eu tinha lavado
muito bem e onde arvorara bandeiras e enfeites; numa palavra,
no esquecera nada do que podia contribuir para receber bem os
hspedes, quando vi chegar o meu patro sozinho. Disse-me que
os seus convidados tinham transferido o passeio para outra
ocasio por causa de alguns negcios. Ordenou-me ao mesmo
tempo que fosse com o escaler, acompanhado, como de costume,
pelo homem e pelo rapaz, pescar-lhe algum peixe, porque os
seus amigos deviam vir cear com ele, e acrescentou que o
trouxesse logo que o pescasse. Esta circunstncia fez renascer
o meu primeiro desgnio de me libertar da escravatura e agora
com um pequeno navio sob o meu comando; e logo que o meu
senhor se retirou, comecei a preparar-me, no para uma pesca,
mas para uma viagem, apesar de no saber que caminho havia de
seguir. Bastava afastar-me dessa triste terra.


                         17


  O primeiro passo que dei foi dirigir-me a esse mouro, com o
precioso pretexto de prever o nosso sustento pelo tempo que
estivssemos embarcados.
  Disse-Lhe que no devamos comer po do nosso patro;
respondeu-me que tinha razo: por consequncia foi buscar um
cesto de bolacha e trs bilhas de gua fresca. Eu sabia o
stio onde era a adega, fui l buscar garrafas e levei-as para
o escaler, enquanto o mouro estava em terra.
  Transportei ainda para ali um grande pedao de cera que
pesava mais de cinquenta libras, um pacote de pavio, um
machado, um martelo; todas essas coisas que me foram, depois,
de uma grande utilidade, sobretudo a massa de cera para fazer
velas.
  Armei ao meu companheiro uma outra rede, onde caiu de
boa-f, j vero como.
  - Ismael - disse-lhe eu - temos aqui as espingardas do nosso
patro; no podes dar-nos plvora e chumbo de caa? Porque
talvez pudssemos matar, para ns, alcamias (*), e sei que
deixou a bordo do navio as provises da santa barba.
  - Sim - replicou ele - vou procur-la.
  E efectivamente, trouxe logo duas bolsas de couro, uma muito
grande, onde havia perto de libra e meia de plvora ou mais; a
outra cheia de chumbo, com algumas balas, pesava bem cinco ou
seis libras. E metemos tudo isso a bordo. Encontrei plvora no
camarote do capito, e enchi com ela uma das grandes garrafas
que achara na adega, depois de ter deitado numa outra o pouco
que havia dentro.


  (*) Aves do mar da espcie dos nossos maaricos-reais.


                              18



                              IV


                           EVASO


  Tendo-nos assim provido, com todas as coisas, no corsrio,
fizemo-nos de vela e samos do porto para ir  pesca. Os
guardas do castelo que est  entrada do porto sabiam quem ns
ramos, e no fizeram caso da nossa sada. Mal estvamos a uma
milha no mar, quando amainmos a vela e nos assentmos para
pescar. O vento soprava de nor-nordeste, e, por consequncia,
era contrrio aos meus desejos; porque se fosse sul, tinha a
certeza de alcanar a costa de Espanha e pelo menos de aportar
 baa de Cdis. Mas, de qualquer lado que viesse o vento, a
minha resoluo estava tomada de deixar essa vida horrvel e
de entregar-me ao meu destino.
  Pescmos muito tempo sem agarrar nada, porque, quando sentia
um peixe no meu anzol, no tratava de o tirar para fora de
gua, com medo que o mouro visse. Disse-lhe ento:
  - No fazemos nada que preste; o nosso amo no atende a
desculpas, quer ser bem servido; temos de ir mais longe.
  Ele, que de nada desconfiava, teve a mesma opinio; foi para
a proa e disps as velas para isso. Eu, que ia ao leme, levei
o escaler a perto de uma lgua mais longe; depois do que fiz
amainar fingindo que queria pescar.
  Mas, de repente, entregando a cana do leme ao rapazito,
avancei para o mouro, que estava  proa, e, fingindo baixar-me
para apanhar qualquer coisa que estava por trs dele,
agarrei-o de surpresa nas pernas e lancei-o imediatamente ao
mar. Veio logo  tona de gua porque nadava como um peixe;
chamou-me, suplicou-me que o recebesse a bordo, disse que me
seguiria at ao fim do mundo se assim eu quisesse. Nadava com
tanto vigor atrs do bote, que o alcanaria decerto, porque
fazia pouco vento;


                              19


com receio disso, corro  cabana, tiro uma das espingardas,
aponto-a e dirijo-lh estas palavras:
  - Escute, meu amigo: nunca lhe fiz mal, nem lho farei desde
que no avance mais. Sabe nadar bastante para alcanar a terra
e o mar est sossegado; mas se se aproximar do meu barco,
rebento-lhe a cabea, porque estou resolvido a recuperar a
minha liberdade.
  No replicou. Voltou-se para o outro lado e ps-se a nadar
para a costa. Era um excelente nadador e no duvido que a
alcanasse.
  Depois de me livrar do mouro da maneira que acabo de dizer,
voltei-me para o jovem escravo mouro, que se chamava Xuri:
  - Xuri, se me queres ser fiel, tratar-te-ei bem; mas se no
me juras isso por Maom, deito-te tambm ao mar.
  O rapaz sorriu e falou-me to inocentemente que me tirou
toda a sombra de desconfiana; depois fez juramento de me ser
fiel e de ir comigo para onde eu quisesse. Enquanto o mouro,
que continuava nadando, esteve ao alcance da minha vista, no
mudei de rumo, parecendo-me melhor orar contra o vento, a fim
de que julgassem que eu ia para o estreito. Efectivamente, no
se podia imaginar que um homem no seu juzo pudesse tomar
outro rumo, nem que navegasse para sul, para regies brbaras,
onde tribos de negros nos envolveriam com as suas canoas, para
nos degolar, e alm disso no poderamos desembarcar sem nos
expormos a ser devorados, por animais ou homens selvagens,
mais cruis que os prprios animais. Mas logo que comeou a
escurecer e vi que se aproximava a noite, mudei de rumo e
naveguei direito ao sul quarto sudeste, inclinando um pouco a
leste, para no me afastar muito de terra; e como tinha vento
favorvel, e a superfcie do mar estava risonha e sossegada,
fiz tanto caminho que julgo que no dia seguinte s trs horas
da tarde, quando avistei de longe a terra, podia estar a cento
e cinquenta milhas de Sal, para sul, muito para l dos
domnios do imperador de Marrocos, ou de algum dos reis seus
vizinhos; no avistvamos navio algum.
  Contudo receava muito os Mouros, e tinha tanto medo de lhes
cair nas mos que no quis nem parar, nem desembarcar, nem
lanar a ncora; continuei o meu caminho durante cinco dias
inteiros enquanto durou esse vento favorvel que depois mudou
para sul. Ento conclu que se algum navio de Sal me
perseguisse, me daria caa sem se cansar muito. Assim
aventurei-me a chegar-me para a costa; ancorei na foz de um
pequeno rio cujo nome ignorava. No vi ser vivo algum, nem
tentei encontrar.


                              20


Do que precisava mais era de gua fresca.  tarde entrmos
nessa pequena baa. Resolvi, logo que fosse noite, ir a nado e
reconhecer o pas. Mas, ao cair da noite, ouvimos um barulho
to terrvel, causado pelos urros e rugidos de animais ferozes
cuja espcie no conhecamos, que o pobre rapazito quase ia
morrendo de medo, e suplicou-me instantemente que no
desembarcasse enquanto no fosse dia. Cedi ao seu pedido, e
disse-lhe:
  - No, Xuri, no quero desembarcar agora; mas tambm o dia
poder fazer-nos ver homens que so tanto para temer como
esses animais ferozes.
  - Ento - replicou rindo -, ns disparar a eles bom tiro de
espingarda, para fazer eles fugir.
  Gostei de o ver com tanta coragem e, para o animar mais,
dei-lhe um clice de licor. Lanmos a ncora pequena, e
ficmos sossegados toda a noite embora no fosse possvel
dormir, pois no tardmos a ver animais de um tamanho
extraordinrio, de muitas espcies, aos quais no sabamos que
nome dar, que desciam  praia e corriam  beira-mar, onde se
lavavam e se espojavam, para se refrescarem; soltavam gritos
to horrveis que ainda no ouvi na minha vida coisa que se
parecesse.
  Xuri estava cheio de medo e eu tambm no estava isento
dele. Mas ainda foi pior quando ouvimos um desses animais
enormes nadar em direco ao nosso barco!
  Na verdade, no podamos v-lo; mas era fcil conhecer, pelo
rudo das ventas, que devia ser um animal prodigiosamente
grande e furioso. Xuri dizia que era um leo, e podia bem ser.
O pobre rapaz gritava-me que levantasse ferro e fugssemos 
fora de remos. Mas respondi-lhe que no era necessrio, que
bastava afastar-nos para o mar, e que o leo (se era um s)
no podia com certeza seguir-nos at to longe. Mal acabara de
pronunciar estas palavras quando vi esse animal, que no
estava a menos de quatro toesas de mim, o que me assustou a
valer; corri ento ao camarote, peguei na espingarda e
disparei sobre o animal: o que o determinou a virar de bordo o
mais depressa possvel e a voltar a nado para a praia.
   impossvel dar uma ideia exacta dos gritos e dos urros
terrveis que se levantavam, tanto na praia como nas terras
distantes, com a detonao da espingarda, e parece-me muito
provvel que esses animais nunca tivessem ouvido antes rudo
semelhante. Isto fez-me ver claramente que no era conveniente
aventurar-me a essa costa durante a noite; mesmo durante o
dia, poderia cair entre as mos dos selvagens ou entre as
garras dos tigres ou dos lees. No entanto, era necessrio
desembarcar em alguma parte para procurar gua doce,


                                    21


porque no tnhamos nem meia canada dela, mas onde?, e quando?
Era essa a dificuldade. Xuri disse-me que se eu o deixasse ir
a terra com uma bilha, faria diligncia de descobrir gua, se
a houvesse e que ma traria. Perguntei-Lhe por que  que ele
queria ir l; se no era melhor que fosse eu mesmo e ele
ficasse a bordo. Respondeu-me com tanta afeio, que fiquei a
gostar ainda mais dele:
  -  para que se os selvagens vir, eles comam mim e o senhor
salvar-se.
  - Ento iremos ambos; se os selvagens vierem, matamo-los e
no lhe serviremos de presa nem um nem outro.
  Depois disto, dei-lhe a comer um bocado de bolacha e fi-lo
beber um clice de licor; atracmos o mais perto que pudemos
da praia, e desembarcmos, levando connosco s as armas e duas
bilhas.
  No me atrevia a afastar tanto do barco que o perdesse de
vista, com receio que os selvagens descessem  beira do rio
com as suas canoas; mas o rapaz afastou-se cerca de uma milha
e voltou depois com um animal que parecia uma lebre, com a
diferena que era de outra cor e tinha as pernas mais
compridas; a carne era excelente, e essa faanha causou-nos
muita alegria. Xuri tinha achado gua sem ter visto selvagens,
e era para me dar essa boa notcia que se apressara tanto.
Vimos depois que no era necessrio ter muito trabalho para
arranjar gua porque a mar subia muito pouco  praia, e
quando estava baixa a gua do rio era doce pouco acima da foz;
enchemos pois as bilhas, regalmo-nos com a lebre que tnhamos
morto e dispusemo-nos a continuar o nosso caminho, sem ter
notado, nessa regio, vestgios de criatura humana.
  Como eu j fizera uma viagem para esse lado sabia que as
ilhas Canrias e as de Cabo Verde no estavam longe. Mas sem
instrumentos prprios para tomar a latitude, ignorava onde
devia procur-las e para que stio devia dirigir o rumo. Seno
teria podido alcanar facilmente alguma dessas ilhas; mas
tinha esperana de chegar at essa parte onde os Ingleses
fazem o seu comrcio, onde encontraria algum dos navios que
iam e vinham de carreira e que talvez nos recebesse.
  Se os meus clculos no falhavam, o stio onde estvamos
ento devia ser essa regio situada entre as terras do
imperador de Marrocos e a Negrcia, inteiramente deserta e
habitada apenas por animais ferozes. Outrora havia ali negros,
que depois se retiraram mais para o Sul, com medo dos Mouros e
estes no se estabeleceram a por causa da esterilidade da
terra. A quantidade prodigiosa de tigres,


                                    22


lees, leopardos e outros animais ferozes que infestam o pas
tambm ajudou a afastar os homens. Os Mouros s l vo para
caar e em grupos de dois ou trs mil homens por cada vez.
Efectivamente, numa extenso de perto de cem milhas, no
vamos seno vastos desertos durante o dia e durante a noite
no ouvamos seno urrar e rugir.
  Pareceu-me ver, mais de uma vez, o Pico da ilha de Tenerife,
uma das Canrias. Tinha tanta vontade de me dirigir para o mar
alto, para tentar alcan-la, e foi o que fiz por duas vezes;
mas sempre os ventos contrrios e o mar muito encapelado me
obrigaram a retroceder. Fez-me isto resolver continuar a pr
em prtica a minha primeira inteno, que era a de seguir a
costa. Enquanto navegmos assim, fomos muitas vezes obrigados
a desembarcar para nos fornecermos de gua; uma vez fundemos
debaixo de uma pequena ponta que era bastante elevada; como a
mar enchia, espervamos tranquilamente que nos levasse mais
adiante. Xuri, que tinha a vista mais penetrante que a minha,
chamou-me devagarinho e disse que era melhor afastarmo-nos da
margem:
  - No v o monstro terrvel que dorme ali naquele montculo?
  No ponto que ele me indicava vi um monstro aterrador; era um
leo de um tamanho disforme, deitado numa pequena cavidade que
o punha  sombra.
  - Xuri - disse eu ento -, vai a terra e mata-o.
  Xuri, muito assustado, deu-me esta resposta:
  - Mim matar ele?!, ai de mim, ele papar mim de uma s
trincadela!
  No lhe falei mais nisso, mas disse-lhe que no fizesse
barulho. Tnhamos trs espingardas. Agarrei na maior, que
tinha quase calibre de mosquete, meti-lhe uma boa carga de
plvora e trs grandes balas, e pu-la ao meu lado; peguei numa
outra que carreguei com duas balas, e finalmente meti cinco
cartuchos na terceira.
  Depois, pegando na que primeiro carregara, levei um pouco de
tempo a apontar e disparei sobre a cabea do animal, mas como
estava deitado de maneira que uma das suas patas Lhe passava
por cima do focinho, as balas alcanaram-no junto do joelho e
quebraram-lhe o osso da perna.
  Levantou-se logo, rugindo, mas tornou a cair, depois outra
vez se levantou sobre as trs pernas, a rugir com uma fora
espantosa. Surpreendido por no o ter ferido na cabea peguei
logo noutra espingarda, e apesar dele comear a mexer-se e a
fugir, o segundo tiro acertou-lhe na cabea,


                                    23


e tive o prazer de o ver cair debatendo-se na agonia. Ento
Xuri pediu-me para ir a terra, deitou-se  gua levando uma
espingarda numa das mos e nadando com a outra. Chega ao p do
animal e aplicando-lhe ao ouvido o cano da espingarda, dispara
um terceiro tiro que o matou. Na verdade, essa expedio
divertiu-nos, embora no nos desse de comer, e eu estava
zangado por perder trs cargas de plvora e de chumbo num
animal que no nos servia de nada. No entanto Xuri disse que
queria dele alguma coisa. Veio para bordo e pediu-me o
machado.
  - Mim cortar cabea a ele.
  Mas isso era superior s suas foras, e contentou-se em lhe
cortar uma pata, que trouxe; era de uma grossura monstruosa.
Pensei depois que a sua pele poderia ser-nos til, e
resolvemos esfol-lo. Xuri era mais entendido nessa operao,
que nos ocupou todo o dia; estendemos o couro sobre o camarote
e o sol secou-o em dois dias; servi-me depois dele  maneira
de manto.
  Continumos o nosso caminho durante mais dez dias e notei
que a costa era habitada; em dois ou trs stios vimos gente
que vinha  praia ver-nos passar: notmos mesmo que eram
negros e estavam nus. Tinha vontade de desembarcar e ir ter
com eles, mas Xuri, que me dava sempre bons conselhos,
dissuadiu-me disso; mesmo assim naveguei perto de terra para
poder falar-lhes. Comearam a correr ao longo da praia; notei
que no tinham armas, a no ser um deles, que trazia na mo
uma vara que Xuri disse ser lana, e que eles sabiam atirar
muito longe e com muita certeza. Por isso conservei-me a uma
distncia respeitosa, e falei-lhes por sinais o melhor que
pude, pedindo-lhes qualquer coisa que comer; fizeram-me sinal
para parar o barco, e que me iam buscar o que pedia. Amainmos
a vela. Dois desses homens correram um pouco para dentro das
terras e, em menos de meia hora, estavam de volta. Traziam
dois pedaos de carne e cereais, cuja espcie no
adivinhvamos mas desejvamos aceitar.
  Restava saber como ir busc-los a terra; tnhamos medo deles
e eles medo de ns. At que trouxeram para a praia o que
tinham para nos dar, e pondo tudo no cho retiraram-se e
conservaram-se muito longe, at que fomos buscar o que nos era
oferecido; depois voltaram  praia, onde agarraram numa
garrafa de licor que eu a deixara em paga dos seus vveres.
Deixara l tambm as nossas bilhas que eles encheram de gua,
e que ns tornmos a ir buscar a terra com as mesmas
precaues.
  Com estas provises fiz-me de vela, e continuei a navegar
para sul, durante onze dias, durante os quais no tive vontade
nenhuma de me aproximar de terra.


                                    24


  No fim deste tempo vi que o continente se alongava muito
para o mar: estava na minha frente, a quatro ou cinco lguas
de distncia; fazia uma grande calmaria e dei uma volta grande
para chegar  ponta: l cheguei, e, quando a dobrei, estava a
duas lguas do continente, vendo distintamente outras terras
do lado oposto. Ento conclui, acertadamente, que tinha de um
lado o Cabo Verde, e do outro as ilhas do mesmo nome. No
sabia ainda, porm, para qual dos dois lados me devia voltar:
porque se viesse um vento forte podia muito bem no chegar nem
a um nem a outro.


                              25



                                V


                 CHEGADA E DEMORA NO BRASIL


  Entrei no camarote, deixando a Xuri o cuidado do leme; de
repente, muito assustado, o rapaz gritou:
  - Patro, patro, mim ver um navio  vela.
  Sa com precipitao do camarote e no s vi o navio, como
tambm reconheci que era portugus. Julguei que fosse um
desses que fazem o comrcio de negros na costa da Guin, mas
quando notei o rumo que seguia, percebi que ia para outra
parte e que no tencionava aproximar-se de terra. Soltei todo
o pano e fiz fora de remos para me dirigir para o alto mar,
para tentar alcan-lo.
  Quando comeava a perder a esperana pareceu-me que me
tinham avistado com os seus culos de bordo, e que,
tomando-nos pelo escaler de qualquer navio europeu que tivesse
ido a pique, diminuam a marcha para nos dar tempo de
alcan-los. Isso inspirou-me coragem; como tinha a bordo uma
pequena bandeira, fi-la subir s enxrcias, para Lhes dar a
entender que estvamos em perigo, e atirei um tiro de
espingarda. Notaram muito bem uma coisa e outra, porque me
disseram depois que tinham visto o fumo, apesar de no terem
ouvido o tiro. A estes sinais amainaram as velas; e tiveram a
humanidade de parar por minha causa, de sorte que em trs
horas cheguei ao p deles. Perguntaram-me em portugus, em
espanhol e em francs, quem eu era; mas eu no entendia
nenhuma dessas lnguas. Finalmente, um marinheiro escocs, que
estava a bordo, dirigiu-me a palavra.
  Respondi-lhe que era ingls e fugido  escravatura dos
mouros de Sal. Ento convidaram-me para vir para bordo, e a
me receberam generosamente com tudo o que me pertencia. A
alegria  que senti ao ver-me assim libertado de uma condio
to miservel e to desesperada  verdadeiramente
inexprimvel. Ofereci ao capito do navio tudo o que tinha,
para Lhe testemunhar o meu agradecimento, mas ele teve a
generosidade de no aceitar nada.
  - Quando lhe salvei a vida, no fiz seno o que desejava que
me fizessem a mim em idnticas circunstncias: e quem sabe se
no estou destinado a chegar a esse mesmo estado? Alm de que,
se depois de o ter levado para um pas to afastado como  o
Brasil, eu aceitasse tudo o que tem, o senhor expunha-se a
morrer de fome, e assim eu no fazia seno tirar-Lhe a vida
que lhe salvei. No, no, senhor ingls - continuou ele -
quero lev-lo para esse pas puramente por humanidade; esses
objectos servir-lhe-o para comprar com que viver, e para
arranjar meios para voltar para o seu pas.
  Se esse homem parecia caridoso nas ofertas que me fez, no
se mostrou menos escrupuloso nem menos exacto em as cumprir:
proibiu a todos os marinheiros que tocassem em qualquer coisa
minha, ps tudo em depsito, e deu-me um inventrio. Quanto ao
meu escaler, era muito bom e ele bem o sabia; por isso
props-me compr-lo para o fazer servir no navio, e
perguntou-me o que queria em troca. Respondi-Lhe que ele fora
to generoso em tudo comigo, que no queria fazer preo mas
que me desse ele o que quisesse; props-me passar uma
obrigao de oitenta peas de oiro. Alm disso, ofereceu-me
sessenta peas de oiro pelo meu criado Xuri; mas custou-me a
aceit-las, no porque no tivesse vontade de o deixar ao
capito, mas no podia resolver-me a vender a liberdade desse
pobre rapaz, que to fielmente me ajudara a recuperar a minha.
Expliquei ao capito o meu escrpulo ao que ele me respondeu
que o achava muito digno, e props prometer por escrito que se
comprometia a libert-lo dentro de dez anos. Entreguei Xuri ao
capito, uma vez que o rapaz gostou da proposta.
  Tivemos boa viagem at ao Brasil, depois de vinte e dois
dias chegmos  baa de Todos os Santos. No saberia louvar a
generosidade com que o capito me tratou.
  No quis levar nada pela minha passagem, deu-me quarenta
ducados pela pele do leo, ordenou que me restitussem
exactamente tudo o que eu tinha a bordo, e comprou tudo o que
eu quis vender, como uma caixa de garrafas, duas das minhas
espingardas e o que me restava da cera. Numa palavra, fiz
cerca de duzentas peas de oiro, e com estes fundos
desembarquei no Brasil.
  Pouco tempo depois, o capito recomendou-me a um homem


                           26  27


muito honrado, dono de uma plantao e de uma fbrica de
acar.
  Vivi algum tempo na sua casa, onde aprendi a maneira de
cultivar a cana e fazer o acar. Vendo a abastana em que
viviam os plantadores, e com que facilidade enriqueciam,
resolvi tentar obter licena, estabelecer-me nesse pas e
fazer-me plantador; ao mesmo tempo procuraria mandar vir de
Londres os fundos que ali deixara, para os empregar no
melhoramento do meu estabelecimento.
  Assim preveni-me com cartas de naturalizao, comprei terras
que ainda no tinham dono e formei um plano da plantao e do
estabelecimento, tudo proporcional aos fundos que contava
receber de Inglaterra. Tinha um vizinho portugus que nascera
em Lisboa, de pais ingleses; chamava-se Wells e os seus
negcios achavam-se pouco mais ou menos na mesma situao que
os meus. Chamo-lhe meu vizinho porque a sua plantao
comunicava com a minha, e porque vivamos em boas relaes.
Tnhamos poucos fundos um e outro, e para dizer a verdade
durante perto de dois anos s plantmos para ter o que comer.
Mas passado esse tempo comemos a fazer progressos, a nossa
terra comeou a ser produtiva; de tal maneira que ao terceiro
ano plantmos tabaco, e tivemos cada um uma grande poro de
terra pronta a receber canas no ano seguinte. Mas precisvamos
de auxlio, e sentia, mais do que nunca, o mal que fizera em
me desfazer do meu criado Xuri. No era de admirar que tivesse
andado mal, eu que nunca andara bem. No via remdio algum
para a minha pena, a no ser na continuao do meu trabalho;
entreguei-me assim a uma ocupao muito diversa da minha
inclinao e contrria ao gnero de vida que fazia as minhas
delcias e pelo qual abandonara a casa de meu pai. Muitas
vezes dizia comigo: "De que me serviu ter atravessado vastos
mares, ter percorrido mais de mil e seiscentas lguas? No
podia fazer em Inglaterra o que fao aqui trabalhar ao p dos
meus pais e dos meus amigos, to bem como o fao entre
estrangeiros e selvagens?"
  V-se por isto que eu nunca pensava na minha situao, seno
para me afligir. S tinha esse vizinho com quem conversava de
quando em quando; no se fazia obra alguma em minha casa seno
com o trabalho das minhas mos, como se vivesse sozinho numa
ilha deserta. Mas se os homens so bastante injustos para
comparar o seu estado presente a um outro que no  pior, no
 justo que a Providncia os castigue com a infelicidade para
os convencer da sua felicidade passada pela sua prpria
experincia? E no merecia eu bem vir a ser um dia esse homem


                                    28


que imaginava vivendo miseravelmente numa ilha absolutamente
deserta?
  O capito que me recebera a bordo continuava a ser meu
amigo. Demorou-se trs meses a carregar o navio e a fazer os
preparativos da sua viagem. Um dia, falando-lhe eu dos
pequenos fundos que deixara em Londres, fez-me esta boa
oferta:
  - Se o senhor quiser dar-me uma carta dirigida  pessoa que
tem o seu dinheiro em Londres, com ordem de o enviar para
Lisboa, depois de o ter convertido em mercadorias negociveis
neste pas, prometo-lhe, contando com a graa de Deus,
traz-las quando voltar; mas como as coisas humanas esto
sempre sujeitas a contratempos, aconselho-o a no pedir seno
cem libras esterlinas que diz ser metade da sua fortuna para
as aventurar com uma primeira tentativa; se chegarem a salvo
poder mandar vir o resto pela mesma via.
  O melhor que eu tinha a fazer era seguir esse conselho.
Dirigi  viva do capito uma relao exacta das minhas
aventuras com todas as instrues necessrias para me mandar o
meu dinheiro. A viva, no contente em mandar o dinheiro
mandou, do seu bolso, um presente de vinte e cinco libras
esterlinas ao capito portugus, em reconhecimento pela
humanidade e pela caridade que tivera comigo. As cem libras
esterlinas convertidas em mercadorias de Inglaterra foram
mandadas para Lisboa ao capito e este trouxe-mas, felizmente,
para o Brasil.
  Fiquei cheio de alegria quando chegou e julguei a minha
fortuna feita. O capito empregara as vinte e cinco libras
esterlinas que a viva lhe dera de presente em me arranjar um
criado pago dos seus ordenados por seis anos; trouxe-mo e
nunca quis aceitar nada de mim em paga de tantos servios,
seno um pouco de tabaco da minha fazenda.
  Como todas as minhas mercadorias eram manufacturadas em
Inglaterra (panos, fazendas e outras coisas procuradas no
Brasil) vendi-as por um preo muito elevado e ganhei o
qudruplo do valor do carregamento ficando infinitamente mais
adiantado do que o meu pobre vizinho, quanto  plantao:
comprei um escravo negro e tomei um criado europeu, alm
daquele que o capito me trouxera de Lisboa. Mas o mau uso que
fazemos da prosperidade  muitas vezes a fonte das nossas
maiores desgraas; foi o que aconteceu comigo. No ano seguinte
tive toda a espcie de felicidades na minha plantao: tirei
das minhas prprias terras de tabaco cinquenta grandes rolos
pesando cada um mais de cem libras, bem acondicionados e
prontos para a volta do navio de Lisboa.


                                    29


  Ento, ao ver aumentar igualmente os meus negcios e as
minhas riquezas, comecei a idear na minha cabea uma
quantidade de projectos e de empresas.
  Se eu tivesse querido continuar o gnero de vida que levava
ento, podia ainda vir a ser rico e feliz; em vez disso, ia,
cedendo  minha paixo desenfreada de correr mundo, aumentar o
nmero das minhas culpas. Vivia h cerca de quatro anos no
Brasil, e comeava a prosperar e travar relaes de amizade
com os meus companheiros de plantao, assim como com os
mercadores de So Salvador, que era o nosso porto de mar; nas
nossas conversas contara-lhes as minhas duas viagens  costa
da Guin, da maneira de fazer o comrcio, e da facilidade com
que se podia alcanar o p de oiro, dentes de elefante, outras
coisas preciosas, e, o que  mais, negros em grande nmero e
tudo por bagatelas, como pequenos leitos, quinquilharias,
facas, tesouras, machados, espelhos e outras mercadorias.
Nunca deixavam de escutar atentamente o que eu dizia sobre
este captulo, mas principalmente sobre artigos de compra dos
negros, porque, como o Governo portugus reservara para si o
monoplio dessa compra, os negros eram muito raros e
carssimos no Brasil.
  Um dia, de manh, trs plantadores vieram procurar-me e
disseram-me que iam propor-me uma coisa a respeito da qual
pediam segredo. Declararam-me que tinham vontade de armar um
navio para a Guin s escondidas do Governo, que todos tinham
plantaes como eu e uma necessidade extrema de escravos; o
seu fim era empregar o navio em procur-los. Desembarcariam os
negros secretamente e distribu-los-iam pelas suas plantaes.
Perguntaram-me se queria ir a bordo desse navio na qualidade
de caixeiro ou guarda-livros, para ter cuidado em tudo o que
dizia respeito  costa da Guin; disseram-me que, na partilha
dos negros, eu teria uma poro igual  dos outros, e que
seria dispensado de fazer o investimento inicial.
  Foi-me impossvel resistir a essa oferta, tal como fora
outrora reprimir os desejos extravagantes que fizeram cair por
terra todos os bons conselhos de meu pai. Disse-lhes que
partiria de muito boa vontade, se quisessem encarregar-se da
minha plantao durante a minha ausncia. Prometeram-no todos,
e obrigaram-se a isso por contrato. Quando o navio se acabou
de equipar e estiveram todas as coisas arranjadas como
tnhamos combinado, fui para bordo; por minha desgraa, no dia
1 de Setembro de 1659
aniversrio do dia em que embarcara em Hull, oito anos antes.


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                              VI



                    NOVA VIAGEM
                    - ROBINSON NAUFRAGA NUMA ILHA DESERTA


  O nosso navio tinha perto de cento e vinte toneladas; levava
seis canhes, e catorze homens compreendendo o mestre, o
grumete e eu. No o tnhamos carregado seno de quinquilharias
prprias para o nosso comrcio, tais como vidros, conchas, e
sobretudo pequenos espelhos, facas, tesouras, machados e
alguns colches.
  Fizemo-nos de vela, dirigindo-nos para o norte ao longo da
costa; pretendamos voltar para a frica, quando tivssemos
chegado ao dcimo ou undcimo grau de latitude setentrional; o
que era o rumo que normalmente se tomava naquele tempo.
Tivemos muito bom tempo em todo o comprimento da costa, a no
ser o excessivo calor que fazia. Quando chegmos  altura do
cabo de Santo Agostinho, fizemo-nos ao largo e, perdendo logo
de vista a terra, dirigimo-nos para o nor-quarto-nordeste, de
sorte que passmos a Linha, depois de uma navegao de perto
de doze dias: segundo os nossos clculos, estvamos a sete
graus e vinte e dois minutos de latitude setentrional, quando
se levantou um violento furaco que nos desorientou
inteiramente; comeou a sudeste, rodou pouco a pouco para
noroeste, depois fixou-se nordeste
donde se desencadeou de uma maneira to terrvel, que no
fizemos outra coisa, durante doze dias consecutivos, seno
garrar, forados a obedecer s ordens do destino e ao furor
dos ventos. Escuso de dizer que durante esse tempo todo
esperava cada momento ser sepultado nas ondas; e no havia
ningum no navio que se gabasse que havia de escapar.
  Este temporal causou-nos um terror mortal, e fez-nos perder
trs homens; um morreu de febre ardente, e os outros dois, um
dos quais era grumete, caram ao mar.


                                    31


  Tendo sossegado um pouco o vento ao fim de doze dias, o
mestre fez um clculo o melhor que pde, e acho que estvamos
a perto de onze graus de latitude setentrional, mas que havia
uma diferena de vinte e dois graus de longitude a oeste do
cabo de Santo Agostinho; de sorte que garrara para a costa da
Guiana, ou parte setentrional do Brasil, para l do rio
Amazonas, para os lados do Orenoco. Veio ento a consultar-me
para saber que rumo devamos seguir.
  O navio tinha sido muito atormentado e metia muita gua; por
isso a sua opinio era alcanar a parte oriental, donde
tnhamos partido. Eu era da opinio contrria, e depois de
termos examinado juntos uma carta martima da Amrica
conclumos que no havia terra habitada onde pudssemos chegar
mais prxima que o arquiplago das Carabas; foi por isso que
resolvemos navegar para Barbados, onde espervamos que,
fazendo-nos ao largo, para evitar o golfo do Mxico,
pudssemos chegar facilmente dentro de quinze dias com bom
tempo; porque a respeito da viagem a frica, era escusado
pensar nela por agora sem nenhum auxlio, tanto para o navio
como para ns mesmos.
  Assim mudmos o nosso rumo para nor-noroeste, a fim de
podermos chegar a qualquer das ilhas habitadas pelos Ingleses,
onde tinha esperana de receber auxlio. Mas a nossa viagem
devia terminar de outro modo; porque quando estvamos na
latitude de doze graus e dezoito minutos, fomos assaltados por
uma segunda tempestade, que nos levou, com a mesma
impetuosidade que a primeira, para ocidente, afastando-nos de
qualquer convvio humano; se consegussemos salvar a vida do
furor das ondas havia tanta probabilidade de sermos devorados
pelos selvagens, como esperana de nunca podermos voltar para
a nossa terra. Nestas extremidades, o vento soprou sempre com
violncia, e ao despontar o dia um dos nossos marinheiros
exclamou: "Terra!" Mal tnhamos sado do camarote para ver o
que era, e em que regio do Mundo nos achvamos, quando o
navio deu num banco de areia; o seu movimento cessou de
repente, as vagas entraram-lhe com tanta precipitao, que
espervamos ser engolidos a cada instante: e chegvamos para
as amuradas do navio, para nos abrigarmos contra a violncia
das vagas. No  fcil descrever a consternao que se sente
em tal ocasio. No sabamos nem em que clima estvamos, nem
para que terra framos levados; era uma ilha, um continente?
Era habitada ou deserta? E como o furor dos ventos, ainda que
um pouco diminudo, era ainda terrvel, no podamos esperar
que o navio ficasse alguns minutos sem se fazer em pedaos, a
no ser que sobreviesse de repente uma calmaria, por uma
espcie de milagre.


                                    32


  Numa palavra, estvamos imveis, olhando
uns para os outros, esperando a morte a cada instante, e
preparando-nos para irmos para o outro mundo, tanto mais que
pouco havia a fazer para isso. A nica coisa que ainda podia
sossegar-nos um pouco  que, contra a nossa expectativa, o
navio no estava ainda quebrado, e o capito dizia que o vento
comeava a abrandar. Mas, apesar do tempo parecer menos
carregado, pela maneira como o navio encalhara, e visto que se
enterrava muito na areia para que se pudesse saf-lo, a nossa
situao era verdadeiramente deplorvel; s nos restava pois
ver se podamos salvar a nossa vida. Um pouco antes da
tempestade tnhamos um escaler que vinha a reboque; mas em
primeiro lugar abrira uma fenda  fora de bater de encontro
ao nosso leme e depois escangalhara-se, ou afundara-se, ou se
desgarrara, de modo que no tnhamos esperana por esse lado.
Tnhamos ainda um escaler a bordo, mas no sabamos como
havamos de deit-lo ao mar; mas no havia tempo a perder,
porque julgvamos a cada instante que o navio se ia
desmanchar, e alguns diziam que estava j arrombado. Ao mesmo
tempo que o nosso piloto tentou deitar o nosso escaler ao mar,
os nossos marinheiros puseram-se a ajud-lo, e finalmente
conseguimo-lo; metemo-nos dentro, onze no total, recomendando
as nossas almas  misericrdia divina e abandonando o resto 
ira das ondas.
  Porque apesar da tempestade ter perdido muito a sua
violncia, o mar elevava-se a uma altura espantosa de encontro
 terra. Ento  que o perigo era grande e terrvel; porque
vamos todos claramente que o mar estava to encapelado que o
nosso escaler no resistiria, e que seramos infalivelmente
submergidos: alm disso no tnhamos vela, e ainda que a
tivssemos no poderamos servir-nos dela.
  Pusemo-nos a remar com todas as foras para ir para terra,
mas com um rosto consternado como gente que ia para o
suplcio.
  Efectivamente nenhum de ns podia ignorar que, quando o
escaler chegasse perto da costa, havia de sofrer pancadas to
fortes que se faria em mil pedaos. Acontecesse o que
acontecesse pedamos a Deus de todo o nosso corao pela
salvao das nossas almas; mas, impelindo-nos o vento ao mesmo
tempo, trabalhvamos a bom trabalhar para o ajudar, e para
apressar a nossa perda.
  Nem ao menos sabamos de que natureza era a praia, se era de
rochedos ou de areia, se era alta ou baixa. A nica coisa que
poderia dar-nos algum vislumbre de esperana era termos cado


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nalguma baa, nalgum golfo, na foz de um rio; entrar nele por
um acaso, e pormo-nos ao abrigo do vento, ou talvez achar
ainda guas mansas. Mas no havia aparncias algumas disso:
pelo contrrio, a terra,  medida que nos aproximvamos,
parecia-nos ainda mais temvel que o mar. Depois de ter remado
ou antes garrado por espao de lgua e meia, segundo o clculo
que fazamos, uma vaga furiosa, alta como uma montanha, veio
quebrar-se por trs de ns: era para nos advertir que
esperssemos o golpe de misericrdia. De facto, logo caiu
sobre ns e com tanta fria que virou de uma vez o escaler; e
separando-nos uns dos outros e todos do barco, quase que nem
nos deu tempo de invocar o nome de Deus porque nesse momento
fomos todos engolidos por ela.
  No posso descrever a confuso dos meus pensamentos quando o
escaler se virou; porque apesar de nadar bem, no pude
desembaraar-me o suficiente para respirar, at que a vaga,
atirando-me para a margem, rebentou, depois voltou para trs e
levou-me quase at  praia, meio morto por causa da gua que
engolira. Vendo a terra mais perto de mim do que pensava, tive
bastante presena de esprito e a respirao suficiente para
me levantar nas pernas, para tratar de caminhar para o lado da
terra, antes que viesse outra vaga e me levasse. Mas olhando
para trs de mim, vi o mar ameaador, altivo e furioso, como
um inimigo terrvel com o qual no podia, de modo algum, medir
as minhas foras. O que me restava fazer era suster a
respirao e tentar estar  tona de gua: desta maneira podia
nadar, conservar a liberdade da respirao, e dirigir-me para
a praia. O que eu receava mais era que essa onda, depois de me
ter levado para terra na ida, na volta me tornasse a lanar
para o mar.
  A onda que se veio quebrar em cima de mim pela segunda vez
cobriu-me primeiro com uma massa de gua de vinte ou trinta
ps de altura; senti que era arrastado para muito longe de
terra com uma fora e uma rapidez enormes; ao mesmo tempo
sustinha a respirao e ajudava-me ainda nadando com todas as
foras. Mas estava quase a sufocar  fora de me constranger,
quando me senti subir  tona da gua; de repente achei-me com
a cabea e as mos fora da gua, o que me aliviou
imediatamente; e apesar desse intervalo durar s dois
segundos, no deixou de fazer-me um grande bem, dando-me tempo
para respirar e redobrando a minha coragem: vi-me outra vez
coberto de gua; mas no por tanto tempo que no me pudesse
reanimar, e, vendo que a vaga se quebrara, e que comeava a
voltar para trs, lancei-me para a frente o mais que pude para
no me deixar arrastar, e senti que  tinha p. Fiquei alguns
momentos sem fazer nada, tanto para respirar como para esperar
que as guas se retirassem, e depois corri para a praia com
toda a ligeireza de que me sentia capaz.
  Esse esforo no era suficiente para me livrar do furor das
ondas que vinham novamente quebrar sobre mim; levaram-me mais
duas vezes, e atiraram-me para a praia como j tinham feito.
  Pouco faltou para que o ltimo destes dois assaltos que
acabo de descrever me fosse fatal, porque o mar arrastou-me,
como j disse, ps-me em terra, ou melhor, lanou-me contra um
rochedo, com tanta violncia que perdi os sentidos e a fora
de trabalhar para a minha salvao; porque levei uma pancada
numa ilharga e no peito, que me tirou de repente a respirao
por certo tempo; e se o mar voltasse  carga sem interrupo,
estou certo que ficava completamente sufocado. Mas tornei a
mim um pouco antes dele voltar, e ao ver que me ia engolir,
resolvi agarrar-me  ponta de um rochedo, e nessa posio
suster a respirao at que as guas se tivessem retirado: as
guas j no estavam to altas como no princpio, porque a
terra estava prxima; no me larguei do rochedo enquanto elas
no abrandaram um pouco mais. Depois disto trepei um pouco
mais, de maneira que a vaga que veio depois s me cobriu, mas
no me levou; de sorte que s tive que fazer trabalhar as
minhas pernas para pr termo  minha carreira, e para pr p
em terra. Assim que a cheguei subi a um montculo e
assentei-me na relva ao abrigo do furor das guas.
  Vendo-me assim em segurana, comecei por levantar os olhos e
as mos ao cu, e dar graas a Deus com todo o meu ser por me
ter conservado a vida. Julgo impossvel descrever o xtase em
que se acha a alma que se v salva deste modo, arrancada, por
assim dizer, do fundo do tmulo. J no me espanto, pois, que
se leve ao desgraado prestes a perder a vida no cadafalso um
cirurgio para Lhe tirar o sangue ao mesmo tempo que lhe
anunciam o perdo, com medo que a surpresa se lhe torne
mortal.
  Passeava eu  beira-mar, com o esprito absorvido na
contemplao da minha salvao, testemunhando os meus
transportes de alegria por mil gestos que no saberia tornar a
faz-los, pensando nos meus camaradas, que tinham ido todos
para o fundo, e pensando que eu era o nico que se salvara;
porque depois do nosso naufrgio no tornei a ver nenhum
deles, nem mesmo o mnimo vestgio para alm de trs chapus,
um barrete e dois sapatos desirmanados.
  Voltei os olhos para o lado do navio encalhado, mas o mar
estava to espumante e encapelado e o navio a to grande
distncia que mal o podia distinguir.


                                  34  35


  Ao notar isto, exclamei: "Deus piedoso!, como consegui
chegar a terra?"
  Depois de reanimado pelo pensamento do que havia de
consolador na minha posio, comecei a olhar em volta tentando
perceber em que espcie de stio estava e em que me devia
ocupar. Senti logo diminuir a minha alegria, e vi que cantara
antes do tempo; a minha situao era horrorosa: estava
molhado, e no tinha fato para me secar; tinha fome, no tinha
nada para comer; tinha sede, nada tinha para beber; estava
fraco, nada tinha para me fortalecer; no tinha mesmo outra
perspectiva seno a de morrer de fome, ou de ser devorado
pelos animais ferozes; e o que havia de mais aflitivo para
mim,  que no possua qualquer arma para caar e defender-me
contra alguma criatura que me quisesse tirar a vida para
sustentar a sua; s tinha comigo uma faca e um pouco de tabaco
numa caixa onde estavam todos os meus recursos, o que me
lanou em terrveis angstias; de sorte que durante algum
tempo corri de um lado para outro como um insensato. A noite
aproximava-se e comecei a imaginar o que seria de mim se essa
terra alimentasse animais ferozes, porque sabia que esses
animais vagueiam todas as noites para procurar a sua presa.
  O nico remdio era subir a uma rvore de ramagem muito
espessa, parecida com um pinheiro mas espinhosa que havia
perto, e onde resolvi passar toda a noite esperando o gnero
de morte que ia sofrer no dia seguinte porque no tinha ento
grandes esperanas de vida. Afastei-me perto de meio quarto de
milha da praia, para ver se encontrava gua doce para beber, o
que aconteceu e me causou muita alegria. Depois de ter bebido
e de ter mastigado um pouco de tabaco para enganar a fome,
corri para a rvore, na qual procurei colocar-me de maneira a
no cair se viesse a adormecer; segurando um pequeno bordo,
que tinha cortado para me servir de defesa, subi para o meu
alojamento. Como estava muito cansado ca num sono profundo
que me reparou completamente as foras, e no sei se haver
muita gente que tenha passado uma to boa noite em iguais
condies.
  Era j dia claro quando acordei; o tempo estava sereno, a
tempestade dissipada e o mar j no estava agitado nem
encapelado como na vspera.
  O que me surpreendeu muito foi ver que com a mar alta,
durante a noite, o navio sara do banco de areia onde tinha
encalhado e garrara at junto do rochedo de que falei antes,
onde eu sofrera to cruelmente. Era quase uma milha de
distncia do lugar onde eu estava at essa rocha, e como o
navio parecia manter-se direito;


                                    36


pensei ir a bordo, para de l tirar para meu uso pelo menos
algumas coisas mais necessrias.
  Assim que desci da rvore, olhei ainda em torno de mim, e a
primeira coisa que descobri foi o escaler, que o vento e a
mar tinham lanado para a costa, a perto de duas milhas para
a minha direita. Caminhei ao longo da praia, na sua direco,
mas encontrei um brao de mar de perto de meia milha de
largura entre mim e o escaler, e por isso voltei para trs,
deixando a coisa para outra vez, porque os meus desejos
voltavam-se muito mais para alcanar o navio, onde esperava
achar ento com que sustentar-me.



                              37



                              VII


          VISITA DE ROBINSON AO SEU NAVIO ENCALHADO


  Um pouco depois do meio-dia, vi que o mar estava muito
sossegado, e a mar to baixa que podia caminhar at um quarto
de milha do navio; e isso foi para mim um renovamento de dor;
porque via claramente que se tivssemos ficado a bordo, nos
teramos salvo, pelo menos chegaramos a terra e eu no teria
de me ver, como ento, privado miseravelmente de toda a
consolao e de toda a companhia.
  Estas reflexes arrancaram-me lgrimas, mas como elas no
davam seno um fraco alvio aos meus males, resolvi tentar
chegar ao navio. Estava um calor excessivo. Despi o meu fato e
lancei-me  gua.
  Quando cheguei ao p do navio, vi que me seria extremamente
difcil subir l acima, porque estava em seco e fora da gua,
a uma grande altura e no havia nada ao meu alcance a que eu
pudesse trepar. Dei duas voltas  roda do navio a nado; 
segunda dei com uma coisa que me espantava de no ter visto da
primeira vez: era um pedao de cabo que estava pendurado na
proa, e assim depois de muito trabalho, agarrei-me a ele, e l
subi ao castelo da proa. A, vi que o navio estava arrombado e
tinha muita gua no fundo do poro; mas como a areia do banco
onde estava encalhado era firme, tinha a popa extremamente
alta, e a proa to baixa que quase mergulhava na gua. Desta
maneira a tolda achava-se inteiramente livre de gua, e tudo o
que encerrava estava enxuto. Bem se pode imaginar que a
primeira coisa que fiz foi ver por toda a parte o que estava
estragado e o que estava em bom estado.
  Encontrei todas as provises do navio enxutas; como tinha
muita vontade de comer, fui direito  despensa, enchi as


                                    38


minhas algibeiras de bolachas e pus-me a com-las enquanto
tratava das outras coisas, porque no tinha tempo a perder.
Achei rum no camarote do capito, e bebi uma boa poro dele;
e bem precisava para me reanimar e preparar para os
sofrimentos que ainda me esperavam. No me servia de nada
ficar de braos cruzados e perder tempo a desejar o que no
podia de modo algum alcanar. A necessidade estimulou os meus
esforos. Tnhamos a bordo muitas antenas, um ou dois mastros
de reserva, e duas ou trs grandes vigas de madeira; tomei a
resoluo de me aproveitar de tudo isso imediatamente, e
lancei para fora do navio todas aquelas peas de madeira que
no eram muito pesadas, depois de as ter atado separadamente
com um cabo para no fugirem. Feito isto, desci ao longo do
navio, e juntei quatro pelas duas extremidades, o melhor que
pude, dando  minha obra a forma de uma jangada; e depois de
a ter posto atravessadas duas ou trs tbuas muito curtas, vi
que podia andar bem por cima, mas sem levar grande carga. Foi
por isso que subi ao navio e voltei ao trabalho; com o serrote
do carpinteiro cortei uma das antenas em trs pedaos ao
comprido, acrescentei-as  minha jangada com muito trabalho e
fadiga. Mas a esperana de me abastecer com as coisas
necessrias, servia-me de estmulo para trabalhar muito mais
do que seria capaz em qualquer outra ocasio.
  A minha jangada estava j bastante forte para levar um peso
razovel; s faltava ver com que a carregaria, e como
preservar essa carga do insulto das guas do mar; mas no me
demorei muito nessas consideraes, e em primeiro lugar pus em
cima todas as tbuas que pude encontrar; em seguida, depois de
ter pensado no que mais falta me fazia, comecei por agarrar em
trs bas dos marinheiros, forcei as fechaduras para tirar o
que estava dentro, e desci-os para a minha jangada com o
auxlio de um cabo. No primeiro ba meti provises, a saber:
po, arroz, trs queijos da Holanda, cinco pedaos de carne de
cabrito seca, que constitua o nosso principal sustento, e um
resto de trigo da Europa, posto de parte para sustentar
algumas galinhas que tnhamos embarcado connosco, mas que j
tinham sido comidas. Havia tambm uma certa quantidade de
cevada e trigo misturados, mas, com grande pesar, vi que tinha
sido comido ou estragado pelos ratos. Quanto a bebida, achei
alguns caixotes de garrafas nas quais havia algumas guas
cordiais, e cerca de vinte e quatro de araca (*); arranjei-as
separadamente, porque no era necessrio


  (*) Araca: bebida alcolica feita com arroz fermentado.


                              39


nem mesmo possvel met-las num caixote. Enquanto estava
ocupado a fazer estas provises, vi que a mar comeava a
encher, devagar, e tive o desgosto de ver que o meu casaco, o
colete e a camisa que deixara na praia se iam embora,
flutuando; quanto s calas, de pano e abertas no joelho, e s
meias no as tinha tirado para nadar; fosse como fosse, este
acidente fez-me ir  procura de roupas, no por muito tempo
porque logo vi que podia recuperar a minha perda com
abundncia; mas contentei-me em tirar tudo o que no podia
dispensar por agora, porque havia outras coisas que eu
desejava imenso encontrar. Neste nmero estavam as ferramentas
para trabalhar quando estivesse em terra; depois de muito
procurar achei, finalmente o ba do carpinteiro. Foi um
tesouro para mim, mas um tesouro muito mais precioso do que
seria nessa ocasio um navio carregado de oiro: desci-o e
pu-lo na minha jangada, tal e qual como estava, sem perder
tempo de olhar para dentro, porque sabia perfeitamente o que
continha.
  Depois disso, preocupei-me com munies e armas. Havia no
camarote do capito duas espingardas muito boas e duas
pistolas; agarrei em tudo isso, bem como em algumas bolsas de
plvora, um pequeno saco de chumbo e duas espadas
enferrujadas. Sabia que havia algures trs barris de plvora,
mas ignorava em que stio o nosso artilheiro os guardara. Por
fim l os desencantei, depois de ter vasculhado cantos e
recantos. Um dos barris estava molhado; os outros dois, secos
e bons; coloquei-os junto com as armas, na minha jangada.
Pareceu-me ento que estava munido com bastantes provises;
faltava agora lev-las para terra; porque no tinha nem vela,
nem remos, nem leme, e o menor sopro de vento que aparecesse
de repente podia submergir todo o carregamento.
  Trs coisas animavam as minhas esperanas: em primeiro lugar
o mar, que estava manso; em seguida a mar, que subia e
empurrava para terra; e em terceiro lugar o vento, que embora
fraco era favorvel. Encontrei ainda outros dois ou trs remos
que tinham pertencido ao escaler, e que me serviram de
reforo; e dois serrotes, um enx, um martelo (alm do que j
estava no ba do carpinteiro); finalmente saltei para a
jangada, que navegou muito bem por uma milha, at que descobri
que puxava para o stio onde eu desembarcara na vspera; isto
fez-me julgar que havia uma corrente de gua, pelo que deveria
encontrar uma baa ou um rio onde desembarcar o meu
carregamento.
  O que eu imaginara era verdade: descobri na minha frente uma
pequena abertura de terra, para a qual me sentia arrastado
pelo curso violento da mar; por isso governei a minha jangada
o melhor que pude para que seguisse a corrente; mas ao mesmo
tempo estive quase a naufragar, e se tal desgraa me
acontecesse tinha a certeza de que seria um golpe mortal.
Estas costas eram-me inteiramente desconhecidas; por isso fui
tocar na areia com a ponta da minha jangada e, como ela
flutuava do outro lado, pouco faltou para que o meu
carregamento escorregasse todo para o lado e casse na gua.
Fazia tudo o que era possvel para conservar os bas nos seus
lugares, agarrando-me a eles; mas as minhas foras eram
insuficientes para voltar a jangada; no me atrevia a deixar a
posio em que estava, e, segurando a carga com todos os meus
esforos, fiquei assim perto de meia hora, durante a qual a
mar levantando-me pouco a pouco acabou por me pr num
perfeito nvel. Alguns momentos depois, a mar, que continuava
a subir, fez flutuar a minha jangada, que impeli com o remo
para o canal e depois de andar um pouco mais vi-me na foz de
um pequeno rio, com terra de cada lado, e uma corrente rpida
que subia. Contudo, procurava com os olhos numa ou noutra
margem, um stio prprio para desembarcar, porque no me
atrevia a entrar mais para dentro do rio, e a esperana que
tinha de descobrir algum navio determinava-me a ficar to
perto da costa quanto possvel. Finalmente avistei  minha
direita um pequeno barranco para onde guiei a minha jangada
com muito trabalho e dificuldade: aproximei-me de modo que,
como o meu remo tocava no fundo, podia finalmente empurrar a
jangada para o pequeno banco; mas, fazendo isso, corria pela
segunda vez o risco de submergir toda a minha carga, porque
sendo a margem de declive muito rpido e escarpado, s podia
desembarcar num lugar onde a jangada quando chegasse a tocar,
fosse levantada para um lado e enterrada pelo outro, a ponto
que eu estaria em perigo de perder tudo. O mais que pude
fazer, foi esperar que a mar estivesse completamente cheia,
servindo-me contudo do meu remo  maneira de ncora, para
parar a jangada e conservar-lhe o flanco aplicado na margem;
num stio onde a terra fosse plana e unida, e que eu esperava
que a gua cobriria. Este meio teve o xito desejado; a minha
jangada tirava perto de um p de gua, e logo vi que tinha
bastante, levei-a para esse lugar plano e unido, onde a
amarrei fixando na terra os meus dois remos meio estragados,
numa das pontas, outro na outra, e fiquei nesta situao at
que a mar baixasse e deixasse tudo em seco e em segurana.
  Em seguida, a primeira coisa que fiz foi ir reconhecer esse
stio e procurar um lugar prprio para a minha habitao e
para arrumar os mveis em segurana.



                                  40  41


Ignorava ainda se o lugar em que me encontrava pertencia ao
continente, ou se era uma ilha, se era habitada ou deserta, ou
se tinha alguma coisa a recear dos animais ferozes. Havia a
distncia de uma milha uma montanha muito alta e escarpada que
parecia elevar o cume acima de uma cordilheira de muitas
outras montanhas situadas ao norte. Peguei numa das pistolas,
com uma bolsa de plvora e um saquinho de chumbo; assim
armado, fui  descoberta at ao alto da montanha.
  Quando l cheguei com muita fadiga e a suar, vi como seria
triste o meu destino; porque reconheci que estava numa ilha,
cercada de mar por todos os lados, sem poder descobrir outras
terras a no ser alguns rochedos muito afastados dali, e duas
ilhotas muito mais pequenas do que aquela em que estava,
situadas perto de trs lguas a oeste. Reconheci ainda que a
ilha em que me via encerrado no era cultivada, e tinha todas
as razes para crer que no havia habitantes, a no ser que
fossem animais ferozes; no via, porm, nenhum, mas descobri
logo uma grande quantidade de aves cuja espcie me era
desconhecida, assim como o que poderia fazer delas, quando as
tivesse morto. Ao voltar atirei a uma ave muito grande que vi
poisada numa rvore na orla de um grande bosque: creio que foi
esse o primeiro tiro que se disparou com arma de fogo nesse
lugar depois da criao do Mundo.
  Assim que o disparei, elevou-se de todos os lados do bosque
um nmero quase infinito de aves de muitas espcies, com um
rudo confuso causado pelos gritos e pios diferentes que cada
um dava segundo a sua espcie, todas inteiramente
desconhecidas para mim.
  Quanto  ave que matei, tomei-a por uma espcie de gavio,
porque tinha a sua cor e bico, embora sem os espores e as
garras; a carne, de um cheiro forte, no prestava para nada.
Desci ento da montanha, voltei  jangada, e pus-me a
descarreg-la. Este trabalho ocupou-me o resto do dia, e ao
cair da noite no sabia o que fazer nem que lugar escolher
para tomar repouso; no me atrevia a dormir em terra, porque
no sabia se viriam animais ferozes devorar-me, apesar de me
ter convencido de que no havia semelhante coisa a temer. De
qualquer modo entrincheirei-me o melhor que pude com os
caixotes e tbuas que tinha trazido para terra, e fiz uma
espcie de cabana para me alojar por essa noite. Quanto ao
sustento que a ilha podia fornecer no concebia ainda de onde
me podia vir, at que vi dois ou trs animais com feitio de
lebres correndo para fora do bosque onde matei a ave.


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  Imaginei ento que ainda podia tirar do navio muitas coisas
que me seriam teis, principalmente cabos, velas e outras
coisas que podiam transportar-se para terra; resolvi, pois,
tentar fazer outra viagem a bordo; e como no ignorava que a
primeira tormenta que se levantasse quebraria logo a
embarcao em mil pedaos, renunciei a qualquer outra empresa
enquanto no tivesse executado essa. Ento pensei se havia de
voltar com a jangada; mas a coisa no me pareceu praticvel:
tomei, pois, o partido de ir como da primeira vez, quando a
mar estivesse baixa; e foi o que fiz, s com a diferena que
me despi antes de sair da minha cabana, no deixando em cima
de mim seno uma camisa rasgada, ceroulas e um par de sapatos.
  Fui ao navio, e preparei l outra jangada. Mas como a
experincia que eu adquirira na construo da primeira me
tornasse mais hbil, no fiz esta to pesada, e evitei o mais
possvel carreg-la muito, o que no impediu de trazer muitas
coisas que me foram muito teis: em primeiro lugar, encontrei
no armazm do carpinteiro dois ou trs sacos cheios de pregos
e agulhas, uma grande verruma, perto de uma dzia de machados,
uma pedra de amolar, que  um instrumento de muitssimo uso;
pus de parte tudo isso junto com muitas coisas que pertenceram
ao artilheiro, principalmente duas ou trs alavancas de ferro,
dois barris de balas, sete mosquetes, uma outra espingarda de
caa, uma pequena quantidade de plvora para juntar  que j
tinha, um grande saco de chumbo em bagos e um grande rolo do
mesmo metal; mas este ltimo era to pesado, que no tive
fora para o levantar bastante para o fazer passar por cima da
amurada do navio. Alm destas coisas, levei todos os fatos que
pude encontrar, com uma vela de acrscimo do joanete da
mezena, uma maca, um colcho e alguns cobertores.
  Carreguei a jangada com tudo o que acabo de mencionar, e
levei-a para terra com um xito que contribuiu extremamente
para me reconfortar das minhas desgraas.
  Durante todo o tempo que passei longe de terra, receava que
os animais ferozes tivessem devorado as minhas provises; mas
 volta no vi qualquer sinal de visitantes para alm de um
animal semelhante a um gato selvagem que encontrei sentado num
dos meus bas; assim que me viu aproximar, fugiu para alguns
passos dali, depois parou de repente: no parecia nem
desconcertado nem assustado, e olhava para mim fixamente como
se quisesse conhecer-me. Apontei-lhe a boca da espingarda, mas
como no sabia do que se tratava, no se assustou nada, no
fez qualquer movimento de quem vai fugir. Ao ver isso,
atirei-lhe um pedao  de bolacha, embora a falar verdade, eu
no fosse muito prdigo, porque a minha proviso no era
grande; no entanto era s um pedacito de bolacha, e isso no
fazia grande falta para o meu sustento. O que  facto  que o
animal no desdenhou o presente; correu logo, cheirou-o e
depois engoliu-o; gostou tanto at que me informou, pelo seu
ar contente, que estava disposto a aceitar outra dose, mas eu
no ca nessa, e vendo que no ganhava nada meteu o rabo entre
as pernas e foi-se embora.
  Como os barris onde a plvora estava fechada eram muito
grandes e pesados, fui obrigado a destap-los para a tirar
pouco a pouco, e carreg-la na jangada em muitos volumes, o
que prolongou a minha operao; mas ao ver-me em terra com
todo o carregamento, comecei a trabalhar na construo de uma
pequena barraca com a vela e as estacas, que cortei para esse
fim; e para dentro dessa barraca levei tudo o que sabia que se
estragava  chuva ou ao sol. Depois disso, entrincheirei-me
com os caixotes vazios e os barris, que coloquei uns em cima
dos outros em volta da barraca, para a fortificar contra
qualquer assaltante, fosse ele qual fosse.
  Feito isto, entrincheirei a entrada da barraca com tbuas
metidas para dentro e um caixote vazio, pendurado por um
canto, e, depois de ter colocado as pistolas  cabeceira e ter
deitado a espingarda ao p de mim, deitei-me na cama pela
primeira vez e dormi muito sossegadamente toda a noite; estava
cansado e estafado por ter dormido muito pouco na noite
anterior e ter trabalhado rudemente todo o dia, trazendo
tantas provises de bordo.
  O carregamento que eu ento tinha de toda a espcie de
coisas era, creio, o maior que se juntara para uma s pessoa;
mas ainda no estava contente porque pensava ser meu dever
tirar tudo o que pudesse do navio enquanto no fosse ao fundo.
Todos os dias ia a bordo, quando a mar estava baixa; 
terceira vez que l fui, trouxe tudo o que pude dos aparelhos,
os pequenos cabos e o fio de carrete, uma pea de pano grosso
que estava em reserva para remendar as velas quando fosse
preciso, e o barril que se molhara; e finalmente todas as
velas, da maior  mais pequena, mas tendo primeiro que
cort-las em muitos pedaos porque j no podiam servir para
velas.
  A coisa que me deu mais prazer, em todo o esplio, foi que
depois de ter feito cinco ou seis viagens da maneira que acabo
de referir, e quando julgava que j no havia mais nada no
navio que valesse a pena levar para terra, encontrei ainda um
grande barril de bolacha, trs bons barris de rum, uma caixa
de acar mascavado e um almude de farinha muito boa.


                           44  45


  A agradvel surpresa que me causou este achado foi ainda
maior porque j no esperava encontrar mais provises que no
estivessem estragadas pela gua. Esvaziei o mais depressa
possvel o barril de bolacha, fi-lo em pedaos, e embrulhei em
bocados de velas que cortei para esse fim, e finalmente
transportei tudo para terra com tanta felicidade como na
viagem anterior.
  No dia seguinte, fiz outra viagem, e como despojara o navio
de tudo o que se podia levar e se levantar facilmente, comecei
a ver se tirava os cabos, que cortei em muitos pedaos
proporcionais s minhas foras, de maneira que pudesse
carregar com eles; juntei dois cabos e uma enxrcia, e toda a
ferramenta que pude arranjar. Depois de ter cortado a verga do
gurups e da mezena, fiz uma grande jangada, que carreguei com
todo aquele peso que acabava de preparar, e pus-me a navegar.
Mas a jangada ia to pesada, estava de tal modo carregada, que
ao chegar ao pequeno barranco onde eu tinha desembarcado as
minhas outras provises no a pude governar to bem como as
outras; virou-se e lanou-me na gua com toda a carga. Eu
prprio no corria grande perigo porque estava prximo da
terra; mas quanto  carga, perdi uma boa parte dela, sobretudo
de ferro, de que tencionava fazer bom uso; mas como a mar
tinha baixado, salvei ainda a maior parte dos cabos e algumas
peas de ferro, mas com um trabalho infinito, pois era
obrigado a mergulhar, o que me fatigou muito. Depois desta
faanha, no deixei de ir a bordo e trazer de l tudo o que
podia.
  Havia j treze dias que estava em terra, e fizera j onze
viagens a bordo. Durante esse tempo tinha tirado tudo o que
uma pessoa sozinha  capaz de tirar; mas parece-me que no
exagero dizendo que se a calmaria tivesse continuado teria
trazido para terra o navio inteiro pedao por pedao. Quis
voltar l mais uma vez; quando me preparava senti que o vento
comeava a fazer-se sentir, o que no me impediu de chegar com
a mar baixa, e apesar de ter esquadrinhado e tornado a
esquadrinhar todo o camarote do capito, com tanta exactido
que julgava que no havia mais nada a procurar, descobri um
armrio cheio de gavetas; numa delas encontrei duas ou trs
navalhas, uma tesoura pequena e dez ou doze facas com outros
tantos garfos; noutra, havia perto de trinta e seis libras
esterlinas em dinheiro, umas moedas da Europa, outras do
Brasil, em ouro e prata.
   vista deste dinheiro, sorri para mim mesmo, e escapou-me
em voz alta esta apstrofe:
  -  vaidade das vaidades! - exclamei -, metal impostor, como
s vil a meus olhos! Para que serves tu? No, no mereces que
me abaixe a apanhar-te; uma s destas facas  mais preciosa
para mim que os tesouros de Creso: no preciso nada de ti,
fica pois onde ests, ou antes, vai-te para o fundo do mar!
  Depois de ter dado livre curso  minha indignao,
reconsiderei contudo e, guardando essa soma com os outros
utenslios que encontrara no armrio, fiz uma trouxa metendo
tudo num pedao de pano grosso. Pensava j fazer uma jangada
quando descobri que o cu estava a ficar nublado e que o vento
comeava a refrescar. Um quarto de hora depois soprou do lado
da costa um vento forte, e imediatamente compreendi que seria
uma ideia louca querer fazer uma jangada com um vento que
afastava de terra, e que o melhor partido que tinha a tomar
era voltar antes que a mar comeasse a encher, se no queria
dizer adeus para sempre  terra. Atirei-me e comecei a nadar,
e atravessei a extenso que havia entre o navio e as areias;
mas tive um imenso trabalho, tanto por causa do peso que
trazia comigo como pela agitao do mar - porque o vento
levantou-se to bruscamente que houve um temporal antes que a
mar enchesse. Mas eu j estava em terra firme, ao abrigo da
tempestade, dentro da minha barraca, no centro das minhas
riquezas. Esteve um temporal medonho durante a noite, e no dia
seguinte pela manh, quando olhei para o mar, j no vi o
navio. A surpresa que ento senti deu lugar a esta reflexo
consoladora: no poupara nem trabalho nem cuidado para tirar
do navio tudo o que me podia ser de alguma utilidade, e ainda
que tivesse mais tempo, pouco restava que eu de l pudesse
trazer.


                                  46  47


                         VIII


                 ROBINSON ESTABELECE-SE NA ILHA


  Desde ento no pensei mais nem no navio nem no que me podia
acontecer, excepto em que o mar pudesse lanar restos do navio
para a praia, como efectivamente lanou; mas no me serviram
de muito. Todos os meus pensamentos tendiam ento a
precaver-me contra os selvagens que pudessem aparecer, e
contra os animais ferozes, supondo que os houvesse na ilha.
Pelo esprito passavam-me muitas ideias diferentes sobre a
espcie de habitao que havia de construir e sobre o modo de
execuo, pois estava em dvida se havia de fazer uma cova ou
levantar uma barraca; enfim, resolvi ter uma coisa e outra; e
a descrio do edifcio no ser fora de propsito. Comecei
por verificar que o stio onde estava no era prprio para me
estabelecer: em primeiro lugar porque o terreno era baixo e
pantanoso, e tinha todos os motivos para desconfiar da sua
salubridade; em segundo lugar, porque no havia gua doce por
perto, pelo que tomei o partido de procurar um stio mais
conveniente.
  Pensei que deveria ter em conta muitas vantagens para
escoLher um local: a primeira era gozar de uma bela sade e
ter gua doce; a segunda, estar ao abrigo do sol; a terceira
preservar-me dos assaltos de todos os animais devoradores,
racionais e irracionais; e a quarta, ter vista para o mar, a
fim de que, se a Providncia permitisse que passasse algum
navio ao meu alcance, no omitisse nada do que pudesse
favorecer a minha liberdade, cuja esperana ainda no perdera
de todo.
  Enquanto procurava um lugar que reunisse todas estas
condies, encontrei uma pequena plancie situada ao p de uma
colina elevada, cuja frente era lisa e sem talude, como a
fachada de uma casa, de tal modo que nada podia cair sobre
mim: na frente  desse rochedo, havia uma poro de terreno que
se enterrava um pouco e se assemelhava muito  entrada ou 
porta de um subterrneo; mas no existia caverna nem caminho
que conduzisse ao rochedo. Foi nessa esplanada, justamente
nessa cavidade que resolvi armar a barraca. A plancie no
tinha mais de cinquenta toesas de largura; ao comprido tinha o
dobro desse comprimento, e formava diante da minha habitao
uma espcie de tapete verdejante, que terminava descendo
regularmente de todos os lados para o mar. Estava situada a
nor-noroeste da colina, de sorte que me punha todos os dias ao
abrigo do calor at ter o Sol a oeste-quarto-sudoeste, ou com
pouca diferena, que  a hora aproximada do seu ocaso nesses
climas.
  Antes de levantar a tenda, fiz em frente da cavidade um
semicrculo com cerca de dez toesas de raio, desde o rochedo
at  circunferncia, e vinte de dimetro. Nesse semicrculo
plantei duas fileiras de fortes paliadas que fixei na terra,
at ficarem firmes como colunas, saindo da terra a parte mais
grossa a mais de cinco ps e meio de altura, aguadas nas
extremidades superiores: no havia mais de seis polegadas de
distncia de uma a outra fileira. Em seguida peguei nos
pedaos de cabo, que cortara a bordo do navio, e coloquei-os
uns por cima dos outros formando uma fileira dupla at ao cimo
das paliadas; ajuntando outras estacas de perto de dois ps e
meio, apoiadas nas primeiras, e servindo-lhe de reforo para
dentro do semicrculo.
  Esta obra estava to forte que no havia homem nem animal
que pudesse for-la ou passar-lhe por cima: levou-me muito
tempo e trabalho, sobretudo para cortar a madeira nos bosques,
traz-la para esse lugar, e met-la na terra. Fiz, para entrar
em casa, no uma porta mas uma pequena escada, com a qual
passava por cima das minhas fortificaes; e depois de eu ter
entrado para dentro, retirava-a. Desta maneira julgava-me
perfeitamente defendido e bem fortificado contra qualquer
agresso; e por consequncia dormia com toda a segurana
durante a noite, o que dantes no podia fazer, ainda que na
verdade com o correr do tempo tenha visto que no eram
precisas tantas precaues contra os inimigos que eu julgava
dever recear. Foi para este entrincheiramento ou, se quiserem,
para essa fortaleza, que transportei as minhas provises, as
minhas munies, numa palavra, todas as minhas riquezas. Erigi
a um grande barraco para me guardar das chuvas, realmente
excessivas nessa regio durante certo tempo do ano. Comeara
por construir uma pequena barraca, em seguida uma maior por
cima, e por fim cobri tudo com um pano alcatroado, que tinha
salvo juntamente com as velas.


                           48  49


  Desde ento deixei por muito tempo de me deitar na cama que
trouxera para terra, gostando mais de dormir numa maca muito
boa onde antes dormia o piloto do nosso navio.
  Trouxe para o meu barraco todas as provises que se podiam
estragar  chuva, e depois de encerrados todos os meus bens no
meu domiclio, fechei-Lhe a entrada, e, como j disse,
servi-me da escada. Feito isto, comecei a cavar na encosta, e,
amontoando a terra e as pedras que da tirava ao p da
paliada, formei desta maneira uma espcie de terrao que
levantou o terreno cerca de um p e meio. Assim fiz, por trs
do barraco, uma caverna, que ia servir como celeiro e adega
da minha casa. Levou-me muito trabalho e tempo primeiro que
pudesse terminar essas diferentes obras;  isto que me obriga
a voltar a alguns factos que ocuparam o meu esprito durante
esse tempo.
  Um dia, quando ainda no imaginara o plano da minha barraca
e da minha adega, aconteceu que, tendo-se formado uma nuvem
sombria e espessa, resultou dela um temporal, subitamente fez
um relmpago, e logo em seguida um grande trovo, como era
natural: ainda estava impressionado com o relmpago quando
passou na minha alma um pensamento com a prontido de esse
meteoro:
  - Ah! - disse comigo mesmo - que acontecer  minha plvora?
Sem ela, com que hei-de defender-me? Sem ela como hei-de
ocorrer ao meu sustento?
  Estava mais morto do que vivo, quando me lembrei de que toda
a plvora podia explodir num instante. Fez-me isto tanta
impresso que, quando passou a tempestade, suspendi as minhas
fortificaes e os meus trabalhos, para me pr a fazer sacos e
caixas para guardar a plvora, a fim de que, depois de ter
feito muitos pacotes dispersos aqui e ali, um no largasse
fogo ao outro, e que eu no estivesse exposto a perd-la toda
duma vez. Gastei seguramente quinze dias a acabar esta obra, e
creio que a plvora, cuja quantidade subia a cento e quarenta
libras, no foi dividida em menos de cem pacotes. Quanto ao
barril, que j vinha molhado de bordo, no lhe receava nenhum
acidente; coloquei-o na minha nova caverna, a que tive a
fantasia de chamar cozinha e escondi o resto nos buracos dos
rochedos, que tive o
cuidado de marcar com sinais, e onde estava ao abrigo da
humidade.
  Durante todo o tempo que gastei a fazer isto, no deixei
passar dia algum sem sair pelo menos uma vez, ora para me
distrair, ora para tratar de matar alguma coisa boa para
comer, ou mesmo para conhecer, o mais que pudesse os produtos
da ilha.
  Da primeira vez que sa, vi logo que havia cabras, o que me
causou muita alegria; mas essa alegria foi curta: eram to
selvagens, to astutas, to ligeiras a correr que era difcil
demais aproximar-me delas. Essa dificuldade no me desanimou
contudo; no duvidava que poderia atirar-lhes de vez em
quando, como aconteceu pouco depois, quando notei as suas idas
e vindas. Tinha notado que, quando estava nos vales e as via
nos rochedos, assustavam-se e fugiam com uma ligeireza
extrema; mas se estavam a pastar nos vales e eu estava nos
rochedos, no se mexiam, nem davam mesmo por mim. Da conclu
que, pela posio do seu nervo ptico, tinham a vista de tal
modo baixa, que no viam facilmente os objectos que estavam
por cima delas: o que fez com que depois eu tivesse o cuidado
de subir sempre aos rochedos para comear uma caada a fim de
estar mais alto que elas, e ento matava muito  vontade. Ao
primeiro tiro que disparei matei uma cabra que tinha junto de
si um cabrito ainda de mama, o que me custou bastante: quando
a me caiu, o filho manteve-se ao p dela quando fui busc-la;
pu-la s costas, e o cabrito seguiu-me at  minha habitao;
pus a cabra no cho e depois, pegando no filho ao colo,
levei-o para dentro de casa, com a inteno de o sustentar;
mas ele no quis comer, o que me obrigou a mat-lo e a com-lo
eu.
  Esta caa sustentou-me por muito tempo; porque eu vivia com
economia e governava as minhas provises, sobretudo a bolacha,
o mais que era possvel. Vendo fixa a minha habitao, achei
que era absolutamente necessrio escolher um stio e juntar as
provises para acender lume. Mas o que fiz com esse fim, a
maneira como alarguei a minha caverna, as riquezas e as
comodidades que lhe juntei,  o que hei-de contar a seu tempo.
Devo agora dar conta do que me diz respeito pessoalmente, e
dos pensamentos que agitavam de diversos modos o meu esprito,
por causa de um gnero de vida to estranho, como bem se pode
imaginar. A minha condio apresentava-se-me aos olhos sob o
aspecto duma imagem terrvel; porque como fora lanado para
essa ilha depois de uma violenta tempestade, depois de me ter
achado a algumas centenas de lguas do rumo ordinariamente
seguido pelos navegadores, tinha muita razo em atribuir esse
acontecimento a uma sentena da justia divina, que me
condenava a terminar penosamente a minha vida em to triste
situao.
  Enquanto eu fazia estas reflexes, corriam-me as lgrimas ao
longo das faces: tambm s vezes me lamentava da Providncia
me ter abandonado a tal ponto.


                                  50  51


  Mas esses pensamentos eram sempre contrabalanados por
outros que lhes sucediam rapidamente, e me mostravam que no
tinha razo.
  Um dia, passeando eu  beira-mar, com a espingarda debaixo
do brao, estava muito pensativo sobre a minha condio
presente; quando a razo, que sabe o pr e o contra, veio
replicar aos murmrios que me tinham sado dos lbios:
  - Pois bem - dizia eu comigo em voz baixa - estou numa
miservel condio,  verdade. Mas onde esto os meus
companheiros? No ramos onze no escaler? Onde esto os outros
dez? Porque  que eles no se salvaram? Porque  que fui o
nico poupado? No se devem considerar as coisas pelo lado bom
e pelo lado mau? E os bens de que gozamos no nos devem
consolar dos males que nos afligem?
  Em seguida considerava como estava vantajosamente abastecido
para o meu sustento, qual seria a minha sorte se o navio
flutuasse para fora do banco onde encalhara primeiro. Teria
sido absolutamente impossvel abastecer-me das coisas
indispensveis para o sustento da vida.
  - O que seria feito de mim? - exclamei, em voz muito alta,
neste monlogo. - Que seria feito de mim sem a minha
espingarda, por exemplo, sem munies para ir  caa, sem
ferramenta para trabalhar, sem fato para me cobrir, sem cama
para descansar, sem barraca para habitar?
  Gozava dessas coisas, estava abundantemente provido delas,
de tal maneira que poderia qualquer dia dispensar a minha
espingarda, quando as munies se tivessem acabado, tendo
ainda com que subsistir durante longos anos. Porque eu
previra, desde o princpio, a maneira de remediar todos os
acidentes que me acontecessem, no s no caso de me virem a
faltar as munies, mas tambm quando a sade ou as foras
faltassem.
  Confesso contudo que no me viera ainda  ideia que podia
perder as minhas munies duma s vez; o fogo do cu podia
fazer ir pelos ares toda a minha plvora, e era essa a ideia
que me consternava tanto todas as vezes que o relmpago ou o
trovo vinha record-lo. Devo agora descrever uma vida como
nunca se ouviu falar de outra igual neste mundo, uma vida
silenciosa. Para tal vou voltar ao princpio.
  Foi a 30 de Setembro que pus pela primeira vez p em terra
nesta ilha assustadora, na poca em que o Sol, estando no
equincio do Outono, dardejava quase perpendicularmente os
seus raios sobre a minha cabea; porque, segundo os meus
clculos, devia estar na latitude de nove graus e vinte e dois
minutos a norte do equador. No quinto dia da minha chegada 
ilha, reflecti  que me perderia no clculo do tempo por no
ter papel, pena, tinta; e que no poderia mais distinguir os
domingos dos dias da semana se no lhe descobrisse substituto.
  Para evitar essas confuses, erigi ao p da praia, no stio
onde saltara em terra pela primeira vez, um grande poste
quadrado, com o qual fiz uma cruz e onde gravei esta
inscrio:


  Cheguei a esta ilha em 30 de Setembro de 1659


  Nos lados desse poste, marcava cada dia com um risco;
passando sete dias, marcava um risco maior; e todos os
primeiros dias do ms, um outro duas vezes maior que o do
stimo dia. E desta maneira tinha o meu calendrio, o meu
clculo de semanas, meses e anos. Devo observar que entre o
grande nmero de coisas que tirei do navio, nas diferentes
viagens que a ele fiz e j mencionei, encontrei muitas coisas
menos importantes,  verdade, do que aquelas que j relatei,
mas que nem por isso deixaram de ser para mim de grande uso;
por exemplo, penas, tinta e papel, que achei nos camarotes do
capito, do piloto e do carpinteiro; trs ou quatro compassos,
instrumentos de matemtica, quadrantes, culos de aproximao,
mapas e livros de navegao, tudo isto que trouxe sem ordem,
sem me dar ao trabalho de examinar o que me poderia servir ou
no; encontrei trs Bblias muito boas, que recebera como
carregamento de Inglaterra, e que tivera o cuidado de meter
nas malas quando parti do Brasil; alm disso, alguns livros
portugueses, e, entre outros, dois ou trs livros de oraes e
muitos outros que tambm tive o cuidado de pr na mala. No se
deve esquecer tambm que tnhamos no navio dois gatos e um
co, cuja histria famosa pode muito bem ter lugar nesta e
dar-lhe relevo; levei os gatos comigo, e quanto ao co ele
mesmo saltou do navio para o mar e veio ter comigo no dia
seguinte ao stio onde eu depusera a minha primeira carga.
Durante muitos anos desempenhou junto de mim as funes de um
servo e de um camarada fiel; no me deixava nunca esquecer do
que era capaz de ir procurar, empregava todas as manhas do
instinto para me fazer boa companhia; s desejava uma coisa
que sabemos perfeitamente impossvel: faz-lo falar. J disse
que tinha encontrado penas, tinta e papel; ho-de ver como
darei conta de tudo o que se passar enquanto durar a tinta,
mas, quando acabar, torna-se-me isso impossvel, porque no
pude encontrar outro meio de escrever, nem nada que o
substitusse.
  Por mais considervel que fosse este armazm que eu juntara,
faltava-me ainda grande quantidade de coisas:


                                  52  53


nesse nmero estava uma enxada, um alvio e uma p para cavar
e transportar terra; agulhas, alfinetes e linhas.
  Esta falta de ferramentas explica-se pela minha lentido em
tudo o que fazia: passou-se perto de um ano antes que tivesse
acabado inteiramente a minha paliada e recinto.
  As estacas de que era formada a paliada pesavam tanto, que
me custava imenso levant-las; era preciso tanto tempo para as
cortar nos bosques, para as aplainar e sobretudo para as
conduzir at  minha habitao, que uma s levava-me s vezes
dois dias, desde o cortar at ao enterrar no cho.
  Para este ltimo trabalho, servia-me no princpio de uma
grande pea de madeira; depois, imaginei que seria mais cmodo
servir-me de uma alavanca de ferro; foi o que fiz; mas, apesar
deste auxlio, no deixou de ser um rude e longo exerccio
esse de enterrar as estacas.
  Mas eu no tinha motivo para desanimar pelo imenso tempo
gasto numa obra, qualquer que ela fosse; no devia ser avaro
de tempo, e no sabia em que poderia empreg-lo se essa obra
terminasse, a no ser visitar a ilha para procurar sustento; e
 o que fazia todos os dias. Comecei ento a pensar seriamente
na minha situao e nas circunstncias com que era
acompanhada. Pus por escrito o estado dos meus negcios, no
para o deixar aos meus sucessores (porque no havia aparncias
de que eu tivesse muitos herdeiros) mas para afastar do meu
esprito os pensamentos diferentes que vinham em tropel
acabrunh-lo todos os dias. A fora da razo comeava a
tornar-se senhora do abatimento do corao e, para a secundar
com todos os meus esforos, fiz um inventrio dos bens e dos
males que me cercavam, comparando uns com outros, a fim de me
convencer de que havia gente ainda mais desgraada do que eu.
  Considerado tudo pausadamente, resultava uma concluso
incontestvel: no h condio to miservel na vida que no
tenha alguma coisa de positivo ou de negativo que deva ser
considerada como um favor da Providncia. J acostumara um
pouco o esprito a suportar a minha condio; abandonara o
hbito de olhar para o mar a ver se avistava algum navio e,
deixando de perder o meu tempo em coisas vs e muitas vezes
aflitivas, quis da por diante empreg-lo todo em alcanar as
douras possveis deste gnero de vida.
  J descrevi a minha habitao que colocara ao p de um
rochedo, e que era um barraco cercado de uma fileira dupla de
fortes estacas atadas por cabos: Mas eu poderia dar
perfeitamente o nome de muralha a esse tabique, porque
efectivamente tinha-o  murado para o lado de fora, com um
reforo de relva de dois ps de espessura, e, no fim de ano e
meio ou perto, juntei caibros que, vindos do alto da paliada,
se encostavam ao rochedo, e que guarneci e entrelacei com
ramos de rvores e com outros materiais que pude encontrar,
para me resguardar das chuvas que pareciam ser muito violentas
em certo tempo do ano. No interior havia um monte confuso de
mveis e ferramentas que, por no estarem arrumadas, ocupavam
quase todo o espao, de sorte que pouco me restava para me
mexer. Pus-me, assim a alargar a minha caverna e a trabalhar
debaixo da terra, porque o rochedo era muito largo e cedia
facilmente ao trabalho que lhe fazia. Assim, vendo-me
suficientemente em segurana contra os animais ferozes,
adiantei os meus trabalhos na rocha para a direita, e depois,
voltando ainda uma segunda vez  direita, consegui fazer uma
abertura, para poder sair por uma porta que fosse independente
da paliada ou das fortificaes. Esta obra no dava somente
uma espcie de porta traseira  barraca e  arrecadao para
a ter uma entrada e uma sada, mas ainda me dava espao para
arrumar mveis. Foi ento que me apliquei a fabricar os que me
eram mais necessrios, e comecei por uma cadeira e uma mesa,
mveis sem os quais no podia escrever nem comer com  vontade
e prazer suficientes.
  Meti, pois, mos  obra e no posso deixar de notar que no
h homem que,  fora de examinar cada coisa em particular e
de a julgar segundo as regras da razo, no possa, com o
tempo, tornar-se habilssimo numa arte mecnica.
  Nunca manejara na minha vida ferramenta alguma e, contudo,
pelo meu trabalho, pela minha aplicao, pela minha destreza,
achei no fim que podia fabricar tudo o que me fazia falta
desde que tivesse os instrumentos prprios; mesmo sem
instrumentos fiz muitas obras, e algumas delas s com o
auxlio de um machado e de uma plaina, embora com trabalho
infinito. Se, por exemplo, quisesse possuir uma tbua, no
tinha outro meio seno cortar uma rvore de ambos os lados at
a tornar suficientemente delgada, e aplain-la em seguida. 
bem verdade que por este mtodo no podia seno fazer uma
tbua de uma rvore inteira; mas, para isso, assim como para o
trabalho e tempo que me levava no havia outro remdio seno
ter pacincia. Alm disso, o meu tempo e o meu trabalho eram
to preciosos, que tanto fazia empreg-lo desta maneira como
de outra.
  Fiz, pois, uma cadeira e uma mesa; foi por a que comecei,
e, servindo-me dos pedaos de tbuas que trouxera na minha
jangada. Mas, alm das tbuas, fiz grandes prateleiras da
largura de um p e meio, que coloquei umas por cima das outras


                                  54  55


ao comprido de um lado da caverna, para l pr ferramentas,
pregos, ferragem, ou seja, para arrumar separadamente todas as
coisas e poder encontr-las facilmente. Cravei cabides na
parede de um rochedo, para pendurar espingardas e outros
objectos. De tal maneira que algum que visitasse a caverna se
julgaria num armazm geral de todas as coisas necessrias: a
boa ordem que a reinava permitia, antes de mais, achar  mo
o que se procurava, e essa ordem, junto com a abundncia de
objectos teis e cmodos, causava-me muita satisfao.
  Vendo-me estabelecido no meu domiclio, provido de mveis,
com uma cadeira e uma mesa, tudo to bem acondicionado,
comecei a fazer um dirio, que continuou enquanto a tinta
durou.


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IX


                 TRECHOS DO DIRIO DE ROBINSON


  A vo alguns trechos desse dirio.
  No dia 1 de Novembro, armei a minha barraca ao p do
rochedo; fi-la o mais espaosa possvel, segurando-a com
estacas que cravei e nas quais suspendi a minha maca. Dormi a
na primeira noite.
  No dia 4, pela manh, prescrevi uma regra e impus a mim
mesmo o dever de a observar diariamente, da por diante: era
dividir o meu tempo para trabalhar, passear com a espingarda,
dormir e ter pequenos divertimentos. Arranjei a coisa da
maneira seguinte: pela manh, ia passear com a espingarda
durante duas ou trs horas, desde que no chovesse; em seguida
punha-me a trabalhar at perto das onze horas, comendo em
seguida o que a Providncia e a minha habilidade me tinham
preparado; ao meio-dia deitava-me e dormia at s duas, porque
fazia muito calor; enfim, voltava para o trabalho  tarde.
Destinei esse dia e o seguinte a fazer uma mesa; e  a minha
opinio que todo o homem que se visse no meu lugar no se
faria menos hbil ensinado pelos grandes mestres que so o
tempo e a necessidade.
  Foi a 17 que comecei a cavar no rochedo, por detrs da
barraca, para ficar mais  larga, mais  vontade. Faltavam-me
trs coisas muito necessrias para essa obra: um alvio, uma
p e um carrinho de mo ou um cesto. Interrompi, pois, o
trabalho, e pus-me a pensar no que faria para suprir essa
falta.
  Substitu o alvio facilmente por alavancas de ferro que
serviam para esse fim, embora pesadas; quanto  p, era para
mim to necessria que sem ela nada podia efectivamente fazer;
todavia no sabia ainda como substitu-la. No dia seguinte18
de Novembro, procurando nos bosques, encontrei uma rvore que,
se no era a mesma que os brasileiros chamam a rvore de ferro


                              57


por causa da sua extrema dureza, pelo menos parecia-se muito
com ela. Fatiguei-me singularmente a cortar-lhe um pedao,
depois de ter estragado um machado; e no foi com menos custo
que a levei at ao meu domiclio, porque era tambm muito
pesada. A dureza excessiva da madeira, o modo como eu era
obrigado a lev-la, fizeram com que levasse muito tempo a
construo dessa ferramenta; mas enfim, pouco a pouco, dei-lhe
uma forma entre a p e a enxada. Tinha o cabo feito
exactamente como aquelas que se usam em Inglaterra; mas
desprovida de ferro em volta
  no podia ter tanta durao: bastou porm para os fins que
lhe destinava.
  Faltava-me ainda outra coisa: um cesto ou um carrinho de
mo. No podia de modo algum fazer um cesto, porque no tinha
nem sabia se havia na ilha salgueiro, vime, ou outra rvore
cujos ramos fossem prprios para essa obra. Quanto ao carrinho
parecia-me que o conseguiria fazer, excepto a roda para cuja
construo me no sentia com muita habilidade; alm disso no
tinha nada para forjar o eixo de ferro que deve passar no
cubo. Assim fui obrigado a renunciar ao uso deste ltimo
instrumento
e, para levar para fora da caverna a terra que tirava cavando,
servi-me de um meio muito semelhante ao que os operrios
empregam para carregar a cal. O feitio deste ltimo
instrumento no me custou tanto a trabalhar como o da p, mas
um e outro, junto com a tentativa intil de fazer um carrinho,
no me levaram menos de quatro dias inteiros, tirando o meu
passeio matutino; era raro o dia em que no saa com a
espingarda voltando a casa com alguma coisa de comer.
  25 de Novembro. Tendo eu interrompido o outro trabalho
porque me ocupara a fazer ferramentas, tornei a pegar-Lhe logo
que esses trabalhos acabaram, trabalhando cada dia tanto
quanto as minhas foras e as regras que prescrevera para a
distribuio do meu tempo mo permitiam.
  Gastei dezoito dias em alargar e fazer alongar a caverna,
at poder arrumar nela comodamente todos os mveis.
  Note-se que fiz um lugar bastante espaoso para me servir de
armazm, de cozinha, de sala de jantar e de celeiro;
entretanto habitava a minha barraca, excepto em certos dias de
Inverno durante os quais chovia tanto e tanto, que no estava
nela bem abrigado. E foi isso que me obrigou depois a
estender, sobre todo esse espao que encerrava a minha
paliada, compridas varas sobre traves encostadas ao rochedo,
e em cobri-las com espadanas e grandes folhas.
  A 10 de Dezembro quando j considerava a minha abbada
acabada separou-se de repente uma grande quantidade de terra
de um dos lados da parte de cima, o que fez tal estrondo que
me assustei imenso, e com razo, porque se estivesse nessa
ocasio por baixo no precisaria de outro enterro. Tive muito
que fazer para reparar esse desastre; primeiro, tirar a terra
que tinha cado; em seguida, o que era mais importante,
escorar a abbada para evitar que o acidente se repetisse.
  A 11, trabalhei para esse fim; erigi duas escoras que se
pregavam em cima com dois pedaos de tbua em forma de cruz.
Acabei essa obra no dia seguinte; continuei, durante perto de
uma semana, a juntar outras escoras semelhantes s primeiras,
que sustentaram com segurana completa a minha abbada, e que,
formando uma fileira de colunas, pareciam dividir a minha casa
em dois compartimentos.
  Dia 17. Desde este dia at 20, ocupei-me em colocar
prateleiras e em pregar pregos nas escoras, para colocar tudo
o que pudesse estar suspenso; a partir desse momento, pude
gabar-me que havia ordem e arranjo na minha habitao.
  A 20 de Dezembro, comecei a levar os meus mveis para a
caverna, a guarnecer a minha casa, e a fazer uma mesa de
cozinha onde preparar a carne. Servi-me de tbuas para esse
fim; mas esse material continuava a rarear.
  A 27, matei um cabrito e estropiei um outro, que consegui
agarrar e levei de rastos at casa e a tratei-Lhe da perna.
Notem que tive tanto cuidado com ele que sobreviveu e em pouco
tempo ficou rijo dessa perna como da outra; depois de viver na
minha companhia bastante tempo familiarizou-se, e pastava na
relva que havia dentro dos meus domnios sem nunca tentar
fugir. Foi ento que me veio pela primeira vez  ideia
arranjar animais e t-los comigo, para ter com que me
sustentar quando acabasse a plvora e o chumbo. No dia 1 de
Janeiro de 1660, estava ainda muito calor; mas sa pela manh
muito cedo com a espingarda. Desta vez, tendo avanado mais
nos vales que esto mais ou menos no centro da ilha, vi que
havia grande quantidade de cabras mas eram selvagens e de
difcil acesso.
  No dia 3, comecei as minhas fortificaes, ou por outra a
minha muralha; e, como sempre tinha algum receio de ser
atacado, nada esqueci para tornar a obra suficientemente
forte. Como j fiz a descrio dessa muralha, omito
expressamente aqui o que estava escrito no dirio. Basta dizer
que demorei at 14 de Abril a faz-la e a torn-la completa:
formava, como j expliquei, um semicrculo que principiava num
lado do rochedo e acabava no outro. Fatiguei-me muito neste
intervalo de tempo durante o qual me vi contrariado


                                  58  59


pela chuva, no muitos dias mas semanas e meses.  verdade que
no me julgava em segurana sem que essa muralha estivesse
acabada; quando isto aconteceu e depois de a ter revestido com
relva por fora persuadi-me que se algum desembarcasse na
ilha, no descobriria que ali existia uma habitao. E fiz
bem, como se ver mais adiante numa ocasio muito notvel.
Contudo continuava a dar os meus giros pelos bosques para ver
se matava alguma caa, a no ser que a chuva me impedisse; e
nesses passeios acontecia-me amide descobrir ora uma coisa
ora outra que me eram vantajosas. Encontrei, por exemplo, uma
espcie de pombos que no fazem ninho nas rvores
como os pombos bravos, mas sim nos buracos de rochedos,
parecidos com os dos pombais: apanhei alguns dos pequenos, com
a teno de os sustentar e de os domesticar, o que consegui;
mas quando se tornaram crescidos, voaram e no voltaram mais,
talvez devido a falta de alimento, porque no tinha com que
lhes encher o papo. Fosse como fosse achei facilmente os seus
ninhos, e tomei-lhes os filhos, que proporcionaram  minha
mesa manjares deliciosos.
  Contudo, via na administrao da minha casa que me faltavam
muitas coisas que julguei ao princpio impossvel de conseguir
fabricar para meu uso; nunca consegui, por exemplo, acabar um
tonel e pr-lhe os arcos; tinha um ou dois barris, como disse,
mas no tinha suficiente habilidade para construir um apesar
de todos os esforos que fiz para isso durante muitas semanas;
foi-me impossvel pr-lhes os fundos, ou juntar as aduelas o
suficiente para neles ter gua, at que abandonei este
projecto.


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                              X


                    CONTINUAO DO DIRiO
                    - TREMOR DE TERRA


  Faltava-me ainda um candeeiro pelo que tinha que deitar-me
logo que anoitecia, normalmente pelas sete horas.
  Quando matava alguma cabra, conservava-lhe o sebo; em
seguida fiz secar ao sol uma pequena palmatria de barro que
fabricara, e com um fio a servir-me de mecha, fiquei com uma
lmpada cuja chama no era to luminosa como a de um
candeeiro, derramando um claro sombrio. No meio de todos os
meus trabalhos, aconteceu-me achar, remexendo nos mveis, um
saco que os meus companheiros de bordo tinham enchido de gro
com o fim de sustentar as galinhas, no para essa viagem, mas
para uma precedente, que era, parece-me a de Lisboa ao Brasil;
j falei dele: o que restava do trigo fora rodo pelos ratos,
e j l no havia seno poeira. Ora, como eu precisava do saco
para outra coisa, se no me engano para meter plvora, quando
a separei com medo dos relmpagos, fui sacudi-lo ao p dos
rochedos, ao lado das fortificaes. Este facto deu-se pouco
antes das grandes chuvas e fiz to pouco caso do que acabara
de fazer que no fim de um ms ou perto j no me lembrava de
semelhante coisa, quando descobri aqui e ali algumas hastes
que saam da terra: tomei-as primeiro por plantas que no
conhecia. Mas algum tempo depois fiquei espantado de ver dez
ou doze espigas fecundadas que eram duma cevada verde
perfeitamente boa, da mesma espcie que na Europa.
   impossvel exprimir qual foi o meu espanto e a diversidade
dos pensamentos que ento me vieram ao esprito. At aqui a
religio no tivera parte no meu procedimento ou lugar no meu
corao; considerava tudo o que me acontecera efeito do acaso;
quando muito escapava-me s vezes dizer de corrida, como faz


                              61


naturalmente muita gente, que Deus era o senhor, sem pensar no
seu papel ou na ordem que se observava na disposio dos
acontecimentos deste mundo. Mas depois de ver crescer cevada
num clima que eu sabia no ser de modo algum prprio para o
trigo e sem saber porqu, fiquei cheio de espanto, e pus
primeiro no esprito que Deus fizera crescer esse trigo
miraculosamente, sem o concurso de semente alguma e que
operara esse prodgio unicamente para me fazer subsistir neste
miservel deserto.
  Mas enfim recordei-me que tinha sacudido nesse lugar um saco
onde havia milho para as galinhas, e reconheci que no havia
nada de sobrenatural nesse acontecimento. Contudo era
extraordinrio e imprevisto, e no exigia menos gratido do
que se fosse miraculoso; porque, como a Providncia dirigira
as coisas de maneira a que restassem doze gros inteiros num
pequeno saco abandonado aos ratos, visto terem sido comidos os
outros gros; alm disso fez que os lanasse exactamente num
stio onde a sombra de um grande rochedo os fez germinar; e
fez que no tivesse despejado o saco num stio onde teriam
sido logo queimados pelo sol, ou encharcados pelas chuvas: era
um favor to real como se tivessem cado do cu.
  Como podem imaginar, no deixei de fazer a colheita de trigo
na estao prpria, no fim de Junho; e, comprimindo at ao
menor gro, resolvi semear tudo na esperana de que com o
tempo viesse a colher o suficiente para fazer o meu po.
Passaram-se quatro anos antes que o pudesse provar, e mesmo ao
fim desse tempo usei dele sobriamente como direi quando chegar
a esse ponto; porque aquele que semeei a primeira vez
perdeu-se quase todo, por ter escolhido mal o tempo,
semeando-o na estao seca, o que fez com que morresse ou
crescesse muito pouco. Mas falaremos disso com mais
minuciosidade noutra parte.
  Alm desta cevada, houve ainda umas trinta espigas de arroz,
que conservei com o mesmo cuidado servindo-me depois para
fazer po e para guisar, pois descobri como prepar-lo sem o
fazer em pasta.
  Trabalhei durante trs ou quatro meses na construo da
minha muralha e acabei-a a 14 de Abril; a entrada fazia-se por
meio de uma escada e no de uma porta, com medo que notassem
de longe a minha habitao.
  A 16 de Abril, acabei a escada: nada nem ningum podia
entrar seno passando por cima da muralha. No dia seguinte
pouco faltou para todos os meus trabalhos e mesmo a minha vida
se perderem; eis como tudo se passou: quando estava na minha
barraca fiquei repentinamente aterrado ao ver que a terra se
abalava  do alto da minha abbada e do cimo do rochedo que
pendia sobre a minha cabea; dois dos pilares que eu colocara
na minha caverna estalaram horrivelmente, e julguei que no
havia nada de novo e que era ainda a queda de uma quantidade
de materiais, como acontecera j uma vez. Com medo de ficar
enterrado debaixo, corri o mais depressa possvel pela escada,
e, no me julgando em segurana, passei por cima da muralha
para me afastar e fugir a pedaos inteiros dos rochedos, que
eu julgava a todo o instante irem cair sobre mim. Mal pusera o
p no cho, do outro lado da minha estacada, vi claramente um
espantoso tremor de terra. Trs vezes o terreno tremeu debaixo
dos meus ps; entre cada abalo houve um intervalo de perto de
oito minutos, e foram os trs to violentos, que os mais
slidos e fortes edifcios teriam abatido. Um lado inteiro de
um rochedo, situado a perto de meia milha de mim, caiu com um
estrondo que igualava o de um trovo. O prprio oceano parecia
agitado com esse prodgio, e julgo que os abalos eram ainda
mais violentos nas ondas que na ilha. O movimento da terra
dera-me baques de corao, como me teria sucedido num navio,
se estivesse no mar: no vira nem ouvira contar nada assim, e
o terror de que estava possudo gelava-me o sangue nas veias,
e prendia todas as potncias da minha alma.
  Mas o estrondo causado pela queda do rochedo veio ressoar
nos meus ouvidos e arrancar-me ao estado de insensibilidade em
que estava imerso, para me encher de horror e de assombro,
fazendo-me imaginar coisas terrveis como uma montanha prestes
a soterrar a minha barraca debaixo de todo o seu peso, e com
ela todas as minhas riquezas. Estava gelado de terror.
  Vendo depois que esses trs abalos no eram seguidos de
outros, comecei a tomar coragem mas no ousava ainda passar
por cima da muralha, com medo de ser enterrado vivo;
conservei-me sem me mexer, sentado no cho, aflito e incerto
do que devia fazer. Durante esse tempo todo, no tinha nenhum
pensamento srio de religio, para alm de pronunciar de vez
em quando, balbuciando, "Senhor tende piedade de mim!" Contudo
nem esta sombra de f durou muito tempo, desfez-se to
depressa como o perigo.
  Escurecia, e o cu cobria-se de nuvens como se fosse chover.
O vento levantou-se e foi aumentando to fortemente, que em
menos de meia hora rebentou um furioso furaco. Nesse instante
vi o mar branco de espuma, a praia inundada pelas ondas, as
rvores arrancadas da terra, todas as devastaes duma
terrvel tempestade. Durou perto de trs horas, depois foi


                           62  63



diminuindo,  e no fim de outras trs o vento abrandou, e
comeou a chover com uma fora imensa.
  Estava ainda na mesma situao de corpo e esprito quando de
repente reflecti que, sendo esses ventos e essa chuva
consequncia natural do tremor de terra, este j teria
terminado e eu podia aventurar-me a voltar para casa. Estes
pensamentos despertaram o meu esprito, e como a chuva
apertava, fui sentar-me dentro da barraca; temendo que fosse
derrubada pela violncia da chuva
  fui forado a retirar-me para dentro da caverna, apesar de
ao mesmo tempo tremer com medo que desabasse.
  Este dilvio obrigou-me a fazer uma espcie de canal do
feitio de um regato atravs das minhas fortificaes, que
servisse de escoadoiro s guas que, de contrrio teriam
inundado a caverna. Depois de me ter abrigado durante algum
tempo e de ter pensado que o tremor de terra passara, o meu
esprito acalmou-se, e, para sustentar a minha coragem de que
bem precisava, fui para o stio onde estava a minha pequena
proviso, fortific-la com um golo de rum; mas, mesmo ento
bebi muito pouco, porque sabia bem que quando as garrafas
estivessem despejadas no haveria meio de as encher.
  Continuou a chover durante toda a noite e parte do dia
seguinte, de tal maneira que no houve meio de pr o p fora
de casa; mas como estava mais senhor de mim, comeava a
reflectir no melhor partido que tinha a tomar; estando a ilha
sujeita a tremores de terra, no devia fazer a minha
residncia numa caverna, devia antes pensar em edificar uma
cabana num stio descoberto e desembaraado, onde me
fortificaria com uma muralha igual  primeira, protegendo-me
contra todos os animais e homens; estava convencido de que se
ficasse neste lugar ele seria infalivelmente o meu tmulo.
  Estes raciocnios fizeram-me pensar em tirar a barraca do
stio onde a levantara: se o rochedo escarpado fosse sacudido
outra vez, no deixaria de cair sobre mim. Nos dias
seguintes19 e 20 de Abril, tive o esprito ocupado s com a
escolha do stio para onde transferiria a residncia. O medo
de ser enterrado vivo fazia com que eu no dormisse
tranquilamente; no entanto tambm no ousava deitar-me fora da
fortaleza, onde ficaria descoberto e sem defesa; e quando
olhava em volta e considerava a boa ordem em que pusera as
coisas, o quanto estava agradavelmente escondido, o pouco que
tinha a recear as agresses, sentia certamente muita
repugnncia em me mudar. Alm disso parecia-me que levaria
muito tempo a fazer novos trabalhos, e apesar dos riscos,
teria de ficar onde estava at ter formado uma espcie de
acampamento suficientemente fortificado onde instalar os meus
alojamentos com toda a segurana.
  Descansei o esprito por algum tempo, e tomei a resoluo de
trabalhar incessantemente na construo de uma muralha com
arcadas e cabos - como da primeira vez - encerrar os meus
trabalhos num pequeno crculo, e esperar, para me mudar, que
estivessem acabados e aperfeioados. Foi a 21 que isso foi
decretado no meu conselho privado.
  22 de Abril. Logo pela manh, pensei nos meios de pr o meu
projecto em execuo, mas achei-me muito atrasado quanto a
ferramenta: tinha trs enxs e uma infinidade de machados,
porque tnhamos embarcado uma proviso deles para negociar com
os nativos; mas esses instrumentos,  fora de bater e de
cortar madeira dura e nodosa, tinham o gume todo dentado e
embotado; e apesar de possuir uma pedra de afiar, no sabia
como faz-la girar. Este obstculo atormentou muito o meu
esprito e foi para mim o que seria para um homem de Estado um
grande problema de poltica, e para o juiz a condenao ou
absolvio de um criminoso.
  Finalmente, inventei uma roda ligada a um cordo para dar
movimento  pedra com o p, enquanto teria as duas mos
livres. Notem que nunca vira tal inveno em Inglaterra, ou
pelo menos no tinha notado como era feita, apesar de ser
muito comum, como depois verifiquei. Alm disso a minha pedra
era grossa e muito pesada, e essa mquina levou-me uma semana
inteira de trabalho para a tornar perfeita e acabada.
  28 e 29 de Abril. Empreguei estes dois dias em afiar todas
as minhas ferramentas; a mquina que inventara para fazer
girar a pedra trabalhava optimamente.
  30. Vendo que havia muito tempo que o biscoito diminua
consideravelmente, passei-lhe revista e reduzi-me a um pedao
muito pequeno por dia, o que era para mim um grande desgosto.
  1 de Maio. Olhando pela manh para o mar, durante a mar
baixa, vi qualquer coisa na praia; parecia um tonel. Quando me
aproximei vi que um pequeno barril e dois ou trs pedaos dos
restos do navio tinham sido arremessados para terra pelo
ltimo furaco. Olhei para o lado do navio, e pareceu-me que
estava muito mais fora de gua do que estava primeiramente.
Examinei o barril que estava na praia, e vi que continha
plvora e que esta no se molhara e estava toda colada e dura
como pedra. Mesmo assim empurrei-o mais para dentro de terra,
para o afastar da gua, e fui em seguida at to perto do
navio quanto podia. Quando l cheguei, vi que mudara de
situao. O castelo da proa, que meses antes estava enterrado


                                  64  65


na areia, parecia agora levantado mais de seis ps; a popa, j
antes feita em pedaos e separada do resto pelo temporal,
parecia ter sido arrancada, e mostrava-se toda sobre um lado,
tendo montes de areia na frente to elevados, que me era fcil
na presente ocasio ir a p at acima, quando o refluxo se
retirasse, enquanto que dantes era necessrio nadar meia milha
para poder aproximar-me.
  Comecei por ficar surpreendido com tal situao, mas logo
conclu que fora causada pelo tremor de terra; e como, pelos
abalos desse tremor, o navio despedaara-se muito mais do que
j estava, vinham todos os dias a terra grandes quantidades de
coisas que o mar desprendia e os ventos e as ondas
arremessavam pouco a pouco para a praia.
  Este facto fez-me deixar inteiramente o pensamento de mudar
de residncia, e a minha principal ocupao nesse dia foi
experimentar se poderia penetrar no navio; mas vi que era
coisa que devia afastar da ideia, porque o bojo da embarcao
estava cheio de areia at aos bordos. Mas como a experincia
me ensinara a no desesperar, resolvi fazer em pedaos tudo o
que pudesse da embarcao, porque tinha a persuaso de que o
que eu tirasse dela me serviria para algum uso.
  2 de Maio pus-me a trabalhar com a minha serra, e cortei de
parte a parte um pedao de viga que sustinha uma parte da meia
coberta; feito isto afastei e tirei a maior poro de areia
que pude do lado mais alto; mas a mar sobreveio e obrigou-me
a guardar este trabalho para o dia seguinte.
  No dia 4 fui pescar, mas no apanhei um s peixe que ousasse
comer. Quando estava a ponto de renunciar a este passatempo
apanhei um pequeno golfinho.
  Tinha um grande cordel, mas no tinha anzol nem isca, e
todavia apanhava bastante peixe tanto quanto podia consumir.
Antes de o comer amanhava-o e punha-o a secar ao sol.
  A 5, fui trabalhar nos restos do navio; cortei outro barrote
e tirei da coberta trs grandes tbuas de pinheiro que atei
umas s outras e fiz flutuar at  praia com a mar.
  No dia 6, trabalhei nos restos do navio, de onde tirei muita
ferragem com o que tive um longo e custoso trabalho. Cheguei
muito cansado a casa, e tinha alguma vontade de renunciar a
essas fadigas.
  A 7 de Maio, voltei ao navio sem teno de trabalhar mas vi
que a carcaa se tinha alargado e abatido debaixo do peso da
sua carga uma vez que eu lhe cortara os dois barrotes, que
muitas partes do navio estavam separadas do resto, e que o
poro estava to descoberto que podia ver-se o que tinha l


                                   66 67


dentro: no estava mudado para alm da areia e gua que agora
tinha.
  No dia 8, levei comigo uma alavanca de ferro, para
desmanchar a coberta, que ento estava inteiramente
desembaraada de gua e de areia: tirei duas tbuas, que
empurrei tambm para terra com a mar. Deixei a alavanca a
bordo para o dia seguinte.
  A 9, penetrei mais no corpo da embarcao; senti muitos
tonis que fiz mover com a alavanca, mas que no pude lev-los
para terra. Senti tambm o cilindro de chumbo, e levantei-o um
pouco mas era pesado demais.
  10 de Maio. Continuei a ir ao navio e tirei muitos objectos
de carpinteiro, tbuas, e duzentas ou trezentas libras de
ferro.
  A 15 de Maio, levei comigo dois machados, para experimentar
se podia cortar um pedao de chumbo enrolado, aplicando nele o
gume de um, que trataria de enterrar batendo com a cabea do
outro. Mas como estava envolto em gua at perto de p e meio
no podia dar pancada que tivesse efeito.
  A 16, fez muito vento de noite e a carcaa do navio pareceu
ter ficado ainda mais escangalhada; demorei-me tanto nos
bosques a procurar ninhos de pombos, que deixei passar a hora
da mar baixa sem dar por isso, o que me impediu de ir ao
navio.
  A 17, descobri alguns pedaos dos restos que tinham sido
levados para terra a uma distncia de perto de duas milhas;
quis ver do que se tratava e encontrei um pedao da popa,
embora demasiado pesado para trazer.
  24 de Maio; trabalhei no navio at este dia, inclusivamente,
e  fora de trabalhar com a alavanca durante todo este
intervalo, abalei de tal modo a carcaa, que a primeira mar
que sobreveio, acompanhada de um vento bastante forte, fez
flutuar muitos tonis e dois bas de marinheiros. Mas como o
vento soprava de terra, nada veio  praia nesse dia, a no ser
pedaos de madeira, e um tonel cheio de carne de porco, que a
gua salgada e a areia tinham estragado completamente.
  Continuei esse trabalho at 15 de Junho, sem contudo
principiar nada no tempo necessrio para procurar o meu
sustento, e que eu fixara para a mar cheia durante essas idas
e vindas, a fim de poder estar sempre pronto para a vazante.
Acumulara desta maneira tbuas e ferro em bastante quantidade
para construir um barco se soubesse como comear. Tirara
ainda, pea por pea, perto de cem libras de chumbo em rolo.
  A 16 de Junho, indo para o mar, encontrei uma tartaruga, a
primeira que via na ilha; mas se tinha estado a tanto tempo
sem descobrir nenhum desses animais, era antes efeito do acaso
do que da raridade da espcie, porque bastava ir para o outro
lado da ilha para ver milhares todos os dias; talvez tambm
essa descoberta me tivesse sado muito cara.


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                              XI


                    CONTINUAO DO DIRIO
                    - DOENA, CURA, TRISTEZA,
                    CONSOLAO


  17 de Junho. Empreguei esse dia a preparar a minha tartaruga
e achei-lhe dentro grande nmero de ovos; e como desde a minha
chegada a essa terrvel habitao no comera de outra carne
seno da de ave ou de cabra, a carne da tartaruga pareceu-me a
mais saborosa e delicada do Mundo.
  A 18, choveu todo o dia pelo que fiquei em casa. A chuva
parecia-me fria, e sentia-me arrepiado, o que sabia no ser
normal nessa latitude.
  A 19, achei-me muito incomodado e tendo calafrios como se
fizesse muito frio.
  A 20, no pude descansar toda a noite, mas tive febre-e
grandes dores de cabea.
  A 21, estive muito mal, com terrores mortais de me ver
reduzido a essa miservel condio de estar doente e sem
qualquer socorro humano. Fiz o que no fazia desde a
tempestade que nos assaltara  sada do rio de Humber: rezar a
Deus; mas de maneira to seca, que mal sabia o que dizia, ou
porque o dizia, tal era a confuso das minhas ideias.
  A 22 de Junho, achei-me em melhor disposio, mas os receios
terrveis que me davam a doena traziam-me a perturbao 
alma.
  A 23, estive outra vez muito incomodado, com calafrios,
tremores e violentas dores de cabea.
  A 24, melhorei muito.
  A 25, fui atormentado por uma febre violenta; o acesso durou
sete horas, misturado de frio e calor, e terminou com um suor
que me enfraqueceu muito.
  A 26, estive melhor; como no tinha vveres, peguei na
espingarda para os ir procurar.


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  Sentia-me extremamente fraco mas matei uma cabra, que
arrastei para casa com muita dificuldade; assei ao lume alguns
pedaos e comi-os: tinha vontade de os fazer cozer para
arranjar caldo, mas renunciei por falta de panela.
  A 27, a febre tornou a atacar-me, e to violentamente que me
fez estar de cama todo o dia sem comer nem beber. Morria de
sede; estava to fraco que no tinha foras para me levantar e
ir procurar gua. Rezei outra vez; delirei; e esse delrio, ao
desaparecer, deixou-me deitado exclamando somente de quando em
quando: "Senhor, tende piedade de mim". Suponho que no fiz
outra coisa durante duas ou trs horas, at que o acesso me
deixou, adormeci e no despertei seno quando a noite estava
muito adiantada. Quando abri os olhos, senti-me muito
aliviado, ainda que fraqussimo e sequioso; mas que fazer? No
havia gua em toda a habitao e fui obrigado a ficar na cama
at pela manh; ento adormeci. Foi durante este sono que tive
o sonho terrvel que vou contar.
  Parecia-me que estava assentado no cho, fora do recinto da
muralha, no mesmo lugar em que estava quando houve a
tempestade que seguiu o tremor de terra, e via um homem que,
do seio de uma nuvem espessa, negra, descia  terra no meio de
um turbilho de fogo e chamas. Era, todo ele, to radiante
como o astro do dia, de tal maneira que os meus olhos no
podiam olhar para ele sem ficarem deslumbrados. O seu
semblante levava o terror  alma, mas um terror que pude
sentir mas no saberia exprimir.
  A terra, quando ele a tocou com os ps, pareceu abalar-se; e
o ar, todo abrasado, parecia no ser mais que uma fornalha
ardente.
  Assim que desceu, empunhando uma comprida lana,
encaminhou-se para mim, para me matar; quando chegou a certa
elevao, distante alguns passos, falou-me com voz terrvel,
proferindo estas palavras ainda mais terrveis: "Morrers,
pois no te arrependeste  vista de tantos sinais". Ento
erguendo a lana, vi-o encaminhar-se para mim.
  Quem ler este relato no esperar que eu possa pintar as
angstias em que esta viso emergiu a minha alma, angstias
tanto mais terrveis quanto, mesmo durante o sonho, sentia um
acabrunhamento real; a impresso que isso me fez no esprito
no passou como um sonho, gravou-se profundamente, e depois do
meu despertar conservou-se em toda a sua fora, apesar das
luzes do dia e da razo.
  Ai de mim! Pouco conhecimento conservava da religio,
esquecera o que o meu pai me ensinara; as boas instrues que


                                    71


me dera outrora tinhm tido tempo de se apagar ao longo de uma
vida licenciosa de oito anos passados entre marinheiros que
no valiam mais do que eu, isto , libertinos e descuidosos a
respeito de religio, at ao supremo grau.
  No sei como, durante um to longo espao de tempo no me
veio o menor pensamento de elevar a minha alma a Deus para
admirar a sua sabedoria, ou descer ao meu interior para a
contemplar a minha misria: uma certa estupidez de esprito se
apossara de mim e banira do meu corao todo o desejo do bem,
todo o arrependimento do mal; tinha todo o embrutecimento dos
marinheiros vulgares, no conservava qualquer sentimento: nem
temor de Deus nos perigos, nem gratido quando Ele me livrava
deles.  bem verdade que, vendo que tinha ido para o fundo o
resto da tripulao, sendo o nico que tivera a felicidade de
se salvar, tive uma espcie de xtase, um arrebatamento do
corao, que bem poderia terminar-se num reconhecimento
cristo; mas isso foi fruto que morreu ao nascer, fogo aceso e
logo extinto. Mas assim que me vi doente, quando a morte e
todos os seus horrores, se apresentou a meus olhos, a minha
conscincia, h tanto adormecida, despertou.
  Ento apresentaram-se ao meu esprito as lies salutares de
meu pai e a sua predio que Deus no me abenoaria se eu
desprezasse os seus conselhos. Arrependia-me amargamente,
vendo que tinha a lutar contra desgraas muito violentas e
pouco proporcionadas  fraqueza da minha natureza, sem
auxlio, sem consolao, nem conselhos. Ento exclamei:
"Grande Deus!
vinde em meu auxlio que sou muito desgraado!" Esta orao,
se me permitem chamar-lhe assim, era a primeira que fazia ao
fim de muitos anos. Mas voltemos ao nosso dirio.
  A 28 de Junho, sentindo-me aliviado depois de algumas horas
de sono e tendo passado o acesso, levantei-me. O terror em que
o sonho me lanara no me impediu de considerar que o acesso
de febre voltaria no dia seguinte, e que deveria aproveitar
esse intervalo para me refazer um pouco e preparar refrescos
aos quais poderia recorrer quando o mal reaparecesse. A
primeira coisa que fiz foi deitar gua numa grande garrafa
quadrada, e p-la em cima da mesa ao p da minha cama; e para
quebrar a frieza da gua, juntei-lhe perto de meio quartilho
(*) de rum, misturando tudo; cortei um pedao de carne de
cabrito, e tostei-o ao lume, mas mal lhe toquei. Sa para
passear, mas achei-me fraco, triste,


  (*) 1 quartilho: a quarta parte de uma canada, isto , meio
litro.


                                    72


com o corao contrado  vista da minha miservel condio,
receando a volta do mal no dia seguinte.  noite ceei trs
ovos de tartaruga que assara na brasa; foi essa, tanto quanto
me posso lembrar, a primeira refeio para a qual pedi a Deus
a Sua beno.
  Depois de ter comido tratei de passear, mas achei-me to
fraco que mal podia pegar na espingarda, sem a qual nunca
andava: por isso no fui longe; sentei-me no cho e pus-me a
contemplar o mar, que tinha calmo e liso, na minha frente.
Nesta atitude reflecti longamente sobre a religio.
  Depois levantei-me pensativo e melanclico, voltei, passei
por cima da muralha. Pensei em ir deitar-me mas o esprito, em
grande agitao, estava pouco disposto a dormir: sentei-me na
cadeira, acendi a lmpada. A chegada da febre dava-me
terrveis inquietaes, e nesse momento veio-me ao esprito
que os Brasileiros quase no tomam outro remdio para alm do
tabaco, seja qual for a doena, e eu sabia que havia num dos
meus bas um pedao de rolo cujas folhas estavam secas na
maior parte. Levantei-me da cadeira, e como se tivesse sido
inspirado pelo cu, fui direito ao ba que encerrava a cura do
meu corpo e da minha alma. Abri-o e nele encontrei o tabaco; e
como os poucos livros que conservava estavam tambm a
guardados, tirei uma das Bblias de que j falei quando
enumerei o meu esplio, e que no tivera vagar, ou antes o
desejo, de abrir uma s vez; levei-a, com o tabaco, para cima
da mesa.
  Mas no sabia nem como empregar esse tabaco para a minha
doena, nem se isto era mesmo bom; mas fiz a experincia de
muitas maneiras diferentes, como se no pudesse deixar de
encontrar assim a verdadeira. Primeiro tomei um bocado de
folha que meti na boca, e como era tabaco verde e forte e eu
no estava acostumado a ele, atordoou-me extraordinariamente;
moLhei depois outra folha em rum, para tomar uma ou duas horas
depois de me deitar; finalmente, tostei outra em lume forte e
conservei o nariz em cima do fumo, to perto e por tanto tempo
quanto o receio de me queimar ou de me sufocar pudesse
permiti-lo.
  No intervalo destes preparativos, abri a Bblia e comecei a
ler; mas o fumo do tabaco tinha-me abalado demais a cabea
para continuar: todavia lembro-me de que as primeiras palavras
que li foram estas: "Invoca-me no dia da tua aflio, e eu te
livrarei, e tu me glorificars".
  Estas palavras eram muito aplicveis ao estado em que me
achava; fizeram impresso no meu esprito, tomei-as
correntemente nas minhas meditaes.


                                    73


  Fazia-se tarde, e o tabaco provocou-me vontade de ir dormir;
deixei a lmpada acesa na caverna, para se precisasse de
qualquer coisa durante a noite, depois fui-me deitar; mas
antes pus-me de joelhos, rezei a Deus, suplicando que
cumprisse a promessa de que se O invocasse no dia da minha
aflio, Ele me livraria. Assim que acabei esta orao
precipitada e imperfeita, bebi o rum onde infundira o tabaco,
e era to forte que me custou muito a engolir e subiu-me
bruscamente  cabea; adormeci com um sono to profundo, que
quando acordei no podiam ser menos de trs horas da tarde:
direi ainda mais,  que no podia tirar da cabea que dormi
no s toda essa noite, mas todo o dia e toda a noite seguinte
e uma parte do outro dia; s assim compreendo a falta de um
dia no meu calendrio, erro que reconheci alguns anos depois.
  Ao acordar, extremamente aliviado, senti coragem e alegria;
quando me levantei tinha mais fora, o meu estmago tinha-se
fortificado, o apetite voltara; numa palavra, no tinha febre
nenhuma, e continuava a melhorar. Era o dia 28.
  A 30 de Junho, segundo o caminhar intermitente da doena,
era o meu bom dia; sa com a espingarda, mas tratei de no me
afastar muito. Matei um casal de aves do mar, muito
semelhantes aos patos selvagens; levei-os para a cabana, mas
no tive vontade de com-los. Contentei-me com alguns ovos de
tartaruga, alis muito bons.  noite, reiterei o medicamento
que supunha ter-me feito bem, isto , o tabaco infundido em
rum; mas a dose foi muito mais pequena que a primeira, e desta
vez no masquei tabaco, nem pus o nariz sobre o fumo.
  Fosse como fosse, no dia seguinte, 1 de Julho, no estive
to bem como esperava; tive alguns calafrios, embora pouca
coisa.
  A 2, repeti o remdio das trs maneiras; subiu-me  cabea,
como a primeira vez e dupliquei a quantidade da minha bebida.
  A 3, a febre deixou-me de vez; mas passaram-se algumas
semanas antes que pudesse recuperar inteiramente as foras.
  Reflectia muito nestas palavras: "eu te livrarei"; e estas
reflexes penetraram o meu corao, pus-me de joelhos,
agradeci a Deus em voz alta a minha convalescena.
  A 4 de Julho, pela manh, peguei na Bblia e comecei no Novo
Testamento. Apliquei-me seriamente a esta leitura, impondo-me
faz-la pela manh e  noite, sem me fixar num certo nmero de
captulos, mas segundo a situao do meu esprito. Este
exerccio ainda no durava h muito tempo quando senti nascer
no corao uma tristeza mais profunda e mais sincera, um maior
peso das minhas culpas passadas; a impresso do meu sonho
avivou-se e estava sobretudo comovido com estas palavras:


                                    74


" vista de tantos sinais, no te arrependeste".
  Era este arrependimento que pedia um dia a Deus com ardor,
quando, por um efeito de Sua Providncia, tendo aberto a
Escritura Santa, li esta passagem: "Ele  prncpe e salvador,
nascido para dar arrependimento e remisso". Mal acabei de ler
este versculo, depus o livro; e elevando o corao e mos ao
cu, com uma espcie de xtase e um transporte de alegria
indizvel, exclamei em voz alta: "Jesus, filho de David,
prncipe e salvador, que vieste ao mundo para dar
arrependimento, d-mo".
  Posso dizer que esta orao foi a primeira da minha vida que
mereceu este nome, e desde esse tempo no deixei de esperar
que Deus me ouviria um dia.
  Desde ento, a passagem Invoca-me, e eu te livrarei
pareceu-me encerrar um sentido que ainda no lhe achara; antes
no tinha a ideia de nenhuma outra liberdade seno a de ser
livre do cativeiro em que estava detido, quero dizer, sair da
ilha, que embora vasta no deixaria de ser para mim uma
priso, at das mais terrveis. Mas hoje vejo-me alumiado por
uma luz nova, aprendo a dar outra interpretao s palavras
lidas; recordo com horror uma vida culpada, a imagem dos meus
crimes inspira-me terror, e j no peo a Deus seno que livre
a minha alma de um peso debaixo do qual geme. Quanto  minha
vida solitria, j no me aflige, nem mesmo peo a Deus que
queira libertar-me dela, j no penso nisso, e todos os outros
males no me tocam em comparao deste. Junto esta ltima
reflexo para fazer observar de passagem, a quem quer que leia
este captulo da minha obra, que  um bem infinitamente maior
subtrair-se ao pecado do que  aflio que ele provoca; mas
no darei desenvolvimento a esta matria, e torno ao meu
dirio.
  Apesar da minha condio fisicamente ser ainda a mesma,
todavia tornara-se muito mais suave e suportvel.
  Com uma leitura constante da Escritura Santa e o uso
frequente da orao, os meus pensamentos dirigiam-se a Deus:
sentia consolaes interiores que at ento desconhecia; e
como a minha sade e as minhas foras voltavam cada dia,
ocupava-me constantemente em me abastecer de tudo o que me
faltava, e em tornar a minha maneira de viver to regular
quanto me fosse possvel.


                              75



                              XII



                    CONTINUAO DO DIRIO
                    - EXCURSO NA ILHA E ESCOLHA
                    DE UMA SEGUNDA RESIDNCIA


  De 4 de Julho at 14. A minha ocupao principal era passear
com a espingarda na mo: repetia amide o passeio, mas fazia-o
curto, como um homem que acabava de estar doente e trata de se
restabelecer pouco a pouco;  difcil compreender quanto
estava cansado, e a que fraqueza me via reduzido. O remdio de
que me servira era inteiramente novo, e talvez nunca tivesse
curado a febre: tambm a experincia que fiz dele no 
garantia suficiente para ousar recomend-lo a quem quer que
seja; porque se por um lado tirou a febre, pelo outro
contribuiu muito para me enfraquecer, ficando-me durante algum
tempo um estremecimento de nervos e fortes convulses por todo
o corpo.
  Estes frequentes passeios ensinaram-me uma particularidade
muito importante para mim: foi que no havia nada to
pernicioso para a sade como ir passear durante a estao
chuvosa, sobretudo se a chuva era acompanhada de um temporal
ou de um furaco. Ora, como a chuva que caa s vezes na
estao seca nunca vinha sem tempestade, achava-a muito mais
perigosa, mais para recear, que a de Setembro e Outubro.
  Havia perto de dez meses que estava nesta triste residncia;
toda a possibilidade de sair dela parecia-me perdida para
sempre, e acreditava firmemente que nunca criatura humana
pusera p nesse stio selvagem. A minha habitao parecia-me
suficientemente fortificada: tinha um grande desejo de fazer
uma descoberta mais completa da ilha, de encontrar produes
que me tivessem ficado ocultas at ento.
  Foi a 15 de Julho que comecei a fazer uma visita na minha
ilha, a mais exacta que fiz. Fui primeiro  pequena baa de
que j fiz meno, e onde desembarcara com todas as minhas
jangadas.


                               76


  Caminhei ao longo do rio e depois de ter andado duas milhas
a subir achei que a mar no ia mais longe e que no havia a
seno um pequeno regato, de gua muito boa e doce. Mas como
era Vero, a estao seca, quase no havia gua em certos
stios: pelo menos no era bastante para fazer corrente
considervel. Nas margens deste regato, achei prados
agradveis, planos e cobertos de uma bela verdura, elevando-se
 maneira que se afastavam. Nos stios onde no havia
vestgios de terem sido alguma vez inundados, isto , perto
das encostas que os ladeavam, achei uma poro de tabaco verde
cujo caule era extremamente alto. Havia muitas outras plantas
que no conhecia, e de que nunca ouvira falar, que podiam ter
propriedades que ainda menos conhecia.
  Pus-me a procurar mandioca, raiz que serve de po aos
Americanos em todos estes climas; mas foi-me impossvel achar.
Vi belas plantas de azebres; mas no lhes conhecia ainda o
uso: vi tambm muitas canas de acar, mas selvagens e
imperfeitas, por falta de cultura.
  Contentei-me com esta descoberta por esta vez; e voltei para
a cabana reflectindo sobre a maneira de saber as virtudes das
plantas e dos frutos que viria a descobrir; mas fora to pouco
cuidadoso em fazer as minhas observaes no tempo em que
estivera no Brasil, que o pouco conhecimento que tinha das
plantas do campo no podia ser de grande auxlio no estado
deplorvel em que me achava.
  No dia seguinte, 16 de Julho, prossegui na minha excurso;
descobri que o regato e os prados no se estendiam mais longe,
e que o campo comeava a estar mais coberto de arvoredo. A
encontrei muitas espcies de frutos, como meles que cobriam o
cho e uvas que pendiam das rvores em cachos maduros e
cheios, prontos para a vindima. Esta descoberta causou-me
tanta surpresa como alegria.
  Mas soube moderar o apetite e aproveitar-me de uma
experincia que fora funesta a outros, porque me lembrava de
ter visto morrer na Barbaria, muitos ingleses, escravos como
eu, que tinham sido atacados de febre e disenteria  fora de
comer uvas. Consegui evitar to terrveis consequncias
preparando este fruto de uma maneira excelente: expondo-o e
fazendo-o secar ao sol depois de cortado, e guardando-o como
na Europa se guarda e que se chama passas de uva; persuadia-me
que depois do Outono seria um alimento to agradvel como so
e no me enganei. Passei ali todo o dia;  tarde no julguei a
propsito voltar ao meu domiclio e, pela primeira vez na
minha vida solitria, resolvi dormir fora. A noite chegou,


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escolhi um alojamento muito semelhante ao que me dera abrigo
quando cheguei  ilha: uma rvore muito frondosa, onde me
instalei comodamente e dormi sono profundo. No dia seguinte
pela manh, continuei na descoberta, andando perto de quatro
milhas: encaminhei-me para o norte, e deixei atrs e  direita
uma cordilheira de pequenos montes.
  No fim desta marcha achei-me numa ampla plancie, que se
inclinava para ocidente; um pequeno regato de gua fresca
saindo de uma colina, dirigia o seu curso para o lado oposto,
para o oriente: toda esta regio parecia to temperada, to
verde, to florida, que se teria tomado por um jardim plantado
por mo de homem e dava gosto ver como reinava a uma
Primavera perptua. Desci um pouco a esse vale delicioso, e
fiz em seguida uma paragem para o contemplar: primeiro a
admirao apossou-se dos meus sentidos, fez-me saborear em
segredo o prazer de ver que tudo que comtemplava era meu, que
era senhor e rei absoluto desta regio; que tinha um direito
de posse e que, se tivesse herdeiros, poderia transmitir-lhos
to incontestavelmente como faria com um feudo em Inglaterra.
  Vi grande quantidade de cacaueiros, laranjeiras, limoeiros,
apercebi-me de que era tudo selvagem e de que poucos tinham
fruto, pelo menos naquela estao. Todavia os limes verdes
que apanhei eram no s agradveis para comer, mas tambm
muito sos; e da por diante misturei o sumo com gua, que
ficava com um gosto muito agradvel, ficando assim mais fresca
e salutar.
  Via-me agora com muitos trabalhos entre mos, como colher
frutos e transport-los para a minha habitao; tinha decidido
levar uma proviso de uvas e de limes para fazer uso deles
durante a estao chuvosa, que eu sabia aproximar-se.
  Para tal fiz trs montes, dois de uvas e o outro de limes.
Tirei de cada um uma poro para levar, resolvido a voltar com
um saco para levar o resto.
  Ao fim de trs dias voltei para casa:  assim que hei-de
chamar daqui por diante  minha cabana e  minha caverna. Mas,
antes de l chegar, as uvas tinham-se pisado e esmagado por
causa da sua madureza e do seu peso, de sorte que j no
tinham grande valor; quanto aos limes estavam muito bons mas
eram poucos.
  No dia seguinte19, voltei com dois pequenos sacos que fizera
para ir buscar a minha colheita. Fiquei surpreendido ao ver
que as minhas uvas, que deixara na vspera amontoadas, estavam
todas estragadas, aos pedaos, arrastadas e dispersas aqui e
ali; e parte delas fora roda e devorada.
  Conclu que havia por perto animais selvagens que tinham
feito todo aquele estrago.


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  Enfim, vendo que no havia meio de as ixar num monte nem de
as meter num saco, porque, por um lado, ficariam apertadas e
esmagadas debaixo do seu prprio peso, e por outro, seria
entreg-las aos animais ferozes, achei um meio que surtiu
efeito: colher uma grande quantidade de uvas, e pendur-las na
ponta dos ramos das rvores para que secassem ao sol; quanto
aos limes, levei para casa o suficiente para ir bem curvado
debaixo do seu peso. E Na volta desta pequena viagem,
contemplava com admirao a profundidade do vale, os encantos
da sua situao, a vantagem que haveria em estar ao abrigo das
tempestades do vento de leste, atrs de bosques e colinas; e
conclu que o stio em que fixara a bitao era, sem dvida, o
pior de toda a ilha. Assim pensei desde ento em me mudar e
escolher naquele vale frtil e agradvel um lugar to forte
como aquele que eu queria deixar.
  Tive muito tempo esse projecto na cabea, e a beleza do
stio fazia-me entreter a minha imaginao com prazer; mas
quando considerei as coisas mais de perto e reflecti que a
minha habitao actual estava prxima do mar, achei que essa
vizinhana poderia dar lugar a algum acontecimento favorvel
para mim; o mesmo destino que me impelira para onde eu estava
poderia enviar-me companheiros de infortnio, e ainda que no
houvesse muita aparncia de que este feliz acontecimento
pudesse realizar-se, todavia, se viesse encerrar-me nas
colinas e bosques do centro da ilha, seria redobrar as minhas
algemas e tornar a minha libertao pouco provvel ou at
impossvel: conclu pois que no devia mudar de residncia.
  Contudo apaixonara-me de tal maneira por este belo stio que
passei a quase todo o resto de Julho; e apesar de ter
decidido no mudar de domiclio, no pude deixar de satisfazer
em parte a minha vontade, fazendo a uma pequena casa no meio
de um recinto bastante espaoso composto por uma dupla sebe
com bastantes canas, to alta quanto pude fazer e cheia de
pequenos ramos por dentro. Dormi algumas vezes duas ou trs
noites consecutivas nessa segunda fortaleza, acedendo-lhe por
cima da sebe com uma escada como fazia na primeira, e desde
ento considerei-me com duas casas, uma na costa para vigiar o
comrcio e a chegada dos navios, outra no campo para fazer a
ceifa e a vindima. Os trabalhos que fiz nesta ltima
ocupram-me at 1 de Agosto.
  Mal acabara as minhas fortificaes e comeava a gozar dos
meus trabalhos, quando as chuvas me vieram desalojar e
expulsar para a minha primeira habitao, de onde no devia
sair to cedo, porque apesar de ter feito na nova uma barraca


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com um pedao de vela e de a ter escondido muito bem como
fizera na antiga, no tinha contudo um rochedo alto e sem
declive que me servisse de baluarte contra o mau tempo, nem
tinha atrs de mim uma caverna para me abrigar no caso de
chuvas extraordinrias.
  J disse que acabara o meu casal no princpio de Agosto, e
que, desde esse dia, comeava a saborear-lhe as douras.
Ajuntarei, continuando o meu dirio, que no dia 3 do mesmo ms
vi que as uvas que pendurara estavam perfeitamente secas, bem
cozidas pelo sol, numa palavra, excelentes; comecei pois a
tir-las de cima das rvores, e fiz bem porque se no fosse
isso as chuvas que sobrevieram teriam estragado completamente
e ter-me-iam feito perder as minhas melhores provises de
Inverno: tinha mais de duzentos cachos. Gastei muito tempo a
transport-las para minha casa e fech-las na caverna. Ainda
no tinha acabado estas operaes, principiaram as chuvas e
duraram desde 14 de Agosto at meados de Outubro.
   verdade que paravam s vezes; mas eram tambm, de vez em
quando, to violentas que no podia sair da minha caverna dias
e dias. Nesta estao tive um dia a surpresa de ver regressar
 minha cabana, seguida de trs filhos, uma das gatas que
tinha fugido e que pensava ter morrido.
  Desde 14 de Agosto at 26, choveu sem descanso, e tanto que
no sa em todo esse tempo; tinha muito cuidado em evitar a
chuva. Durante este longo retiro, comecei a achar-me com
poucos vveres; mas l me aventurei a sair por duas vezes,
matei um cabrito, e achei uma tartaruga muito grande, que foi
para mim um grande regalo. Regulava as minhas refeies do
modo seguinte: comia um cacho de uvas ao almoo, um pedao de
cabrito ou de tartaruga assado ao jantar - por desgraa no
tinha nada prprio para ferver ou estufar o que quer que fosse
- e depois  ceia, dois ou trs ovos de tartaruga.
  Para no me aborrecer e ao mesmo tempo fazer alguma coisa de
til nesta priso onde a chuva me retinha, trabalhava
regularmente duas ou trs horas por dia a alargar a minha
caverna, e conduzindo a minha escavao pouco a pouco, a um
dos flancos do rochedo, consegui perfur-lo de parte a parte e
estabelecer uma entrada e uma sada livres para trs das
minhas fortificaes, mas concebi alguma inquietao vendo-me
assim exposto, porque da maneira como arranjara as coisas
antes estava perfeitamente fechado, enquanto que agora estava
exposto ao primeiro agressor que me viesse atacar.  preciso
contudo confessar que me custaria a justificar o receio que me
veio sobre este artigo, e  que era muita imaginao tanto
atormentar, pois a maior criatura que tinha visto na ilha era
um bode.
  30 de Setembro. Este dia era o aniversrio do meu funesto
desembarque. Calculei as riscas marcadas no poste, e vi que
havia trezentos e sessenta e cinco dias que estava em terra.
Observei um jejum solene e consagrei-o todo a exerccios
religiosos, ajoelhando-me com uma humildade profunda,
reconhecendo a justia dos juzos de Deus a meu respeito, e
implorando enfim a Sua misericrdia em nome de Seu Filho.
Abstive-me de todo o alimento durante doze horas at ao Sol
poente, depois do que comi um pedao de biscoito com um cacho
de uvas e terminando esse dia com devoo como o comeara,
fui-me deitar.
  Pouco tempo depois, vi que a minha tinta me faltaria dentro
em pouco; fui pois obrigado a ser muito econmico,
contentando-me em escrever as circunstncias mais notveis da
minha vida, sem mencionar diariamente as outras coisas.


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                              XIII


                    TRABALHOS ASSDUOS
                    - NOVA EXCURSO NA ILHA


  Distinguia j a regularidade das estaes: no me deixava
surpreender nem pela chuva nem pela seca, e sabia abastecer-me
para uma e para outra. Mas antes de adquirir tal experincia,
fui obrigado a sofrer-lhe as consequncias, e a tentativa que
vou referir foi uma daquelas que me custaram mais caro. Disse
mais acima que tinha conservado o pouco de cevada e de arroz,
que crescera de uma maneira inesperada. Devia ter trinta
espigas de arroz e vinte de cevada, e julgava que era tempo
prprio para semear esses gros, porque as chuvas tinham
passado, e o Sol chegara ao meio da linha (*).
  Depois deste projecto, cultivei um pedao de terra o melhor
que pude com uma enxada de madeira; dividi-o em dois e semeei
as minhas sementes. Durante essa operao veio-me  ideia que
faria bem em no empregar todas pela primeira vez, porque no
sabia que estao era a mais prpria para semear; semeei pois
perto de dois teros e guardei perto de um punhado de cada
espcie.
  Vi depois que fizera bem em tomar essa precauo: de tudo o
que semeara no houve um s gro que chegasse a germinar; nos
meses seguintes, na estao seca a terra no tinha humidade
suficiente, pois no recebera chuva desde que eu fizera a
sementeira, pelo que s produziu alguma coisa com a volta da
estao chuvosa e mesmo ento s deu uns rebentos muito fracos
que logo desapareceram.


  (*) Linha equatorial celeste, isto , elipse que o Sol
parece traar ao longo do ano e cujos pontos mais altos, so
os solstcios.


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  Procurei um outro campo para renovar a experincia. Ao p da
minha nova fazenda cavei um pedao de terra e semeei o resto
dos gros em Fevereiro, pouco antes do equincio da Primavera.
Esta sementeira teve os meses de Maro e Abril para ser
humedecida pelo que deu a mais bela colheita que podia
esperar; mas como era s um resto da primeira; e no ousando
arriscar tudo poupara ainda um pouco para uma terceira, deu
uma pequena colheita que podia subir a dois selamins (*), um
de arroz e outro de cevada.
  Mas a experincia que eu acabava de fazer tornou-me muito
hbil neste ponto: fiquei sabendo o momento exacto em que se
devia semear, e que podia cada ano fazer duas sementeiras e
duas colheitas.
  Enquanto o trigo crescia, fiz uma descoberta de que me
aproveitei pelo tempo adiante. Logo que as chuvas passaram, e
que o tempo comeou a pr-se bom, o que aconteceu no ms de
Novembro, fui dar um passeio  minha casa de campo.
  Depois de uma ausncia de alguns meses, encontrei as coisas
no mesmo estado em que as deixara e at, de alguma maneira,
melhoradas. A dupla sebe no s estava intacta como as estacas
que fizera cortando ramos de rvores tinham crescido todas e
produzido compridos ramos, como os salgueiros que geralmente
rebentam o primeiro ano depois de limpos desde o tronco at ao
cimo; contudo no sei o nome dessas rvores cujas pernadas me
forneceram estacas.
  Estava muito espantado de ver crescer essas novas plantas;
cortei-as e cultivei-as de maneira que pudessem chegar todas a
um mesmo nvel, se fosse possvel. Custa a acreditar como
prosperaram, e a bela aparncia que apresentavam no fim de
trs anos, pois apesar do meu recinto ser de perto de vinte e
cinco toesas (**) de dimetro, em pouco ficou completamente
coberto e to densamente que podia abrigar-me durante toda a
estao seca.
  Isto decidiu-me a cortar outras estacas da mesma espcie e
formar com elas uma cerca em semicrculo para encerrar a
primeira muralha, e foi o que fiz. Plantei uma dupla fila de
estacas  distncia de umas oito toesas da antiga estacada;



  (*) Selamim: a dcima sexta parte de um alqueire.
  (**) Uma toesa vale cerca de dois metros.


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cresceram muito depressa, fizeram-se rvores e serviram
primeiro de tecto  minha habitao, e mais tarde de
trincheira e de defesa como hei-de contar.
  Vi ento que se podia em geral dvidir as estaes do ano,
no como se faz na Europa, mas em tempo de chuva e de seca, o
que sucedia duas vezes por ano, alternadamente.
  Disse j que aprendera  minha prpria custa que as chuvas
eram contrrias  sade, pelo que fazia as minhas provises
antecipadamente, com receio de ser obrigado a sair nos meses
de chuva. Mas no vo agora supor que eu estava de braos
cruzados quando era obrigado a ficar em casa: tinha sempre que
fazer, e deixava ainda uma infinidade de coisas que s
ficariam feitas com um rude trabalho e uma ocupao contnua.
Por exemplo, quis fabricar um cesto; meti mos  obra de
muitas maneiras, mas as varetas que empregava para isso eram
to fracas, quebravam-se to facilmente que nada consegui.
Recordei-me ento que, quando criana gostava imenso de ir 
loja dum cesteiro que residia na cidade onde vivia meu pai, e
de o ver trabalhar: como a maior parte das crianas,
prestava-lhe pequenos servios; reparava cuidadosamente na
maneira como ele trabalhava; s vezes trabalhava um pedao, e
finalmente adquirira perfeito conhecimento do mtodo ordinrio
dessa arte, pelo que s me faltava material; veio-me ento 
ideia que os ramos pequenos da rvore donde eu cortara as
estacas talvez fossem to flexveis como os do salgueiro ou do
vimeiro de Inglaterra, e resolvi experimentar.
  Com esta inteno, fui no dia seguinte  minha fazenda, 
minha casa de campo, e depois de ter cortado alguns raminhos
da rvore de que acabo de falar, achei que eram excelentes
para o uso que eu queria fazer deles.
  Voltei pouco tempo depois com um machado para cortar uma
grande quantidade desses pequenos ramos, o que me no custo
muito a fazer porque as rvores de onde eram tirados eram
muito comuns nesses stios.
  Pu-los a secar ao sol no meu quintal, e levei-os para a
minha caverna logo que ficaram bons para servio, onde me
ocupei durante a estao seguinte a fazer um certo nmero de
cestos, para transportar terra ou guardar fruta, ou ainda
outros usos; e apesar de no ficarem perfeitos serviam bem
para aquilo a que os destinava. Tive o cuidado desde ento, de
nunca deixar de fazer cestos, e  medida que os velhos se
deterioravam, fazia outros novos. Dediquei-me sobretudo a
fazer alguns cestos fortes e fundos para meter o trigo que
colhesse em vez de o meter em sacos. Quando resolvi esta
dificuldade, puxei pela imaginao para ver  se seria possvel
suprir a necessidade extrema que tinha de duas coisas: em
primeiro lugar precisava de recipientes para lquidos, pois s
tinha dois pequenos barris, ambos com bastante rum, e algumas
garrafas de vidro de tamanho mdio, umas quadradas e outras
redondas, que continham aguardentes e outros licores. No
possua nem uma panela ao menos para cozer o que quer que
fosse, mas apenas uma grande marmita que salvara do navio,
pequena demais para fazer caldo ou assar carne. A segunda
coisa de que precisava era de um cachimbo para fumar, o que
durante algum tempo me pareceu impossvel de arranjar. Mas
achei uma boa inveno para remediar essa falta.
  Ocupava-me eu em plantar a minha segunda fila de estacas ou
em fazer cestos, pelo fim do Vero, quando um outro negcio me
veio tomar parte do meu tempo, que me era to precioso.


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                              XIV


                    ROBINSON CONSEGUE FAZER-SE BOM CARPINTEIRO
                    E HBIL CULTIVADOR


  Disse mais acima que tinha imenso desejo de percorrer a ilha
toda, que chegara a ir at  nascente do regato, e dali at ao
lugar onde estabelecera a minha fazenda, e onde se via at 
outra costa da ilha e  praia do mar.
  Quis ir mais alm; peguei na minha espingarda, levei um
machado, e o meu co, uma boa poro de plvora e chumbo, e
dois ou trs cachos de uvas que meti no saco, e pus-me a
caminho. Depois de ter atravessado todo o vale de que j
falei, descobri o mar a oeste, e como o tempo estava muito
claro, vi distintamente a terra; no podia afirmar se era ilha
ou continente, mas eu via que era muito elevada, que se
estendia de oeste a oeste-sudoeste, e no podia estar afastada
mais de quinze lguas.
  Sobre a situao desta terra s sabia que estava na Amrica,
e segundo todos os clculos que pude fazer, devia confinar com
os pases espanhis; era possvel que fosse toda habitada por
selvagens e que, se l tivesse aportado, me teriam feito
sofrer uma sorte mais dura do que era a minha.
  Acedi pois facilmente s disposies da Providncia, que
leva todas as coisas pelo melhor. Esta descoberta no me
desassossegou, e no importunei o meu esprito com desejos
impossveis.
  Alm disso, quando considerei maduramente a coisa, achei
que, se essa costa fazia parte das conquistas espanholas,
havia de ver passar l de quando em quando alguns navios; se
pelo contrrio no visse um s, esta costa devia ser a que
separa a Nova Granada do  Brasil,  um retiro de selvagens dos
mais cruis, visto que so antropfagos ou comedores de homens
e no deixam de matar todos os que lhes caem nas mos.
Avanava com todo o vagar, fazendo estas reflexes. Este lado
da ilha pareceu-me muito diferente do meu; as paisagens eram
bonitas, os vales e as plancies verdejantes e esmaltados de
flores, os bosques altos e copados. Vi muitos papagaios;
confesso que tive vontade de apanhar um para domesticar e
ensinar a falar. Custou-me bastante, mas afinal apanhei um que
deitei ao cho com uma pancada; levantei-o, aconcheguei-o ao
peito, tratei-o, e ps-se bom e to rijo que o levei para
casa.
  Passaram-se alguns anos antes que eu pudesse faz-lo falar,
mas finalmente ensinei-o a chamar-me pelo nome dum modo
completamente familiar: resultou da um incidente que no fundo
no passa de uma bagatela, mas que no deixar de divertir o
leitor, e que contarei no seu lugar.
  Esta viagem proporcionou-me muito prazer; encontrei nos
lugares baixos animais que me pareceram lebres, uns e outros
raposas; mas tinham alguma coisa de diferente de todos os
outros que vira at ento, e apesar de ter morto muitos
consegui no os comer. Efectivamente faria mal em correr algum
perigo por causa dos alimentos, visto que tinha boa poro
deles e muito bons, como por exemplo cabras, pombos e
tartarugas; se se juntar a isto as minhas uvas, desafio todos
os mercadores de Londres a fornecerem uma mesa melhor do que a
minha, em relao ao nmero de convivas; e se, por um lado, o
meu estado era deplorvel, por outro devia dar-me por muito
feliz de que, bem longe de estar reduzido  dieta e 
necessidade de jejuar, gozava de perfeita abundncia e ainda
variedade.
  Durante esta viagem, no andava mais de duas milhas por dia,
calculando as distncias de relance; mas dava tantas voltas e
reviravoltas para ver se encontrava alguma coisa vantajosa que
estava sempre cansado quando chegava ao lugar onde devia
escolher a minha pousada para a noite, e ento ia-me abrigar
sobre uma rvore, ou alojava-me entre duas, plantando uma fila
de estacas de cada um dos lados para me servir de barricada,
ou pelo menos para impedir que os animais ferozes me viessem
visitar sem me acordar primeiro.
  Logo que cheguei  borda do mar, a minha admirao pela ilha
aumentou; tudo o que se apresentava  minha vista me
confirmava na opinio que j formara de que escolhera mal a
minha morada.
  A costa que eu habitava dera-me apenas trs tartarugas em
ano e meio, enquanto que esta margem que via agora estava
completamente coberta delas. Abundavam a as aves, de muitas
espcies, algumas das quais conhecia de vista; a maior parte
delas eram boas para comer; no sei o nome delas, a no ser
aquelas a que na Amrica chamam pinguins.


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  Podia ter morto quantas quisesse, mas j tinha pouca plvora
e pouco chumbo, e antes queria matar uma cabra, se fosse
possvel, porque tinha mais que comer. Contudo, apesar dessa
parte da costa ser muito mais abundante em cabras, era muito
mais difcil aproximar-me delas porque o terreno era plano e
podiam ver-me muito mais facilmente do que quando estava sobre
os rochedos e as colinas.
  Por mais encantadora que fosse a regio, no sentia o menor
desejo de mudar de casa; estava acostumado  que tinha desde o
princpio, e no mesmo momento que admirava as belas
descobertas que fazia sentia-me como num pas estrangeiro.
  Segui enfim o meu caminho ao longo da costa, dirigindo-me
para leste, e creio que percorri algumas doze milhas: enterrei
ento uma grande vara na praia para me servir de referncia e
resolvi voltar para casa; decidi que na prxima vez que me
pusesse a fazer outra viagem, seguiria para leste do meu
domiclio; acabaria por dar metade da volta  ilha antes de
chegar ao marco.
  Segui na volta caminho diferente daquele por onde viera,
julgando que poderia facilmente ficar com um panorama de toda
a ilha, e encontrar a minha morada. Enganava-me contudo neste
raciocnio, porque quando andara duas ou trs milhas achei-me
num vale espaoso, cercado de colinas de tal maneira cobertas
de bosques que no havia maneira de adivinhar o meu caminho, a
no ser que observasse o Sol; ainda assim era preciso que
soubesse a posio desse astro, ou a hora do dia.
  Para cmulo aconteceu estar o tempo sombrio durante trs ou
quatro dias que passei nesse vale: como no podia ver o Sol
acabei por andar errante e vagabundo, e por fim fui obrigado a
voltar para a beira-mar at junto da vara, e a voltar pelo
caminho por onde primeiramente viera. Deste modo regressei a
casa aos bocadinhos, suportando o calor excessivo e o peso da
espingarda, do polvarinho, do machado, das provises.
  O meu co surpreendeu um cabritinho e agarrou-o: corri a
tempo de salvar esse animalzinho das goelas do co e de o
apanhar vivo. Tinha imensa vontade de o transportar para casa;
muitas vezes me ocupara, nas minhas reflexes, da ideia e dos
meios de apanhar um par desses animais e de os sustentar para
formar um rebanho de cabras domesticadas que me poderia servir
de sustento quando a plvora e o chumbo me faltassem.
  Fiz uma coleira para o cabrito e levei-o atrs de mim, no
sem custo at  fazenda; quando cheguei, fechei-o. Depois de
um ms de ausncia, chegava a hora de voltar a casa.
  No podem imaginar a satisfao que senti ao tornar a ver o
meu antigo lar, e descansar os membros fatigados no meu leito
suspenso. A viagem que acabava de fazer, sem caminho certo
durante o dia, sem abrigo seguro para a noite, cansara-me
tanto que a minha antiga casa me parecia hoje um
estabelecimento perfeito onde nada faltava. Tudo o que me
rodeava me encantava, e resolvi no me afastar mais por tanto
tempo enquanto o meu destino me retivesse na ilha.
  Fiquei em casa durante uma semana, para saborear as douras
do repouso e refazer-me da longa viagem. Contudo um negcio de
grande importncia me ocupava seriamente: estava fazendo uma
gaiola para o meu papagaio; comeava j a ser da famlia e
conhecamo-nos perfeitamente. Depois pensei no pobre cabrito
que deixara fechado dentro da fazenda, e julguei conveniente
ir busc-lo, ou pelo menos levar-lhe de comer. Quando acabou
de comer, prendi-o e trouxe-o comigo. A fome debilitara-o a
tal ponto que me seguia como um co. Tratei dele com muito
cuidado, no deixando de lhe dar de comer e de o acariciar
todos os dias. Em pouco tempo tornou-se to familiar, to
engraado, to meigo que nunca mais me quis deixar e foi
agregado ao nmero dos meus outros criados.
  Voltara a estao chuvosa do equincio do Outono. Fazia a 30
de Setembro dois anos que eu chegara  ilha, e no tinha mais
esperana de sair dela do que no primeiro dia. Duma maneira
to solene como no ano precedente, ocupei-me todo o dia em me
humilhar diante de Deus, e agradeci  Sua Divina Providncia o
ter-se manifestado em mim, e fazer-me conhecer que nessa
solido podia ser feliz, o que me recompensava amplamente dos
males que sofria, e supria os bens que me faltavam pela
presena e comunicao da sua graa; ajudando-me,
consolando-me, animando-me a esperar a sua proteco para a
vida presente e uma felicidade sem limites para a futura.
  Tempos antes, quando ia caar ou passear ao campo, estava
sujeito a cair em reflexes tristes  vista da minha condio,
e a desfalecer subitamente de dor quando observava as
florestas, as montanhas e os desertos, onde, sem companheiro e
sem auxlio, me via encerrado pelas barreiras eternas do
oceano; estes pensamentos vinham muitas vezes surpreender-me
no meio do maior sossego: como a tempestade, lanavam-me
bruscamente na perturbao e na desordem, faziam-me enlaar as
mos uma na outra e chorar como uma criana. s vezes estes
movimentos surpreendiam-me no meio do meu trabalho; sentava-me
ento, suspirando amargamente, com os olhos fitos no cho
durante duas ou trs horas sucessivas:


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e isto piorava a minha condio porque se pudesse dar livre
curso s minhas lgrimas e exalar a minha dor em palavras e
lamentaes, teria aliviado a natureza descarregando-a de to
pesado fardo.
  Mas agora o meu esprito era ocupado por outra coisa; a
leitura da palavra de Deus fazia parte das minhas ocupaes
dirias, e dela emanava toda a consolao de que o meu estado
precisava. Estava nestas disposies de esprito no comeo do
meu terceiro ano de residncia na ilha; e apesar de no querer
aborrecer o leitor com uma relao to exacta dos meus
trabalhos neste ano, como dos do primeiro, devo todavia
observar que em geral pouquissmas vezes estive ocioso, e que
dividia o meu tempo em tantas partes quantas as funes
diferentes que desempenhava: em primeiro lugar o servio de
Deus, a leitura das Escrituras, na qual me ocupava
regularmente, at trs vezes por dia; em segundo lugar, os
passeios com a minha espingarda para matar animais
comestveis, passeios que normalmente duravam trs horas,
quando no chovia; em terceiro lugar, o trabalho que tinha de
preparar, para cozer ou conservar e armazenar o que matava, o
que me tomava uma boa parte do tempo. Alm disso, notem que,
durante todo o tempo que o Sol estava no apogeu ou perto desse
ponto, o calor era to excessivo que no era possvel sair:
no dispunha pois de mais de duas ou trs horas depois do
jantar, alternando as horas da caa com as do trabalho, de
sorte que trabalhava de manh, e saa com a espingarda 
tarde.
  A este curto espao de tempo destinado ao trabalho, se deve
juntar a grande dificuldade do mesmo, e as horas que a falta
de instrumentos e de habilidade me obrigavam muitas vezes a
tirar s minhas outras ocupaes para realizar a mais pequena
coisa.
  Citarei como exemplo os quarenta e dois dias inteiros gastos
em fabricar uma prancha para me servir de tabuleiro na minha
caverna, trabalho que dois serradores com a sua ferramenta e
uma oficina conveniente teriam feito em poucas horas.
  Vou explicar como trabalhava. Ia ao bosque procurar uma
rvore grossa, porque a prancha devia ser larga. Gastava trs
dias a cortar a rvore pela raiz e dois a tirar-lhe os ramos,
a reduzi-la a uma viga lisa.  fora de rachar, cortar e de
martelar, desbastava-a dos dois lados, transformando-a em
cavacos, e deixando-lhe s trs dedos de grossura. Devem
imaginar como este trabalho era rude para as minhas mos, mas
com assiduidade e pacincia consegui isto, e muitas outras
coisas. Quis explicar-lhe esta particularidade para mostrar ao
mesmo tempo a razo por que se consumia tanto tempo em coisas
to pequenas: efectivamente, uma demora que no parece nada
quando temos ajuda e ferramenta, custa, quando se est privado
destas duas coisas, um tempo e um trabalho infinitos. Mas,
repito uma vez mais, o trabalho e a pacincia reparavam todas
as faltas, supriam todas as minhas necessidades, forneciam-me
em abundncia tudo o que me era necessrio.  o que se h-de
ver claramente na continuao da minha histria.


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                              XV


                    ROBINSON CEIFEIRO, OLEIRO,
                    MOLEIRO E PADEIRO


  Chegara o ms de Novembro, e eu esperava o momento de fazer
a minha colheita de cevada e arroz.
  E prometia ser boa at que descobri de repente que estaria
em perigo de perder tudo, e de me ver roubado por inimigos de
muitas espcies, de que no era possvel preservar o meu
campo. As primeiras hostilidades foram cometidas pelas cabras
e por esses animais a que dei mais acima o nome de lebre;
depois de terem provado o sabor do trigo em erva, tanto
gostaram que a ficaram acampados noite e dia, e comiam-no 
medida que crescia, e to perto da raiz, que era impossvel
que tivesse tempo de a espiga se formar.
  Este mal s tinha um remdio, que era cercar completamente o
meu trigo por uma sebe. Deu-me muito trabalho e suei muito com
esta obra, tanto mais que a coisa era urgente e pedia grande
diligncia. Contudo, como a terra lavrada era proporcionada 
sementeira que fizera, de pequena extenso, tive-a fechada e
protegida durante trs semanas. E para melhor dar caa a esses
maraus, atirava sobre alguns durante o dia, e opunha-lhes
durante a noite o meu co, que deixava preso a um poste
exactamente  entrada da fazenda, de onde ele saltava aqui e
ali, ladrando contra eles com todas as suas foras. Desta
maneira, os inimigos foram obrigados a abandonar a praa, e em
pouco tempo vi o trigo crescer, prosperar e amadurecer a olhos
vistos.
  Mas se os animais selvagens tinham feito estragos na
colheita, quando ela estava em erva, as aves ameaavam-na de
uma runa completa desde o momento em que aparecesse coroada
de espigas; passeando eu um dia ao longo da sebe para ver como
ia, vi sobre a seara uma imensidade de aves de no sei quantas
espcies  que estavam  espreita e s esperavam que eu me
fosse embora para comear o assalto. Descarreguei a minha
inseparvel espingarda contra elas.
  Imediatamente, elevou-se no ar uma densa nuvem de aves em
que no tinha reparado e que estavam escondidas por entre o
trigo. Custou-me ver isto porque me pressagiava o
aniquilamento das minhas esperanas, a dieta em que ia cair, a
perda total da colheita, e o pior  que no sabia como havia
de evitar essas desgraas. Resolvi contudo salvar o meu trigo
e at fazer sentinela dia e noite se fosse necessrio.
  Mas primeiro que tudo fui ver os estragos causados. Esses
diabos tinham na verdade feito estragos, mas no tanto como eu
esperava: a verdura das espigas detivera um pouco a sua
avidez, e se eu pudesse salvar o resto, prometia-me ainda uma
boa e abundante colheita. Fiquei ali uns momentos para tornar
a carregar a espingarda, depois do que afastando-me um pouco,
pude ver os meus ladres emboscados em todas as rvores dos
arredores, como se s esperassem que me fosse embora para
fazer nova irrupo. No pude duvidar dos seus projectos:
afastei-me alguns passos, como para me ir embora de todo. Mal
eu desaparecera, desceram uns atrs dos outros ao campo de
trigo. Fiquei to irritado que nem esperei que se reunissem em
maior nmero; parecia que me roam as entranhas e que cada
gro que engoliam tinha para mim o valor de um po inteiro.
Adiantei-me pois para o p da sebe, e disparei um tiro sobre
eles que matou trs. Era justamente o que desejava com ardor,
porque os apanhei primeiro para fazer a sua punio severa e
trat-los como se faz em Inglaterra aos ladres insignes, que
so condenados a ficar dependurados na forca depois da sua
execuo, a fim de inspirar terror aos outros. No podem
imaginar o esplndido efeito que isso fez: as aves, depois
disso, no s deixaram o meu trigo, mas abandonaram tambm
essa parte da ilha, e no vi mais nenhuma nas vizinhanas todo
o tempo que a ficou o espantalho.
  Fiquei contentssimo, como podem imaginar, e fiz a minha
colheita nos fins de Dezembro, que  neste clima a estao
prpria para a segunda colheita.
  Antes de comear este trabalho, no sabia como havia de
substituir a foice, porque precisava absolutamente de uma para
cortar o trigo. No tive outro partido a tomar seno o de
fabricar uma o melhor que pude com um dos sabres ou cutelos
que eu salvara de entre as outras armas que ficaram no navio.
  Quando findou a colheita, vi que o que semeara me dera perto
de dois alqueires e meio de trigo. Este facto animou-me
bastante, era o suficiente para me dar a conhecer que a divina


                                  92  93


Providncia me no queria deixar sem po: todavia estava ainda
muito embaraado, porque no sabia como cozer esse po quando
conseguisse mesmo amass-lo.
  Todas estas dificuldades se juntavam ao desejo que eu tinha
de juntar uma boa quantidade de provises e de ter diante de
mim um celeiro que me assegurasse po para o futuro, e por
isso resolvi no mexer nessa colheita, mas conserv-la e
seme-la toda inteira na estao prxima.
  Enquanto esperava, queria empregar toda a minha indstria e
todas as horas do meu trabalho em pr em prtica o grande
desgnio que tinha de me aperfeioar na arte de lavrador,
assim como em tirar partido dos produtos da minha lavoura.
  Podia dizer, num sentido prprio e literal que trabalhava
para a minha vida. Mas uma coisa espantosa, na qual no creio
que muitos reflictam, so os preparativos que  necessrio
fazer, o trabalho que se tem, as formas diferentes que 
necessrio dar  obra antes de poder produzir na sua perfeio
o que se chama um pedao de po. Foi o que reconheci com
grande pena minha, eu que estava reduzido a um estado de pura
natureza; e cada vez mais me convencia disso em cada dia que
ia passando, depois de ter recolhido o pouco trigo que
crescera de uma maneira to extraordinria e to inesperada ao
p do rochedo.
  Em primeiro lugar, no tinha charrua para lavrar a terra,
nem enxada para a cavar.  verdade que acudi a isso fazendo a
p de madeira, de que j falei; mas reconhecia facilmente no
meu trabalho a imperfeio dessa ferramenta. E apesar de eu
ter perdido com ela muitos dias, todavia, como no era
guarnecida de ferro em volta, no s se gastou mais cedo, mas
ainda trabalhava com mais custo e menos xito. Contudo
resignava-me a tudo isso, e suportava com igual pacincia a
dificuldade do trabalho e o pouco resultado de que era
seguido.
  Depois de estar semeado o meu trigo, precisava de uma grade;
no tendo nenhuma, via-me obrigado a passar por cima da terra
um grosso ramo de rvore que arrastava atrs de mim, mas
servia mais para esfregar os torres do que para os desfazer.
Quando a minha sementeira estava florida, em espiga ou madura,
de quantas coisas no precisava eu, para o armazenar, para
afastar dele os animais ferozes e as aves, para ceif-lo,
sec-lo, acarret-lo, bat-lo, joeir-lo e esprem-lo! Depois
disto feito, ainda me faltava um moinho para moer, uma peneira
para peneirar a farinha, levedura e sal para fazer fermentar e
um forno para cozer o po. Eis de um lado tantos instrumentos,
e de outro trabalhos bem diferentes! Farei contudo notar que
todos aqueles me faltaram, e eu no faltei a nenhum destes. O
meu trigo dava-me muito que fazer; no entanto, fazia-me mais
falta que tudo o mais e eu considerava-o o mais precioso dos
meus bens. E Contudo, tantas coisas a fazer e tantas outras de
que tinha uma necessidade extrema ter-me-iam feito perder a
pacincia, se eu no tivesse a convico de que havia remdio
para isso; alm disso, a perda do meu tempo no me devia
desanimar, porque, na maneira como o dividia, havia certa
parte do dia dedicada a estas espcies de trabalho, e como eu
no queria empregar poro alguma do meu trigo para fazer po
at ter maior proviso, tinha diante de mim os seis meses
prximos para tratar de arranjar, pelo meu trabalho e engenho,
todos os utenslios prprios para tirar o melhor partido dos
gros que colheria.
  Mas primeiramente era-me preciso arranjar um maior espao de
terra, porque j tinha gro bastante para semear mais duma
colheita. No podia cavar a terra sem ter uma enxada. Foi
tambm por onde comecei, e para isso foi-me necessrio pelo
menos uma semana, e mesmo assim ficou muito grosseira e mal
formada, pelo que o trabalho se tornou muito difcil.
  Mas isto tudo no me desanimou nem impediu de continuar. E
finalmente semeei duas jeiras de terra planas e lisas, as mais
prximas da minha residncia que pude arranjar, e cerquei-as
duma boa sebe. Este recinto era composto de plantas da mesma
espcie da que rodeava a minha casa: sabia que cresceria
rapidamente, e que dentro de um ano formaria uma sebe viva que
poucas reparaes exigiria. Este trabalho levou-me trs meses,
porque uma parte deste tempo foi durante a estao chuvosa que
raras vezes me deixava sair.
  Durante todo o tempo que estive metido em casa por causa da
continuao das chuvas, ocupei-me da maneira que adiante
descreverei; ao mesmo tempo que trabalhava, entretinha-me a
conversar com o meu papagaio: deste modo aprendeu a falar, e a
dizer o seu nome e o seu cognome, Papagaio Real, palavras
estas que foram tambm as primeiras que ouvi na ilha
pronunciadas por voz que no fosse a minha. Este pequeno
animal servia-me de companheiro no meu trabalho, e as
conversas que eu tinha com ele distraam-me muitas vezes das
minhas ocupaes, graves e importantes, como vo ver. Havia j
muito tempo que pensava se poderia fabricar alguns vasos de
barro, de que tinha imensa preciso, mas no sabia como.
Todavia, quando considerava o calor do clima, sabia que, se
conseguisse achar bastante argila,   poderia arranjar um pote



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que depois de seco ao sol seria bastante duro e forte para
fazer uso dele e poder meter dentro coisas que precisassem de
estar ao abrigo da humidade. Como esperava ter dentro em pouco
uma grande quantidade de trigo, de farinha e de outras coisas,
resolvi arranjar alguns vasos e faz-los o maior possvel, a
fim de os ter firmes como jarras, prontos a receber
diferentes coisas que queria guardar dentro deles.
  O leitor teria d, ou antes zombaria de mim se eu lhe
dissesse as maneiras extravagantes como principiei este
trabalho; as formas estranhas e pouco elegantes dadas s
primeiras jarras, que caram em pedaos para dentro ou para
fora, porque a argila no era bastante firme para sustentar o
seu prprio peso; quantas jarras se derreteram com grande
ardor do sol, por terem sido expostas a precipitadamente;
quantas se quebraram ao mud-las de lugar, umas vezes antes de
secas, outras depois: de tal maneira que no pude acabar mais
de dois grandes e extravagantes vasos que no me atrevo a
chamar jarras, mas que me fizeram perder perto de dois meses.
  Mas estes estavam bem cozidos e endurecidos ao sol;
levantei-os cuidadosamente, pu-los em dois grandes cestos de
cana que eu fizera expressamente para os proteger; e como
havia um espao entre o vaso e o cesto, enchi-o completamente
de palha, contando que estes dois vasos se conservariam sempre
secos, que poderia guardar neles o trigo, e depois a prpria
farinha, talvez.
  Se no me sa l muito bem no fabrico dos dois vasos
grandes, j no de objectos mais pequenos - potes, pratos,
bilhas, terrinas, vasos - tive tal xito que fiquei
contentssimo. A argila tomava debaixo da minha mo toda a
espcie de figura, e recebia do sol uma dureza surpreendente.
  Mas nada disso correspondia ainda ao fim que me propunha:
ter um pote de barro capaz de encerrar coisas lquidas e
resistir ao fogo. Algum tempo depois aconteceu que, tendo eu
um bom lume para preparar as minhas iguarias, achei na
fogueira um pedao do meu servio de barro que se achava
perfeitamente cozido, duro como uma pedra e vermelho como um
tijolo.
  Fiquei agradavelmente surpreendido e disse comigo que
seguramente os meus potes tambm poderiam cozer-se inteiros.
Esta descoberta deixou-me a considerar como havia de dispor o
meu fogo de maneira a poder cozer os potes. No tinha ideia
alguma nem do gnero de fornalha de que se servem os oleiros,
nem do verniz com que lustram a sua baixela, ignorando que o
chumbo que eu tinha servia para isso. Uma vez fiz uma pilha
sobre um monte de cinzas, pondo trs grandes bilhas em baixo e
os potes sobre elas e acendi em volta uma fogueira com
madeira. Flamejava to bem, aos lados e em cima, que em pouco
tempo tinha os meus vasos todos vermelhos sem estar nenhum
rachado.
  Conservei-os nesse grau de calor perto de cinco ou seis
horas, at que descobri um que no estava rachado mas que
comeava a derreter-se, a desfazer-se porque o cascalho que
estava misturado na argila se liquefazia pela violncia do
fogo, e ter-se-ia tornado em vidro se eu tivesse continuado.
Assim graduei o calor at que os vasos estivessem a perder um
pouco do seu vermelho, estive em p toda a noite para vigiar o
lume, com medo que se extinguisse subitamente. Ao despontar da
aurora, vi-me enriquecido com trs bilhas que no sendo
bonitas eram contudo muito prticas e ainda trs vasos de
barro muito bem cozidos, um dos quais com um perfeito verniz
graas  fundio do cascalho.
   escusado dizer que depois desta experincia tive todos os
vasos que precisei.  certo que no eram perfeitos, mas h que
ter em considerao que eu no tinha qualquer ajuda nem mtodo
fixo, achava-me como as crianas que fazem tortas com barro
empastado, ou como uma mulher que se fizesse pasteleira sem
nunca ter trabalhado com massas.
  No creio que possa ter-se maior alegria que a que tive
quando vi que fizera um pote que resistia ao fogo. E mal os
vasos acabaram de esfriar, pus um sobre o lume com gua dentro
para cozer a carne, o que teve um xito completo, porque um
pedao de cabrito que pusera no vaso, fez-me um bom caldo,
apesar de me faltarem muitos ingredientes para o tornar to
bom como eu queria.
  A coisa que eu mais desejava depois disto era uma pedra por
meio da qual eu pudesse pisar ou moer trigo porque fazer um
moinho foi coisa que nem me passou pela cabea, tanta arte
isso exige. O ofcio de canteiro era de todos aquele para o
qual tinha menos vocao, para alm de no ter nenhuma das
ferramentas empregadas nesse trabalho. Procurei durante muitos
dias uma pedra que fosse bastante grossa e tivesse dimetro
suficiente para poder escav-la e fazer um almofariz; mas no
encontrei nenhuma em toda a ilha, excepto a que encerrava o
corpo dos rochedos, onde por falta de ferramenta, no podia
cavar nem talhar, e donde por consequncia nada podia tirar.
  Alm disso os rochedos da ilha no eram apropriados, pois
eram de uma pedra que se esmigalhava muito facilmente e no
poderia sofrer os golpes de um pesado pilo. Desisti de
procurar uma pedra e resolvi buscar nas florestas algum cepo
grosso, de madeira bastante dura. Foi muito fcil ach-lo;
arredondei-o e dei-lhe forma com o machado e a enx;


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em seguida cavei-o com imenso trabalho, aplicando-Lhe o fogo,
como fazem os selvagens para construir as canoas. E em seguida
fiz um grosso e pesado pilo com uma madeira chamada
pau-ferro. Vencida esta difi culdade tinha agora que fazer uma
peneira ou um tamiz, sem o que no via possibilidade de vir a
ter po. A coisa era to difcil em si mesma que quase nem
tinha coragem de pensar nela: estava muito longe de poder
fazer um tamiz; porque precisava de uma boa talagara, ou de
um outro tecido para passar a farinha. Este grande obstculo
reteve-me na incerteza durante muitos meses, sem avanar.
  Tudo o que me restava de fazendas eram apenas farrapos;
tinha ainda plo de cabra, mas no sabia como fi-lo. Estafei
a cabea a procurar meio de remediar este inconveniente,
quando me lembrei enfim de que havia entre a roupa que eu
salvara do navio algumas gravatas de fazenda de algodo. Com
alguns pedaos de gravata fiz trs pequenos tamizes que me
duraram muitos anos, at que os substitu do modo que depois
se ver.
  Em seguida vinha a padaria, cujas funes iam desde o
amassar ao cozer no forno. Mas no tinha levedura, nem via
como substitu-la pelo que resolvi no me apoquentar com isso.
  Quanto ao forno, dei tratos  imaginao para encontrar meio
; de fabricar um. Finalmente, achei uma inveno que
correspondia ao meu desgnio, e  a seguinte.
  Fiz alguns vasos de barro muito grandes, mas pouco
profundos: podiam ter uns dois ps de dimetro por nove
polegadas de fundo; cozi-os ao lume como os outros, e em
seguida pu-los de parte. Ora, quando queria meter o po no
forno, comeava por acender um grande lume no meu fogo que
era ladrilhado de tijolos, feitos e dispostos a meu modo, no
satisfazendo muito s  regras de geometria. Quando a lenha da
fogueira estava pouco mais ou menos reduzida a carves
espalhados sobre o lar de madeira a cobri-lo completamente,
esperava que ele estivesse extremamente quente; afastava ento
os carves e as cinzas varrendo tudo asseadamente, depois
punha a massa que eu cobria primeiro com o vaso de barro de
que j fiz a descrio e em torno do qual juntava os carves
com as cinzas para a concentrar o calor ou mesmo aument-lo.
  Desta maneira, cozia os meus pes de cevada to bem como no
melhor forno do mundo, e, no contente de fazer de padeiro,
fiz-me ainda pasteleiro porque fiz muitos pastis e pudins de
arroz.
  Na verdade, no chegava ao ponto de fazer empadas,


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mas mesmo que conseguisse fazer alguma, s poderia meter-lhe
dentro carne de cabra ou de aves da ilha, que fariam triste
figura como empada por falta de temperos convenientes. No h
que admirar-se de todas estas coisas me terem ocupado durante
a maior parte do terceiro ano da minha residncia na ilha, uma
vez que dedicava parte do meu tempo  agricultura e s
colheitas. Efectivamente, cortei o trigo na mesma estao,
transportei-o para casa, conservei as espigas em grandes
cestos at ter vagar de as debulhar, coisa que fazia com as
mos pois no tinha uma p nem mangual para as bater.
  Mas agora que a quantidade dos meus gros aumentava,
precisava de alargar o celeiro porque as minhas sementeiras
tinham tido to grande produo, que a minha ltima colheita
subiu a vinte alqueires de cevada e igual quantidade de arroz:
de forma que desde ento me julgava em estado de comer po 
vontade, eu que dele fazia abstinncia havia j tanto tempo -
desde que J no tinha biscoito. Quis ver tambm a quantidade
de trigo de que necessitaria durante um ano e se no poderia
contentar-me com fazer uma s sementeira.
  Bem deitadas as contas, vi que quarenta alqueires eram o
mximo que podia consumir anualmente. Assim resolvi semear
cada ano a mesma quantidade que da ltima vez, esperando que
me proporcionasse po suficiente.


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                                   XVI


                   ROBINSON CONSTRI UM BARCO


  Enquanto estas coisas se passavam, bem podem imaginar que eu
ruminava os meus pensamentos sobre a descoberta que fizera da
terra situada em frente da ilha, e no podia pensar nisso sem
sentir desejo de ir at l. Com efeito, considerava que
aquelas paragens eram desabitadas, que aquelas onde eu
aspirava chegar estavam no continente, e que, fosse qual fosse
a sua natureza, poderia dali ir mais longe e achar meio de me
ver livre da minha misria.
  Em todos estes raciocnios no fazia entrar em linha de
conta os perigos aos quais me exporia uma tal empresa;
principalmente o de cair nas mos de selvagens mais cruis que
os tigres e lees de frica: seria um milagre se no me
matassem para me devorar, porque me lembrava de ter ouvido
dizer que os habitantes das costas das Carabas eram
antropfagos, comedores de homens, e eu imaginava, pela
latitude, que no podia estar muito afastado desse pas. Ainda
que esses povos no fossem antropfagos continuava a correr o
perigo de ser morto por eles, se lhes casse nas mos, pois
fora essa a sorte de muitos europeus antes de mim, apesar de
serem em nmero de dez, e algumas vezes mesmo de vinte
pessoas; mais razo tinha eu para recear por mim, s e por
isso incapaz de sustentar uma longa defesa.
  Todas estas coisas que eu devia considerar maduramente e
depois me fizeram reflectir, no me entraram no esprito ao
princpio.
  Pelo contrrio, estava inteiramente possudo do desejo de
atravessar o mar para desembarcar do outro lado.
  Foi ento que lamentei a perda de Xuri e o grande bote com
vela latina, no qual navegara perto de mil e cem milhas, ao
longo das costas de frica; mas como nada ganhava com essas
lamentaes, veio-me  ideia visitar o escaler do nosso navio,
que depois do naufrgio fora arrastado para a praia, como j
disse. Encontrei-o um pouco mais longe do lugar em que estava
da primeira vez em que l fora, e quase de quilha para o ar,
apoiado numa grande duna para onde a violncia dos ventos e
das ondas o atirara e deixara inteiramente em seco.
  Se eu tivesse algum que me ajudasse a consert-lo e a
lan-lo depois ao mar, com facilidade teria chegado ao
Brasil; mas devia ter previsto que me era impossvel volt-lo
e assent-lo sobre a quilha, tal como seria fazer mexer a
ilha. Mas fui aos bosques, donde cortei alavancas e cilindros
que levei para o stio onde estava o escaler, resolvido a
ensaiar as minhas foras e persuadindo-me de que se
conseguisse desenterr-lo dali no me seria difcil reparar os
danos que recebera e fazer dele um bom barco com o qual
poderia aventurar-me ao mar. Na verdade, no me poupei esse
trabalho infrutfero, e julgo que no gastei menos de trs  ou
quatro semanas. Mas, finalmente, vendo que as minhas foras
no eram suficientes para levantar um fardo to pesado, pus-me
a cavar a terra debaixo do escaler e a empregar o trabalho de
capa para o fazer cair, colocando ao mesmo tempo muitos
pedaos de madeira para amparar a queda, de maneira que
pudesse achar-se sobre o fundo.
  Mas apesar de todos os esforos no consegui mov-lo, nem
mesmo faz-lo avanar um pouco, e muito menos ainda faz-lo
entrar na gua; assim, vi-me obrigado a desistir desse belo
projecto, e contudo, coisa estranha, enquanto se desvaneciam
as esperanas que concebra a respeito do meu barco, o vivo
desejo de me expor ao mar para alcanar o continente
aguilhoava-me cada vez mais  medida que a coisa parecia menos
possvel.
  Pus-me ento a examinar se seria possvel construir com o
tronco de uma rvore uma canoa semelhante s que fazem os
nativos destas regies. A coisa pareceu-me praticvel, mesmo
fcil, e s a ideia de um tal projecto, junta  persuaso de
que tinha mais recursos na imaginao para o pr em prtica do
que os Negros e os Americanos, ocupava agradavelnente o meu
esprito. Mas no dava ateno alguma aos inconvenientes
particulares que me aconteciam e que esses Americanos no
sentiam: entre outros, por exemplo, a falta de auxlio de
algum que me ajudasse a mover o meu barco quando estivesse
acabado, e a transport-lo para o mar, obstculo muito mais
difcil de vencer para mim do que a falta de todas as
ferramentas para esses selvagens. Para que me serviria, depois
de ter escolhido nos bosques uma rvore de grossura


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suficiente, poder cort-la com um enorme trabalho, em seguida
carpinteir-la e talh-la com as minhas ferramentas para lhe
dar a forma de um escaler, depois queim-la ou talh-la por
dentro para a tornar oca e completa; para que me serviria tudo
isso, repito, se no fim teria que deix-la exactamente no
mesmo stio por no poder lan-la  gua?
  Mas o ardente desejo de entrar nesse bote para atravessar o
brao de mar at  terra firme que aparecia do outro lado,
cativava de tal modo todos os meus sentidos, que no pensei
poder deslocar esse barco.
  E certamente teria sido incomparavelmente mais fcil faz-lo
galgar o espao de quarenta e cinco milhas no mar, do que o de
perto de quarenta e cinco braas que havia do lugar onde ele
estava em terra firme quele em que poderia estar na gua.
  Fiz ento a aco mais insensata que um homem pode fazer
pondo-me a trabalhar nesse barco. Aplaudia-me inteiramente por
me formar um tal desgnio, sem me ter convencido se seria
capaz de o executar, sem deixar de pensar s vezes na
dificuldade de lanar o meu barco  gua; mas era uma matria
que eu no aprofundava, e terminava todas as minhas dvidas
com esta soluo extravagante: "Vamos, vamos", dizia eu comigo
mesmo, "faamo-lo somente e, quando estiver acabado,
procuraremos ento imaginar um meio de o mover e fazer
flutuar".
  Este mtodo era diametralmente oposto s regras do bom
senso: mas enfim levara a minha teima avante, e pus-me a
trabalhar. Comecei por cortar um cedro. Duvido que o Lbano
tivesse alguma vez fornecido a Salomo um cedro igual, quando
construa o Templo de Jerusalm. O dimetro dessa rvore era
em baixo de cinco ps e dez polegadas; dali, tomava quatro ps
e onze polegadas com o comprimento de vinte e dois ps; em
seguida ia diminuindo at  ramagem. No foi sem imenso
trabalho que abati essa rvore, porque fui assduo durante
vinte dias a machadar e a talhar na rvore. Estive mais de
quinze dias a destroncar e a talhar o vrtice vasto e
espaoso, em que empreguei machados e martelos e tudo o que a
carpintaria me podia fornecer de mais poderoso, junto com todo
o vigor de que era capaz. Custou-me um ms de trabalho para o
afeioar e aplainar com medida e proporo, a fim de fazer
dele uma coisa semelhante ao dorso de um barco, de tal modo
que pudesse flutuar direito e como era necessrio. No gastei
menos de trs meses a trabalhar e a cavar, at ao ponto de
fazer uma perfeita chalupa. Consegui isto, sem me servir do
fogo ou outro meio para alm do martelo, do escopro, e de uma
assiduidade que nada pde diminuir, at que me vi  possuidor
de um escaler muito bom, bastante grande para carregar vinte e
seis homens, e por consequncia mais que suficiente para mim e
toda a minha carregao.
  Quando acabei esta obra, senti uma alegria extraordinria; e
na verdade era o maior escaler, ou a mais bela gndola que
tinha visto na minha vida, feita de uma s pea.
  A nica coisa que me restava fazer era meter-me ao mar. Mas
todas as medidas que tomei para lanar o barco ao mar
abortaram, apesar de me terem custado imenso trabalho. No
estava afastado mais de duzentas toesas, mas apresentava-se
logo o inconveniente de que havia uma eminncia no meu caminho
dali  baa.
  Este obstculo no me fez parar; resolvi venc-lo por meio
da p, e at mesmo de cortar a altura em declive. Dei comeo 
obra, e no sei dizer quanto me cansei para tal conseguir: s
o tesouro que tinha  vista, a minha liberdade,  que me daria
foras para vencer tal revs. Mas quando aplainei essa
dificuldade no me vi mais adiantado: era-me to impossvel
mover esse barco como o outro bote de que j falei.
  Medi ento o comprimento do terreno, e formei o projecto de
cavar uma bacia ou um canal, para fazer chegar o mar at ao
meu barco, visto no poder ir o barco at ao mar.
  Comecei pois este trabalho sem demora; e desde o princpio,
ao calcular a profundidade e a largura que deveria ter e como
o esvaziaria, achei que com todos os recursos que podia ter, e
que no devia ir procurar fora de mim mesmo, gastaria bem uns
dez ou doze anos de penas ou de trabalho antes de o ter
acabado; porque o terreno era de fundo vinte e dois ps pelo
menos no stio mais afastado do mar. Desisti deste projecto,
lamentando contudo no ter podido realiz-lo.
  Causou-me isto um vivo desgosto, e mais tarde fez-me sentir
a loucura que se faz em empreender uma obra antes de ter
calculado as despesas e sem pensar com exactido se as
dificuldades da execuo esto acima das nossas foras.


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                              XVII


                    GNERO DE VIDA DE ROBINSON


  No meio desta ltima empresa, cheguei ao fim do meu quarto
ano de residncia na ilha, e celebrei este aniversrio com o
mesmo fervor, com a mesma consolao que o fizera nos anos
precedentes. Julgava poder felicitar-me com razo, de que uma
poderosa barreira me garantia suficientemente dos vcios
contagiosos do sculo.
  No tinha nada a desejar, porque possua j todas as coisas
de que actualmente era capaz de gozar: era o senhor do lugar,
podia mesmo dar-me o ttulo de rei, ou, se quiserem, de
imperador de toda a ilha, porque tudo estava sujeito ao meu
poder. Por toda a parte exercia um imprio desptico; no
tinha rival nem competidor que me disputasse o comando ou a
soberania; podia encher armazns de trigo e s no o semeava
porque no serviria de nada, no precisava dele. Podia ter
tartarugas  larga, mas apenas bastava uma de quando em quando
para fornecer abundantemente a minha despensa. Tinha bastante
madeira para construir uma esquadra inteira; poderia fazer
vindimas muito abundantes para a carregar de vinho e de uvas
secas; mas as coisas de que podia fazer uso eram as nicas que
tinham verdadeiro valor.
  Nada me faltava do que era necessrio para o meu sustento e
conservao: e de que me serviria o excesso? Se tivesse morto
mais caa da que podia comer teria que abandonar o resto ao
co ou aos vermes. Se tivesse semeado mais trigo do que podia
consumir, estragar-se-ia. As rvores que abatesse ficariam
espalhadas na terra para a apodrecerem.
  Numa palavra, a natureza das coisas, e mesmo a experincia
depois de justas reflexes, convenceram-me de que as coisas
deste mundo nos so boas na medida em que podemos fazer uso
delas e segundo o uso que delas fazemos, havendo ainda que
considerar se podemos junt-las para as trocar com os outros.
J referi antes uma soma em oiro e prata, que montava a cerca
de trinta e seis libras esterlinas; ah!, como esse saco de
dinheiro era til para mim!, como atraa pouco a minha
ateno! Era a meus olhos ainda menos precioso do que a lama;
e no fazia mais caso disso do que uso.
  Dizia muitas vezes comigo mesmo, que daria de boa vontade um
punhado desse dinheiro por alguns cachimbos de fumar, por
tabaco, ou por um pequeno moinho para moer o meu trigo. Que
digo eu? Daria tudo por umas tantas sementes de cenouras como
as que temos por seis soldos em Inglaterra; e faria um
excelente negcio se pudesse trocar essas peas por um punhado
de erviLhas, e de favas, e uma garrafa de tinta; porque na
situao em que me achava, essas peas de oiro e de prata no
me traziam a mnima vantagem, e enferrujavam numa gaveta com a
humidade das estaes chuvosas. E se a gaveta estivesse cheia
de diamantes, era a mesma coisa: no teriam mais valor para
mim, visto no me servirem de nada.
  Levava ento uma vida muito mais suave e mais feliz do que
no comeo.
  Muitas vezes, quando me sentava  mesa para comer alguma
coisa, dava as minhas humildes aces de graas  Divina
Providncia, e admirava-A ao mesmo tempo por ter conseguido
levantar assim uma mesa no meio do deserto. Aprendi a dar mais
ateno ao lado bom da situao do que ao mau; a considerar
aquilo de que gozava antes do que me faltava; e s vezes via
nesse mtodo uma origem de consolaes secretas. No deixo de
notar aqui para o gravar na memria de certa gente que, sempre
descontente, no tem gosto para saborear os bens de que Deus
nos encheu, porque desvia os seus desejos para coisas que no
lhe foram concedidas. Os desgostos que nos mortificam a
respeito do que no temos, emanam todos da falta de
reconhecimento do que temos.
  Outras vezes comparava a minha condio presente com aquela
que eu esperava no comeo, e de que teria certamente sofrido
todo o rigor, se Deus, pela Sua Providncia, no me tivesse
dado a salvao nas sequncias do naufrgio, ordenando que o
navio fosse levado to perto de terra que eu pudesse no s ir
a bordo, mas trazer de l tantas coisas que me eram de grande
auxlio. Passava horas, s vezes dias inteiros, a representar
na imaginao com as cores mais vivas o que seria de mim se
no tivesse tirado nada do navio; no teria podido apanhar o
que quer que fosse para meu sustento,


                                 104  105


a no ser talvez alguns peixes e tartarugas: e como se passou
um tempo muito longo antes de eu descobrir alguma destas
ltimas, h todas as probabilidades de que teria morrido sem
ter feito essa descoberta. Se tivesse morto uma cabra ou ave
por algum novo estratagema, no saberia como esfolar nem como
estripar; de sorte que me seria preciso empregar as unhas e os
dentes,  maneira dos animais ferozes.
   verdade que eu estava privado de todo o comrcio com os
homens; mas tambm no tinha nada a recear, nem lobos, nem
tigres furiosos, nem nenhum animal feroz ou venenoso, nem da
barbaria dos canibais. Os meus dias estavam, a todos os
respeitos, em segurana nesse lugar.
  Numa palavra, se a minha vida era dum lado uma vida de
tristeza e de aflio, devo confessar que por outro lado
sentia efeitos bem sensveis da misericrdia divina. Estes
pensamentos consolavam-me e faziam desvanecer inteiramente a
minha tristeza e a minha melancolia.
  Havia j muito tempo que tinha pouqussima tinta; tratava de
a conservar, deitando-lhe gua de quando em quando; mas enfim
fez-se to clara que mal podia distinguir os traos no papel.
Enquanto durou, marquei os dias em que me acontecera alguma
coisa de importante.
  A primeira coisa que me faltou depois da tinta foi o po, ou
melhor o biscoito que trouxera do navio. Apesar de eu o ter
governado com extrema frugalidade, pois durante um ano s
comia um pedacinho por dia, acabou-se completamente antes que
eu pudesse fazer po do trigo que semeara, ou seja, durante
outro ano.
  O meu fato comeava tambm a desaparecer. Havia muito que
no tinha roupa branca, a no ser algumas camisas de pano
riscado que encontrara nos bas dos marinheiros e conservava
com todo o cuidado possvel, porque muitas vezes o calor no
me permitia poder suportar outra vestimenta que no fosse uma
camisa. Salvara tambm alguns casaces grosseiros, mas
serviam-me de pouco, porque eram muito quentes.
  Os calores eram to violentos que eu no tinha necessidade
alguma de fato, mas mesmo assim nunca pude resolver-me a sair
nu, apesar de estar sozinho. Nem podia pensar em semelhante
coisa. Alm disso o calor do Sol era-me mais insuportvel
quando estava nu do que quando estava vestido; causava-me
muitas vezes bolhas em toda a pele; pelo contrrio quando
estava em camisa, o ar agitava-a de maneira que ficava mais 
fresca. Foi igualmente impossvel acostumar-me a estar ao sol
sem a cabea  coberta: ele dardejava os seus raios com tal
violncia que quando eu estava sem chapu, sentia
imediatamente violentas dores de cabea, mas deixavam-me logo
que me cobria.
  A experincia de todas estas coisas fez-me pensar em
empregar os andrajos que eu tinha e a que chamava fato
conforme o estado em que estava. Todas as minhas vestes
estavam usadas, por isso pus-me a fazer uma espcie de vestido
de pano de linho, de alguns materiais que salvara do
naufrgio. Exercia pois o ofcio de alfaiate, ou melhor de
remendo, porque o meu trabalho era lamentvel, e contudo
consegui, depois de muito trabalho, fazer dois ou trs casacos
e alguns pares de calas ou ceroulas.
  Tinha conservado a pele de todos os quadrpedes que matara,
mas como as estendera ao sol, secaram e endureceram tanto, na
sua maioria, que no pude empreg-las em uso algum. Quanto
quelas de que pude servir-me fiz primeiro um grande barrete,
voltando o plo para fora para me abrigar melhor da chuva; em
seguida fabriquei um fato completo, quero dizer um casaco
largo e umas calas largussimas, porque os meus fatos
deviam-me servir mais contra o calor do que contra o frio.
Alm disso, se eu entendia muitssimo pouco do ofcio de
carpinteiro, ainda menos entendia do de alfaiate. Estes fatos
serviram-me contudo muito bem porque a chuva no podia
romp-los.
  Acabados todos estes trabalhos, gastei muito tempo e muito
trabalho a fazer um chapu-de-sol.
  Tinha visto fazer um no Brasil, onde se usam muitssimo
contra os calores excessivos. Custou-me imenso este trabalho,
e passou-se muito tempo antes que pudesse fazer alguma coisa
que fosse capaz de me preservar da chuva e dos raios do Sol;
esta obra contudo no me satisfez, e ainda menos dois ou trs
outros que fiz em seguida.
  Podia bem estend-los, mas no podia dobr-los nem lev-los
doutro modo seno por cima da cabea, o que muito me
embaraava. Finalmente fiz contudo um que correspondeu mais ou
menos s minhas necessidades; cobri-o de peles com o plo
voltado para cima. Estava assim abrigado da chuva como se
estivesse debaixo de um guarda-vento, e caminhava pelos
calores mais ardentes mais  vontade do que o fazia antes nos
dias mais frescos.
  Quando no precisava dele, fechava-o e levava-o debaixo do
brao. Tinha assim uma vida muito suave. O meu esprito estava
tranquilo. Resignara-me  vontade de Deus.


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                             XVIII


                        PASSEIO NO MAR


  Depois de ter acabado as obras de que falei, no me
aconteceu nada de extraordinrio durante o espao de cinco
anos. Continuei o gnero de vida que descrevi. A minha
principal ocupao, alm de semear a cevada e o arroz, de
secar e pendurar as uvas e de ir  caa, foi fazer um pequeno
barco.
  Acabei-o e, abrindo um canal de seis ps de fundo e quatro
de largura, levei-o para a baa. Quanto ao primeiro, que era
de uma grandeza prodigiosa e que eu fizera inconsideradamente,
no pude nunca p-lo a flutuar, nem fazer um canal bastante
grande para a levar gua do mar. Fui obrigado a deix-lo no
seu lugar, como se devesse lembrar-me uma lio para ser mais
circunspecto para o futuro.
  Mas, como se acaba de ver, este mau xito no me desanimou e
aproveitei a minha primeira inadvertncia. A rvore que eu
tinha cortado para fazer um segundo barco estava a meia milha
do mar e era muito difcil levar a gua de to longe at ela
mas mesmo assim no desesperei, apesar de ser coisa
impraticvel. Trabalhei nisso durante dois anos, sem me poupar
ao trabalho, tanta esperana tinha de sair dessa ilha que me
servia de priso, achando o meio de navegar novamente.
  Acabou-se finalmente o meu barco, mas a sua grandeza no
correspondia ao fim que lhe destinara quando comecei a
trabalhar nele: aventurar-me a uma viagem de quarenta milhas 
terra firme. Abandonei pois esse projecto, mas resolvi dar
pelo menos a volta  ilha; j a tinha atravessado a p por
terra, como disse, e as descobertas que ento fizera davam-me
um violento desejo de ver as outras partes das margens. No
pensei mais seno na minha viagem, e a fim de manobrar com
mais precauo e mais segurana equipei o barco o melhor que


                                    108


me foi possvel e pus-lhe mastro e uma vela.
  Fiz um ensaio, e achando que se dava muito bem com o vento,
pus umas caixas ou caixotes nas suas extremidades, a fim de a
conservar as minhas provises e munies da chuva e da gua do
mar que poderiam entrar no barco. Fiz tambm um grande buraco
para as minhas armas e cobri-o o melhor que pude para se
conservar seco. Fixei em seguida o meu chapu-de-sol na popa
do barco para ter sombra. Servi-me do barco primeiro para
passear de quando em quando pelo mar, mas sem nunca me afastar
da minha pequena baa. Por fim, impaciente de ver a
circunferncia do meu reino, resolvi dar uma volta em torno
dele inteiramente. Forneci o meu barco de vveres: duas dzias
dos meus pes de cevada (devia chamar-lhes antes bolos
folhados), um tacho de barro cheio de arroz seco, de que fazia
muito uso, um outro com gua fresca, uma garrafa de rum,
metade de uma cabra, plvora e chumbo para matar outras;
enfim, dois dos grossos casaces de que j acima falei, um
para me deitar em cima, o outro para me cobrir durante a
noite.
  Estava a 6 de Novembro, no sexto ano do meu reinado, ou
cativeiro (dem-lhe o nome que quiserem), quando embarquei
para essa viagem que foi mais demorada do que eu esperava.
  A ilha em si no era muito grande; tinha a leste uma grande
acumulao de rochedos que se estendiam duas lguas pelo mar
dentro, uns elevando-se acima da gua, os outros escondidos;
alm disso, na ponta desses rochedos, havia um grande banco de
areia que estava seco e metido meia lgua pelo mar dentro, de
tal modo que para dobrar essa ponta era obrigado a avanar
muito pelo mar para o largo.
  Perante todas essas dificuldades, estive a ponto de
renunciar  minha empresa, por causa da incerteza do caminho
que tinha a percorrer e da maneira de voltar para casa. Virei
mesmo o meu barco, e lancei a ncora que fiz de uma pea de
artilharia salva do navio.
  Como o barco estava em segurana, peguei na espingarda e
desembarquei, e subi a uma pequena eminncia; da descobri
toda essa parte e toda a sua extenso, o que me fez resolver a
continuar a minha viagem.
  Entre outras observaes que fiz dessas paragens, notei
todavia uma furiosa corrente que se dirigia para leste e
tocava a ponta de bem perto. Estudei-a o mais que pude, por
que tinha razo de recear que fosse perigosa, e que, se casse
nela, me levasse para o mar alto, donde me custaria muitssimo
a voltar para a ilha.


                                    109


A verdade  que as coisas teriam acontecido como eu disse, se
no tivesse tido a precauo de subir a essa pequena
eminncia; porque a mesma corrente reinava do outro lado da
ilha, com a nica diferena de se desviar imenso dela.
  Reconheci tambm que havia uma grande foz no rio, donde
conclu que atravessaria facilmente todas essas dificuldades
se evitasse a primeira corrente, porque tinha a certeza de
poder tirar partido dessa foz.
  Dormi duas noites nessa colina, pois o vento soprava muito
forte de este-sudeste e alm disso, como batia contra a
corrente e causava diversas quebras de mar na ponta, no era
seguro sustentar-me muito na margem, nem avanar muito pelo
mar, porque me arriscava ento a ver-me embaraado na
corrente.
  Recomecei a minha viagem, Mas, ao terceiro dia, tendo
acalmado vento e mar, Que os pilotos temerrios e ignorantes
se aproveitem do que me aconteceu neste encontro. Mal chegara
 ponta quando me achei num mar profundo, e numa corrente to
violenta que podia ser o redemoinho dum moinho.
  No estava contudo mais afastado de terra que o comprimento
do meu barco.
  Sentia-me arrastado para longe da barra, que estava 
esquerda. A grande calma que reinava no me deixava nada a
esperar dos ventos, e as minhas manobras no tinham resultado
algum. Considerei-me homem morto, porque sabia que a ilha era
rodeada por duas correntes e que, por consequncia, 
distncia de algumas lguas deviam juntar-se. Julguei-me
irrevogavelmente perdido; j no tinha esperana alguma de
conservar a minha vida, no que eu receasse ir para o fundo, o
mar estava muito manso, mas no via como pudesse escapar 
fome logo que as minhas provises fossem consumidas.
  Previa que essa corrente me lanaria no mar alto, onde no
tinha esperana de encontrar praia, ilha ou continente depois
duma viagem de talvez mais de mil lguas.
  Como  fcil ao homem, dizia comigo mesmo, trocar a sua
posio, por triste que seja, por outra ainda mais deplorvel!
A minha ilha parecia-me ento o stio mais delicioso do Mundo.
Toda a felicidade por que ansiava era voltar a ela. "Feliz
deserto" - exclamei, voltando a vista para ela - "feliz
deserto, no te tornarei mais a ver! Como sou miservel! No
sei onde me levam as ondas! Desgraada inquietao! Fizeste-me
deixar esta morada encantadora, fizeste-me murmurar muitas
vezes contra a minha solido; mas, agora, o que no daria eu
para poder l voltar?" Tal  com efeito o nosso carcter;


                           110  111


no sentimos as vantagensde um estado seno experimentando os
inconvenientes dum outro; no conhecemos o valor das coisas
seno quando nos privam delas.
   impossvel descrever o desespero em que estava de me ver
levado para longe da minha querida ilha para o alto mar.
  Estava ento da afastado duas lguas, e j no tinha
esperana de a tornar a ver.
  Trabalhava, contudo, com bastante vigor; governava o meu
barco tanto quanto possvel para o norte, isto , para o lado
da corrente onde eu notara uma barra. Por volta do meio-dia,
julguei sentir uma brisa que me soprava no rosto, e que vinha
de sul-sudeste. Experimentei com ela alguma alegria, aumentou
muito meia hora depois, e levantou-se um vento muito
favorvel. Estava ento a uma distncia prodigiosa da minha
ilha. Mal se podia distinguir; e se o tempo estivesse
carregado, o que seria feito de mim? Esquecera-me da minha
bssola; no podia pois alcan-la seno pela vista. Mas
continuando o tempo a estar bonito, voltei a vela e dirigi-me
para o norte, tratando de sair da corrente.
  Ainda no tinha largado a vela quando descobri pela clareza
da gua que ia dar-se alguma mudana na corrente, porque
quando ela estava em toda a sua fora, as guas pareciam
sujas, e tornavam-se claras  medida que diminuia. Encontrei,
meia milha mais longe (a leste), uma quebra de mar causada por
alguns rochedos. Estes rochedos dividiam a corrente em duas: a
maior parte corria para sul, deixando os rochedos a nordeste,
enquanto que a outra, repelida pelos escolhos, se dirigia com
fora para noroeste.
  Aqueles que j sabem o que  receber a sua salvao chegando
ao prprio lugar do suplcio, ou ser salvos das mos dos
bandidos que iam cortar-lhes o pescoo, so os nicos que
sero capazes de conceber a alegria que ento senti.  tambm
difcil de compreender a pressa com que aproveitei o vento
favorvel, e a corrente da foz de que falei.
  Esta corrente serviu-me durante uma hora inteira; ela
dirigia-se em linha recta para a minha ilha, isto , duas
lguas mais para o norte que a que me tinha dela afastado.
Assim, quando cheguei perto da ilha, estava ao norte dela;
quero dizer que me achava na parte oposta quela donde
partira.
  Achava-me agora entre duas correntes: uma, do lado do sul,
era a que me arrastara, e a outra do lado do norte, afastada
da ilha uma lgua, dirigia-se para outro lado. O mar em que me
encontrava estava completamente sossegado, as suas guas
tranquilas, no se movendo em parte alguma; mas, com o auxlio
da brisa fresca que soprava para a minha ilha, aproximei-me
dela, ainda que com mais lentido do que quando cedia 
violncia da corrente, Podiam ser ento quatro horas da tarde
e estava afastado da minha ilha uma lgua, quando descobri a
ponta dos rochedos que causavam todo esse embarao.
Estendiam-se para o sul; e tal como tinham causado toda esta
furiosa corrente, tinham formado uma barra que se dirigia para
o norte.
  No me conduzia directamente s margens da ilha, mas
aproveitando o vento e orientando convenientemente a vela,
atravessei essa corrente o menos obliquamente que pude, e no
fim de uma hora cheguei a uma milha da margem; a gua estava
tranquila e no tardei a alcanar terra.
  Ento, lanando-me de joelhos, agradeci a Deus a minha
salvao e resolvi no correr mais os mesmos riscos. Pus o meu
barco numa pequena cova que notara debaixo das rvores, e
cansado como estava do trabalho e das fadigas da minha viagem,
depressa adormeci.
  Quando acordei, pus-me a pensar na maneira de fazer passar o
barco para a baa prxima de casa; por mar, era arriscar
muito, conhecia bem os perigos que havia do lado leste;
resolvi pois bordejar a costa oeste; esperava encontrar a
alguma baa onde recolher o barco, a fim de poder encontr-lo
em caso de necessidade.
  Encontrei uma depois de ter bordejado pela costa pelo espao
de uma lgua; parecia-me muito boa, e ia torcendo-se at um
pequeno regato que a desembocava. Meti a o meu barco: no
podia desejar melhor porto para essa linda embarcao.
Dir-se-ia que tinha sido aberto de propsito para a receber.
  Ocupei-me depois em reconhecer onde estava, e vi que no era
longe dali at ao stio onde estivera quando atravessei a
minha ilha. Assim, deixando todas as minhas provises no
barco, excepto a espingarda e o chapu-de-sol, porque estava
muito calor, pus-me a caminho.
  Embora muito cansado, caminhei com bastante prazer: cheguei
ao cair da noite  velha choa (espcie de latada), que fizera
outrora. Estava a tudo no mesmo estado: tratei-a sempre com
muito desvelo; era, como disse, o que eu chamava a minha casa
de campo. Saltei a sebe, deitei-me  sombra, e como estava
extremamente fatigado adormeci. Os que lerem esta histria
imaginem a minha surpresa ao ser despertado por uma voz que
chamava repetidas vezes pelo meu nome: "Robinson, Robinson,


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Robinson Cruso, onde estiveste? Robinson Cruso, onde
estiveste? Robinson Cruso, onde estiveste?"
  Como remara toda a manh, e caminhara toda a tarde, estava
cansado a ponto que no acordei imediatamente. Sentia-me
desfalecido, meio adormecido e meio acordado, e julguei sonhar
que algum me falava. Contudo a voz continuava a repetir
"Robinson Cruso, Robinson Cruso", acordei ento de vez, mas
assustado e na ltima consternao. Sosseguei todavia um
pouco, depois de ter visto o meu papagaio empoleirado na sebe:
reconheci primeiramente que era ele quem me falara, porque lhe
ensinara a pronunciar essas palavras. Vinha muitas vezes
poisar no meu dedo e, aproximando o seu bico do meu rosto,
punha-se a gritar: "Pobre Robinson Cruso, onde estiveste,
onde estiveste, como vieste aqui ter?", e outras coisas
semelhantes.
  Mas, posto que estivesse certo que ningum me podia ter
falado, excepto o meu papagaio, custou-me algum tanto a
sossegar. "Como" - dizia eu - "veio ele a este stio e no foi
a outro?" No podia contudo ser seno ele quem me tinha
falado; assim abandonei essas reflexes, e, chamando-o pelo
seu nome, a amvel ave veio pousar no meu dedo e dizia-me como
se estivesse satisfeita por me ver: "Pobre Robinson Cruso,
onde estiveste?" Levei-o depois para casa.
  Tinha corrido bastante no mar, e precisava de descansar e
reflectir sobre os perigos por que passara. Desejaria muito
ter o meu barco na baa que estava ao p de casa, mas no via
possibilidade disso.
  No queria arriscar-me mais a dar a volta  ilha, pelo lado
leste. O meu corao apertava-se-me a este nico pensamento, o
sangue gelava-se-me nas veias. No conhecia nada do outro lado
da ilha, mas tinha todas as razes para crer que a corrente de
que falei reinava a tanto como a leste, e que assim corria o
risco de ser apanhado por ela e levado para bem longe da minha
ilha. Passei, pois, sem o meu barco, e resolvi-me assim a
perder os frutos dum trabalho de muitos meses.
  Neste estado vivi mais de um ano, tranquilo e resignado: se
no fosse a minha solido, nada me faltaria para ser
perfeitamente feliz.


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                              XIX


                      AUMENTO DE RIQUEZAS


  Neste intervalo de tempo, aperfeioei-me nas artes mecnicas
s quais as minhas necessidades me obrigavam a dedicar-me, e
sobretudo conclu, visto a falta em que estava de muitas
ferramentas, que tinha aptides muito particulares para a
carpintaria.
  Tornei-me um excelente oleiro; inventara uma roda admirvel,
pela qual dei s minhas baixelas, que eram de uma estranha
grosseria, um feitio e uma forma muito cmodas. Achei tambm o
meio de fazer um cachimbo; esta inveno causou-me uma alegria
extraordinria, e, se ouso diz-lo, uma to grande vaidade que
nunca sentira outra igual em toda a minha vida.
  Apesar de ser grosseiro, da mesma cor e da mesma matria que
os meus outros utenslios de barro, dava sada ao fumo, e era
suficiente para me proporcionar o prazer de fumar. Tinha este
costume, no o perdi; mas, na crena de que no se encontrava
tabaco na minha ilha, no pensara em trazer comigo os
cachimbos que estavam no navio.
  Fiz tambm progressos considerveis na profisso de
cesteiro; achei meio de fabricar cestos que, embora mal
feitos, no deixavam de me ser teis. Eram fceis de levar,
quando ia buscar alguma coisa, e prprios de neles as guardar.
Se, por exemplo, matava uma cabra, pendurava-a numa rvore,
esfolava-a, cortava-a, acomodava-a e levava-a assim para casa.
Fazia o mesmo a respeito da tartaruga: estripava-a, pegava nos
ovos e nalguns pedaos de carne que levava para casa no meu
cesto deixando o intil.
  Grandes cestos serviram-me de celeiro para o meu trigo, que
a colocava logo que estava seco. A minha plvora comeava a
diminuir; se me faltasse, ser-me-ia impossvel fornecer-me


                                    115


dela de novo, o que me fez temer pelo futuro. Que faria eu sem
plvora? Como poderia matar cabras? Sustentava havia oito anos
uma cabrita que criara na esperana de apanhar outro animal da
mesma espcie; mas no pude apanh-lo seno quando a minha
cabrita envelheceu. No tive coragem de a matar; deixei-a
morrer de velhice.
  Mas estando no undcimo ano da minha residncia e achando-se
as minhas provises muito diminudas, comeava a pensar no
meio de apanhar cabras por manha. Desejava muito apanh-las
vivas, e que dessem leite. Fiz armadilhas e estou persuadido
de que houve algumas que caram nelas; mas como o fio era
muito fraco, escapavam-se facilmente. A verdade  que achei
sempre as minhas armadilhas escangalhadas e as iscas comidas;
no podia faz-las mais fortes, pois faltava-me arame.
  Tentei apanh-las por meio de um estratagema. Fiz muitas
covas nos stios onde costumavam pastar, cobri-as de caniadas
que carreguei com muita terra, semeando por a espigas de
arroz e de trigo. Mas o meu projecto no teve xito: as cabras
vinham comer as espigas, caam nas covas, e l conseguiam sair
delas. Tratei ento de armar uma noite trs laos: fui-os
visitar no dia seguinte pela manh, e vi que ainda estavam
armados, mas que as iscas tinham sido arrancadas. Outro
qualquer teria desanimado; mas eu, pelo contrrio, trabalhei
em aperfeioar os laos. Receando ma-lo mais tempo, meu caro
leitor, dir-lhe-ei que, indo uma manh visitar os meus laos,
achei num um velho bode de um tamanho extraordinrio, e no
outro trs cabras, um macho e duas fmeas.
  O velho bode estava to feroz que eu no sabia o que havia
de fazer. No me atrevia a entrar na gaiola para lev-lo vivo,
o que todavia desejava com muito ardor.
  Ser-me-ia fcil mat-lo, mas no me servia de nada isso.
Soltei-o pois e deixei-o em plena liberdade.
  No creio que se tenha visto animal algum fugir com mais
terror.
  No me veio ento ao esprito que, pela fome, podia apanhar
mesmo lees; porque de outro modo t-lo-ia deixado no lao, e
a, fazendo-o jejuar durante trs ou quatro dias, e
levando-lhe depois de beber e um pouco de trigo, t-lo-ia
amansado com a mesma facilidade que aos outros trs cabritos.
Estes animais so muito dceis para aquele que lhes d o que
lhes  necessrio.
  Quanto aos cabritos, tirei-os do lao um a um; e ligando-os
todos trs a um mesmo cordel, levei-os para casa, no sem
muita dificuldade.


                              116


  Passou-se algum tempo antes que quisessem comer; mas, enfim,
tentados pela boa isca que lhes dava, comearam a comer e a
domesticar-se. Esperei poder sustentar-me de carne de cabra
quando me faltassem plvora e chumbo. "Segundo todas as
aparncias" - disse comigo - "terei depois em torno da minha
habitao um rebanho de cabras  minha disposio". Veio-me 
ideia que devia encerrar os meus cabritos num certo espao de
terreno que cercaria de uma sebe muito espessa, a fim de que
no pudessem safar-se e que as cabras selvagens ainda menos
pudessem aproximar-se deles; porque receava que com essa
mistura os meus cabritos se tornassem selvagens.
  O projecto era vasto para um s homem; mas a execuo era de
uma necessidade absoluta. Procurei pois um pedao de terra
prpria para o pasto, onde houvesse gua para beber e sombra
para proteger dos calores extraordinrios do Sol. Os que sabem
como se faz esta espcie de recinto ter-me-o certamente, na
conta de um homem pouco inventivo quando souberem que arranjos
fiz depois de ter encontrado o lugar que desejava, isto , uma
plancie de pastagem atravessada por dois ou trs fios de
gua, e que de um lado era aberta e de outro ia ter a grandes
bosques; no podero, repito, deixar de rir-se da minha
previdncia quando lhes disser que, segundo o meu plano, devia
fazer uma sebe duma circunferncia de meia lgua pelo menos. O
ridculo deste plano no estava em que a sebe se achasse
desproporcionada ao seu recinto, mas porque, sendo o recinto
de grande extenso, as cabras poderiam tornar-se a to
selvagens como se Lhes tivesse dado a liberdade de correr pela
ilha e alm disso no conseguiria apanh-las.
  J tinha feito perto de quarenta toesas de sebe, quando isso
me veio  ideia. Mudei o plano do meu recinto, e resolvi que o
seu comprimento no excederia cento e vinte toesas, e a sua
largura pouco mais de cem. Este espao era bastante extenso
para que um rebanho medocre de cabras a pudesse viver; se o
rebanho se tornasse numeroso, ser-me-ia fcil alargar o
recinto. Como este projecto me parecia muito bem imaginado,
trabalhei nele com muito ardor; e durante todo este intervalo
fazia pastar as minhas cabras ao p de mim com peias nas
pernas por recear que se me escapassem. Dava-Lhes amide
espigas de cevada e alguns punhados de arroz.
  Vinham-me comer  mo, e, deste modo, sustentava-as to bem
que quando acabei o meu recinto e as livrei das peias,
seguiam-me por toda a parte balindo por alguns punhados de
cevada ou de arroz.


                              117


  No espao de ano e meio tive um rebanho de doze cabeas,
tanto bodes como cabras e cabritos; dois anos depois, tinha
quarenta e trs, apesar de ter morto muitas para meu uso.
Depois disto trabalhei em fazer cinco novos recintos embora
mais pequenos que o primeiro.
  Arranjei muitos parques pequenos para onde levar as cabras a
fim de as apanhar mais comodamente, e portas para que elas
pudessem passar de um recinto para o outro.
  S muito tarde pensei em aproveitar o leite das minhas
cabras. O primeiro pensamento que a esse respeito me veio
causou-me grande prazer. E, sem hesitar um s instante, fiz
uma queijaria.
  As minhas cabras davam-me s vezes oito ou dez canadas de
leite por dia: nunca mungira vaca ou cabra, nunca vira fazer
queijo ou manteiga; consegui contudo, depois de muitos ensaios
e tentativas infrutferas, fazer manteiga e queijo, e desde
ento tive ambos com abundncia.
  No h homem srio que deixasse de se rir ao ver-me jantar
com toda a minha famlia.
  Era o rei e senhor de toda a ilha; senhor absoluto de todos
os meus vassalos, tinha sobre eles direito de vida e de morte.
Podia enforc-los, esquartej-los, priv-los da sua liberdade
ou restituir-lha. No havia rebeldes nos meus Estados.
  Jantava como um rei,  vista de toda a minha corte: o
papagaio, como era o meu favorito era o nico que tinha
licena para me falar. O meu co, que ento se tornara velho e
triste, estava sempre sentado  minha direita. Os meus dois
gatos estavam um numa ponta da mesa, e o outro na outra,
esperando que por um favor especial lhes desse alguns pedaos
de carne.
  Estes dois gatos no eram os mesmos que trouxera comigo do
navio.
  J havia muito que esses tinham morrido, mas tinham tido
filhos; guardei dois desses filhos e eduquei-os; outros
fugiram para o bosque e tornaram-se selvagens.
  Desejava muito ter o meu barco, mas no podia resolver-me a
expor-me a novos perigos. Algumas vezes pensava no meio de o
conduzir bordejando, na minha baa; outras, consolava-me da
impossibilidade de o fazer. Mas um dia tive uma vontade to
violenta de ir  ponta da ilha onde j estivera e observar de
novo as costas subindo  pequena colina de que acima falei,
que no pude resistir a esse desejo.
  Pus-me pois a caminho.
  Se na provncia de York se encontrasse um homem vestido como
eu ento estava, seria motivo para toda a gente se espantar


                              118



ou rir a bandeiras despregadas. Faam ideia da minha figura,
pelo esboo que vou traar.
  Trazia um chapu de uma altura espantosa e feito de pele de
cabra; por trs pregara nele a metade de uma pele de bode que
me cobria todo o pescoo; era a fim de me preservar dos
ardores do Sol e com medo que a chuva entrasse no meu fato,
porque nestes climas nada  mais perigoso.
  Trazia uma espcie de vestido que me descia at abaixo dos
joelhos, feito como o meu chapu de pele de cabra; quanto s
calas, fora a pele de um bode que me fornecera o material.
  Oplo era de um comprimento to extraordinrio, que descia,
como as calas, at ao meio da perna.
  No tinha meias nem sapatos, mas fizera para as minhas
pernas um par de no sei qu mas que dava a ideia vaga de umas
botas: abotoava-as como se abotoam as polainas. Eram, assim
como todos os meus outros fatos, duma forma estranha e
brbara.
  Tinha um cinturo da mesma fazenda que o fato. Em lugar de
uma espada e de um sabre, trazia uma serra e um machado, este
de um lado e aquela do outro. Trazia outro cinturo, no to
largo, suspenso do pescoo, e na sua extremidade, que estava
por baixo do brao esquerdo, pendiam tambm duas algibeiras
feitas da mesma matria que o resto; numa metia a plvora e
noutra o chumbo. s costas levava um cesto, nos ombros uma
espingarda, e na cabea um chapu-de-sol grosseiramente
trabalhado, mas que, depois da minha espingarda, era aquilo de
que tinha mais necessidade.
  Quanto ao rosto, no estava to queimado que se pudesse
julg-lo de um homem que no tomava cuidado algum com ele, e
que no estava afastado do equador seno oito ou nove graus. A
minha barba, deixara-a crescer uma vez at ao comprimento de
dez polegadas; mas como tinha tesouras e navalhas, fazia-a
frequentemente, excepto aquela que me crescia no lbio
superior. Aprouve-me dar-lhe o feitio de um bigode  maometana
e tal como usavam os Turcos que eu vira em Sal, porque os
Mouros no a tm.
  No direi que os meus bigodes fossem to compridos que teria
podido pendurar neles o meu chapu, mas atrevo-me a afirmar
que eram to longos e to extravagantemente arranjados, que
teriam parecido terrveis em Inglaterra.
  Mas seja isto dito de passagem. Volto  narrao da minha
viagem: gastei nela cinco ou seis dias, caminhando primeiro ao
longo das costas, sempre direito para o lugar onde tivera
outrora o meu barco ancorado.


                                    119


Dali descobri facilmente a colina que me servira de
observatrio.
  Subi a ela, e qual no foi o meu espanto ao ver o mar calmo
e tranquilo! No vi qualquer movimento impetuoso, corrente
alguma. Torturei o esprito a fim de penetrar as razes dessa
mudana.
  Resolvi observar o mar durante algum tempo, porque
suspeitava que a furiosa corrente de que falei no tinha outra
causa seno o refluxo da mar. Este, partindo de oeste e
juntando-se ao curso de algum rio, era a causa da corrente que
me arrastara com tanta violncia.
  E, segundo os ventos de oeste e do norte eram mais ou menos
violentos, a corrente estendia-se at  ilha ou perdia-se a
menor distncia no mar. Fazia todas essas observaes antes do
meio-dia, mas as que fiz  tarde confirmaram-me na minha
opinio.
  Tornei a ver a corrente, do mesmo modo que a vira outrora,
com a diferena que no se dirigia directamente  minha ilha;
afastava-se meia lgua.
  De todas estas observaes, conclu que, notando o tempo do
fluxo e do refluxo, ser-me-ia facilimo levar o meu barco para
o p da minha casa. Mas a lembrana dos perigos passados
causava-me um terror to extraordinrio que no me atrevia a
realizar esse projecto. Quis antes formar outro plano, cuja
execuo era mais segura embora mais laboriosa: fazer outro
barco.
  Assim teria dois, um para esse lado da ilha e o outro para o
outro lado.
  Como se sabe tinha duas habitaes; uma era a minha barraca,
a minha pequena fortaleza, rodeada da sua caniada e cavada na
rocha: arranjei muitos quartos nela. No menos hmido e maior,
que tinha uma porta para sair fora da caniada, guardava os
grandes vasos de barro cuja descrio j acima fiz, e catorze
ou quinze cestos grandes, cada um de cinco ou seis alqueires.
Estes cestos serviam-me para recolher e guardar provises, e
particularmente as minhas sementes, umas ainda nas suas
espigas, e as outras nuas, que eu debulhara esfregando as
espigas entre as mos.
  As estacas da minha caniada tinham-se tornado grandes
rvores, e de tal modo frondosas, que era impossvel perceber
que encerravam no seu centro um lugar habitado. Junto, num
stio menos elevado, havia um campo onde semeava as minhas
sementes. E como o cultivava com o maior cuidado, tirava cada
ano uma abundante colheita. Se houvesse necessidade de ter
mais sementes, poderia aumentar esse campo sem muito trabalho.
  Alm desta habitao, tinha uma outra a que chamava a minha
fazenda ou a minha casa de campo.
  Tinha ali um belo bero de verdura, que conservava com muito
cuidado, desbastando a sebe que fechava a plantao, de
maneira que no excedesse a sua altura ordinria. As rvores
que na origem eram apenas estacas, mas com o tempo se tinham
tornado rvores muito elevadas e bem enraizadas, cultivei-as
de maneira a que pudessem estender os seus ramos, tornar-se
frondosas e dar uma sombra agradvel. No meio, tinha a minha
barraca; era uma pea duma vela bem estendida sobre varas.
  Debaixo desta barraca colocara eu um leito de descanso, uma
pequena cama feita da pele dos animais que matara, e outras
substncias moles. Uma coberta de cama salva do naufrgio e um
grosso casaco serviam para me cobrir. Era esta a casa de
campo para onde me retirava quando os negcios me no retinham
na capital.
  Ao lado, e nos arredores da minha casa, eram os pastos do
meu rebanho, isto , das minhas cabras; e como tivera grande
trabalho para dividir esses pastos em diversos recintos, era
tambm muito cuidadoso na conservao das sebes. Dirigi mesmo
para aqui o meu trabalho e os meus cuidados at plantar em
torno das minhas sebes pequenas estacas em grande nmero e
muito apertadas. Era mais uma caniada do que uma sebe. No se
podia l meter mo; e mais tarde, tendo estas estacas lanado
razes e crescido, o que sucedeu na primeira ocasio chuvosa,
tornaram as minhas sebes to fortes ou mais fortes mesmo que
as melhores muralhas.
  Todos estes trabalhos provavam bem que no era preguioso
nem me poupava a nada para arranjar de que viver com
abundncia. "O rebanho de cabras" - dizia comigo mesmo - "
para toda a vida, seja ela de quarenta anos, um vivo armazm
de carne, leite, manteiga e queijo. No devo, pois, descuidar
nada para no as perder". As minhas vinhas achavam-se tambm
ali prximo: nelas me abastecia de uvas para todo o Inverno.
  Tratava-as com os maiores cuidados. Eram os meus manjares
mais deliciosos, serviam-me de medicina, de alimento e de
refresco.
  Alm disso, este stio achava-se justamente a meio caminho
entre a minha fortaleza e a baa onde pusera o barco. Quando
ia visit-lo ficava ali uma noite. Tinha sempre grande cuidado
com o meu barco: sentia muito prazer em passear no mar, mas
tomava cautela para no me afastar muito da praia,


                                 120  121


nunca mais do que dois alcances de uma funda. Temia que o
vento, ou alguma corrente, ou um outro acaso me levasse para
muito longe daquela ilha.
  Mas eis-me insensivelmente chegado a um gnero de vida bem
diferente daquele que at aqui descrevi.


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                              XX


                              ENCONTRO ASSUSTADOR. PERIGO
                              - MEDIDAS DE PRECAUO


  Um dia, quando ia para o meu barco, descobri muito
distintamente na areia os sinais de um p nu.
  Nunca tive to grande terror; parei repentinamente, como se
tivesse sido fulminado por um raio ou visto alguma apario.
Pus os ouvidos  escuta, olhei em torno de mim, mas no vi nem
ouvi nada: subi a uma pequena eminncia para ver mais ao
longe; desci, e fui  praia, mas no descobri nada de novo,
nem algum outro vestgio de homem para alm daquele de que
acabo de falar. Voltei l na esperana de que o meu receio no
era talvez seno uma imaginao sem fundamento; mas vi outra
vez os mesmos sinais de um p nu, os artelhos, o calcanhar e
todos os outros indcios dum p de homem.
  No sabia que conjecturar: fugi para a minha fortificao,
todo perturbado, olhando para trs quase a cada passo e
tomando por homens todas as moitas que encontrava. No 
possvel descrever as diversas figuras que uma imaginao
assustada acha em todos os objectos. Quantas ideias loucas e
pensamentos extravagantes me no vieram ao esprito, enquanto
fugia para a fortaleza.
  Assim que l cheguei, deitei-me logo como um homem que 
perseguido; no posso mesmo lembrar-me se entrei em casa pela
escada ou pelo buraco aberto na rocha, a que eu chamava porta.
  Estava muito assustado para isso me ficar na cabea. Nunca
coelho algum nem raposa se refugiou na sua toca com mais
terror do que eu no meu castelo.
  No pude dormir toda a noite:  medida que me afastava da
causa do meu terror, os meus receios aumentavam, ao contrrio
do que normalmente acontece. As minhas ideias assustadoras


                              123


perturbavam-me de tal modo que, embora muito afastado do stio
onde tivera esse alarme, a minha imaginao no me
representava nada que no fosse triste e terrvel. Que seres
tinham deixado o sinal que acabava de descobrir? No podiam,
decerto, deixar de ser selvagens do continente que, tendo-se
metido ao mar com as suas canoas, tinham sido levados at 
ilha pelos ventos contrrios ou pelas correntes, e tinham tido
to pouca vontade de ficar nessa praia deserta como eu de os
ver a.
  Enquanto estas reflexes rolavam no meu esprito, dava eu
graas ao Cu por no estar nessa ocasio naquele stio da
ilha e o meu barco ter escapado aos olhos deles, porque, se o
tivessem visto, concluiriam certamente que a ilha era
habitada, o que poderia lev-los a procurar-me e descobrir-me.
  Em certos momentos imaginei que o meu barco fora encontrado,
e esse pensamento agitava-me do modo mais cruel; temia v-los
voltar em maior nmero, e receava que ainda que pudesse
esquivar-me  sua barbaria, eles encontrassem o meu recinto,
destrussem o meu rebanho e me reduzissem assim a morrer de
fome.
  Nesta situao, tinha a censurar-me o ter tido a preguia de
no semear seno o gro que era necessrio at  nova estao,
e achei esta censura to justa, que tomei a resoluo de me
fornecer sempre para dois ou trs anos, a fim de no estar
exposto a morrer de fome, se se desse comigo algum acidente.
  De quantas fontes secretas no fazem as diferentes
circunstncias sair as nossas paixes? Odiamos hoje o que
ontem amvamos; desejamos um objecto com ardor, e momentos
depois j nem nos lembramos dele. Era eu ento um triste e
notvel exemplo dessa verdade.
  Dantes, afligia-me mortalmente o ver-me rodeado pelo vasto
oceano, condenado  solido, banido da sociedade humana:
tinha-me na conta de um homem que o Cu achava indigno de
estar no nmero dos vivos, e de ocupar o menor lugar entre as
criaturas; s a vista de um homem me pareceria uma espcie de
ressurreio e a maior graa, depois da minha salvao, que
poderia obter da bondade divina. Agora, tremo s com a ideia
de um ser da minha espcie; a sombra de uma criatura humana,
um s dos seus vestgios causa-me os terrores mais mortais.
  Uma manh, estando no meu leito, inquieto por mil
pensamentos referentes ao perigo que tinha a recear dos
selvagens, no acabrunhamento mais triste, quando de repente me
veio ao esprito esta passagem das Santas Escrituras:
"Invoca-me no dia da desgraa, e Eu te livrarei e tu Me
glorificars".


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  Levantei-me, no s cheio de nova coragem, mas ainda
decidido a pedir a Deus a minha salvao pelas oraes mais
fervorosas; quando as acabei, peguei na Bblia e, abrindo-a,
as primeiras palavras que me saltaram aos olhos foram estas:
  "Pensa no Senhor, e tem bastante coragem que Ele te
fortificar o corao". A consolao que tive com isso foi
inexprimvel: encheu a minha alma de reconhecimento pela
Divindade e dissipou absolutamente os meus terrores.
  No meio deste fluxo e refluxo de pensamentos e inquietaes,
veio-me um dia  ideia que o motivo do meu receio no passava
talvez de uma quimera, e que o vestgio que eu notara podia
muito bem ser o vestgio do meu prprio p.
  "Saindo do meu barco talvez tivesse tomado o mesmo caminho
que ao entrar" - disse eu. - "Os meus prprios vestgios
assustaram-me, fiz o papel desses doidos que contam histrias
de espectros e aparies, e em seguida esto mais assustados
com as suas fbulas que aqueles que as ouvem". Retomei coragem
e sa do meu retiro para retomar a vida normalmente, pois
havia trs dias e outras tantas noites que no saa e comeava
a sofrer fome, pois apenas tinha em casa biscoito e gua;
lembrei-me ento que as minhas cabras tinham necessidade que
lhes tirassem o leite, o que costumava ser o meu divertimento
da tarde.
  Tinha razo em preocupar-me: os pobres animais tinham
sofrido muito, muitos estavam doentes, e o leite da maior
parte estava seco.
  Animando-me pois com o pensamento de que tivera medo apenas
da minha sombra, fui  minha casa de campo para mungir o meu
rebanho; mas tomar-me-iam por um homem agitado e perseguido
pela conscincia, ao ver com que receio caminhava, quantas
vezes olhava para trs, a maneira como, de quando em quando,
pousava o cntaro de leite e corria com tanta ligeireza como
se se tratasse de salvar a vida.
  Contudo, tendo estado assim dois ou trs dias, tornei-me
mais atrevido, e conformei-me no sentimento de que fora
enganado pela minha imaginao. No podia estar plenamente
convencido disso antes de ir medir o vestgio que me dera
tanta inquietao no local onde o encontrara.
  Logo que me achei no stio em questo, vi claramente que no
era possvel que eu tivesse sado do meu barco naquela zona;
alm disso vi que era muito maior que o meu p, o que encheu o
meu corao de novas agitaes.


                              125


 Um calafrio percorreu-me o corpo como se tivesse febre, e
voltei para casa persuadido de que tinham desembarcado homens
nessa praia, ou que a ilha era habitada e corria risco de ser
atacado de surpresa, sem saber como me precaver.
  Em que extravagantes precaues os homens se lanam quando
esto agitados pelo temor! Esta paixo desvia-os de se
servirem dos meios que a prpria razo lhes oferece para os
socorrer. Propus-me, primeiro, deitar abaixo o meu recinto,
fazer voltar para os bosques o meu rebanho domesticado, e ir
procurar noutra parte da ilha recursos semelhantes aos que
queria sacrificar  minha segurana. Resolvi ainda derrubar a
minha casa de campo e a minha cabana e revolver as minhas duas
terras semeadas de trigo, a fim de tirar aos selvagens at a
mais pequena suspeita capaz de os animar  descoberta dos
habitantes da ilha.
  Era esse o assunto das minhas reflexes durante a noite
seguinte, quando os terrores que se apoderaram da minha alma
estavam ainda em toda a sua fora.
   assim que o medo do perigo  mil vezes mais assustador que
o prprio perigo, quando o consideramos de perto;  assim que
a inquietao que causa um mal afastado  muitas vezes mais
insuportvel do que o prprio mal.
  Este caos de pensamentos manteve-me acordado toda a noite;
mas adormeci quando era quase dia; a fadiga da minha alma e o
esgotamento do meu esprito, deram-me um sono muito profundo.
Quando acordei, achei-me muito mais sossegado, e comecei a
raciocinar com calma sobre o meu estado. Depois de um
falatrio comigo mesmo, conclu que uma ilha to agradvel,
to frtil, to prxima do continente no devia ser deserta
como eu a julgara; que na verdade no havia habitantes fixos,
mas segundo parecia algumas vezes aportavam l embarcaes,
fosse voluntariamente, ou quando levadas pela fora dos ventos
contrrios.
  Da experincia de quinze anos, durante os quais sempre
vivera sem descobrir a sombra de uma criatura humana, julgava
poder inferir que se de quando em quando a gente do continente
era forada a desembarcar na minha ilha, tornavam a embarcar
logo que podiam, uma vez que at aqui no tinham achado
conveniente estabelecer-se a.
  Vi perfeitamente tudo o que tinha a recear - era contra
esses desembarques acidentais que a prudncia queria que eu
procurasse uma retirada segura. Comecei ento a arrepender-me
de ter furado a minha caverna e de lhe ter dado uma sada no
stio onde a minha fortificao chegava ao rochedo. Para
remediar esse inconveniente, resolvi fazer uma segunda, tambm
em semicrculo, a alguma distncia da muralha, no mesmo lugar
onde doze anos antes plantara uma fileira de rvores.
  Pusera-as to cerradas que me no era preciso mais do que
uma pequena paliada entre ambas para fazer dela uma
fortificao suficiente.
  Achava-me assim defendido por duas trincheiras: a de fora
fortificada com peas de madeira, velhos cabos e tudo o que
julgara prprio para a reforar, e tornei-a da espessura de
mais de dez ps com terra que depois calquei.
  Fiz cinco aberturas bastante largas para a passar o brao,
e meti nelas os cinco mosquetes que tirara do navio, como j
disse, como canhes sobre carretas, de tal maneira que podia
fazer fogo com toda a minha artilharia em dois minutos;
fatiguei-me durante muitos meses a aperfeioar esse
entrincheiramento, e no descansei enquanto no o vi pronto.
  Acabada a obra, enchi um grande espao de terra, fora da
trincheira, com rebentos parecidos com vime, bons para ganhar
firmeza e crescer em pouco tempo. Creio que enterrei na terra,
num s ano, mais de vinte mil, de modo que deixava um vazio
bastante grande entre esses bosques e a minha muralha, de
maneira a poder descobrir o inimigo e no ser eu vtima de
emboscadas suas no meio dessas rvores novas.
  Dois anos depois formavam j um bosquezito espesso; e, ao
fim de seis anos tinha diante da minha habitao uma floresta
de espessura tal e to grande fora que era absolutamente
impenetrvel, e ningum teria imaginado que escondesse a
habitao de uma criatura humana.
  Como eu no deixara avenida para o meu palcio, servia-me de
duas escadas para entrar e sair; com a primeira subia at um
stio da rocha onde havia lugar para apoiar a segunda, e
depois de retirar ambas no seria possvel a ningum chegar-se
a mim sem correr os maiores perigos.
  Alm disso se algum conseguisse ter felicidade bastante
para descer da rocha, encontrar-se-ia ainda para l da minha
paliada exterior.
  Foi assim que tomei para minha conservao todas as medidas
que a prudncia humana podia sugerir-me, e vero em breve que
essas precaues no eram absolutamente inteis, apesar de
serem ento inspiradas por um vago receio.
  Durante estas ocupaes, no deixava de olhar pelos meus
outros negcios; interessava-me sobretudo pelo meu pequeno
rebanho de cabras, que comeavam a ser de grande recurso, no
presente, e a dar-me esperanas de poder economizar o meu


                           126  127


chumbo, a minha plvora e as minhas fadigas.
  Depois de deliberao amadurecida apenas achei dois meios de
as abrigar de todo o perigo. O primeiro era abrir uma outra
caverna debaixo da terra e faz-las entrar para a todas as
noites; e o segundo, fazer outros dois ou trs pequenos
recintos, afastados uns dos outros e to escondidos quanto
possvel onde pudesse encerrar meia-dzia de cabras novas, que
me permitissem refazer todo o rebanho em pouco tempo e pouco
trabalho caso acontecesse algum desastre ao rebanho em geral.
  Para realizar esse desgnio, pus-me a percorrer todos os
recantos da ilha, e logo encontrei um stio to abrigado como
desejava.
  Era uma grande clareira cercada de espesso bosque, onde,
como j disse, estivera um dia a ponto de me perder quando
voltava da parte oriental da ilha; oferecia uma espcie de
parque com o qual a Natureza fizera quase todo o trabalho pelo
que no me exigia esforos to rudes como os que eu empregara
nos meus outros recintos.
  Meti logo mos  obra e em menos de um ms ajudara to bem a
Natureza, que as minhas cabras, j sofrivelmente domesticadas,
podiam ficar em segurana.
  Todo esse trabalho provocado por um simples vestgio de um
homem... Vivi no constante e natural acabrunhamento de algum
que espera cada dia ser feito em pedaos e comido antes do fim
da noite.
  Depois de assim ter posto em segurana parte da minha
proviso viva, percorri de novo a ilha  procura de um local
prprio para receber igual depsito. Um dia, avanando eu para
a ponta ocidental, para stios onde nunca chegara, julguei
avistar de um ponto alto onde estava uma chalupa no mar;
encontrara alguns culos num dos bas que salvara do navio,
mas infelizmente no os tinha comigo ento e no pude
distinguir o objecto em questo, apesar de ter cansado os
olhos com o esforo. Fiquei na incerteza se era uma chalupa ou
no, e isso fez-me tomar a resoluo de nunca mais sair sem um
dos meus culos.
  Ao descer da colina, vendo-me num stio onde nunca estivera,
fiquei plenamente convencido que vestgios de homens no eram
coisa rara na ilha, e se uma Providncia particular me no
tivesse lanado para o lado onde os selvagens nunca vinham,
teria sabido que era muito frequente que os barcos do
continente procurassem uma enseada nessa ilha, quando por
acaso se achavam muito embrenhados no mar alto. Saberia mais
que, depois de algum combate entre os barcos de diferentes
povoaes, os vencedores conduziam os seus prisioneiros 
minha praia, para os  matarem e comerem como verdadeiros
canibais que eram.
  O que me instruiu do que acabo de dizer foi um espectculo
que se ofereceu aos meus olhos na praia do lado do sudoeste,
espectculo que me encheu de espanto e de terror: descobri a
terra semeada de crnios, mos, ps e outras ossadas humanas;
notei que ali perto estavam os restos de uma fogueira, e um
banco cavado na terra, em forma de crculo, onde certamente
esses abominveis selvagens se tinham colocado para fazer o
seu espantoso festim.
  Este espectculo cruel suspendeu por algum tempo a ideia dos
meus prprios perigos: todas as minhas apreenses eram
abafadas pelas impresses que me dava essa brutalidade
infernal.
  Ouvira falar disso muitas vezes, e contudo a vista no me
chocou menos do que se a coisa nunca me tivesse entrado na
imaginao: desviei os olhos desses horrores, senti cruis
pensamentos, e perderia os sentidos se a natureza no me
tivesse aliviado com um vmito muito violento; quando voltei a
mim no me pude resolver a ficar nesse lugar e voltei para
casa.
  Quando me afastei desse horrvel lugar, parei de repente,
como um homem fulminado pelo raio; voltando a mim, levantei os
olhos ao cu e, com o corao enternecido, os olhos cheios de
lgrimas, dei graas a Deus por ter feito que eu nascesse numa
parte do Mundo estranha a tais abominaes.
  Com a alma cheia desses sentimentos, voltei para casa mais
sossegado que nunca, porque me parecia certo que esses
miserveis nunca desembarcavam na ilha com o desgnio de nela
fazer algum saque, no esperando a encontrar grande coisa, o
que talvez lhes tivesse sido confirmado pelas incurses que
podiam ter feito nas florestas.
  Passara j dezoito anos sem encontrar ningum, e podia
esperar passar outros tantos com a mesma felicidade desde que
no denunciasse a minha presena, o que no era de modo algum
a minha teno, a no ser que aparecesse ocasio de travar
conhecimento com uma espcie de homens melhor que canibais.
  Contudo, o horror que me ficou do seu brutal costume
lanou-me numa espcie de melancolia que me teve durante dois
anos encerrado nos meus prprios domnios, ou seja, o meu
palcio, a minha casa de campo e o meu novo recinto nos
bosques; no ia a este ltimo lugar, que era a residncia das
minhas cabras seno quando absolutamente necessrio.
  Tambm no me preocupava muito com o estado do meu barco,
resolvi antes construir um outro, porque dar a volta  ilha
com o antigo, a fim de o aproximar da minha habitao era


                                 128  129


arriscar-me a encontrar no meio do mar esses abominveis
selvagens e cair-lhes nas mos.
  Enfim, o tempo e a certeza em que estava de que no corria
risco algum de ser descoberto devolveram-me pouco a pouco ao
meu modo de viver normal embora sempre mais atento do que
antes, e j no disparava a minha espingarda com medo de
excitar a curiosidade dos selvagens, se por acaso se achassem
na ilha.
  Era pois, uma grande felicidade para mim poder dispor de um
rebanho de cabras domesticadas e no ser obrigado a ir  caa
das selvagens.
  Se apanhava algumas de vez em quando, era por meio de redes
e armadilhas. Nunca saa, contudo, sem a minha espingarda e
como salvara trs pistolas do navio, tinha sempre duas, pelo
menos, que trazia ao cinto.
  Trazia ainda comigo uma das grandes facas que afiara.
Imagina-se facilmente que nas minhas sadas tinha ares
temveis, se acrescentarem  descrio que fiz da minha figura
as duas pistolas e esse grande sabre que me pendia ao lado,
sem bainha.
  Desde ento, considerando a minha condio tranquilamente,
comecei a ach-la suportvel.
  Ainda que poucas coisas me faltassem, notei contudo com
tristeza que os terrores e os cuidados que tivera com a minha
conservao tinham esmagado a minha subtileza na procura de
coisas que me podiam ser teis; estes receios tinham-me feito
desprezar, entre outras, uma feliz ideia que me ocupara
outrora: secar uma parte do meu gro e torn-lo prprio para
fazer cerveja.
  Este projecto parecia-me extravagante devido a tudo o que me
faltava para chegar ao meu fim: no possua tonis para
conservar a minha cerveja, e desperdiara muitos meses de
trabalho a tentar construir um, sem resultado; de mais a mais,
no tinha lpulo para a tornar susceptvel de se conservar,
nem levedura para a fazer fermentar, nem caldeiro para a
fazer ferver.
  Apesar de todos estes inconvenientes, estou persuadido de
que sem as apreenses que os selvagens me tinham provocado
teria empreendido essa fabricao e talvez com sucesso, pois
raras vezes abandonava um projecto uma vez que me entrava na
cabea e punha as mos nele.


                              130



                              XXI


                              AGITAO DE ESPRITO
                              - PROJECTOS HOMICIDAS


  Mas agora o meu esprito inventivo voltara-se todo para
outro lado, e pensava noite e dia no meio de destruir alguns
desses monstros no meio dos seus divertimentos sanguinrios, e
de salvar as suas vtimas, se fosse possvel: encheria um
volume mais grosso que este com os pensamentos que rolavam na
minha imaginao sobre o meio de exterminar um bando de
selvagens, ou pelo menos dar-lhes um alarme bastante quente
para os desviar de voltarem a pr os ps na ilha.
  Mas tudo isso no tinha resultado algum: o meu nico recurso
estava em mim mesmo; e que podia fazer um homem s no meio de
uns trinta armados de setas, de dardos e de frechas, cujos
tiros eram to certeiros como os das nossas armas de fogo?
  s vezes, pensava em escavar uma galeria debaixo do stio
onde eles faziam as suas fogueiras e colocar nela cinco ou
seis libras de plvora que, inflamando-se logo que o calor a
penetrasse, faria ir pelos ares tudo o que se achasse nos
arredores. Mas aborrecia-me perder de uma s vez tanta plvora
da minha proviso, que consistia apenas num barril; alm disso
no podia ter certeza alguma do bom resultado da minha
galeria, que talvez no fizesse mais do que ensurdecer-lhes os
ouvidos, sem Lhes causar bastante terror para os obrigar a
abandonar a ilha para sempre.
  Renunciei pois a essa empresa; resolvi fazer uma emboscada
num lugar conveniente, e com as minhas trs espingardas atirar
sobre eles no meio da sua cerimnia sanguinria, certo de
matar ou pelo menos ferir dois ou trs com cada tiro e de
conseguir facilmente ver-me livre do resto, ainda que fossem
uns vinte, caindo sobre eles com as minhas trs pistolas e o
meu sabre.


                              131


  Gastei muitos dias  procura de um stio favorvel para a
minha emboscada e at desci frequentemente ao lugar dos
festins, com o qual comecei a familiarizar-me, sobretudo no
tempo em que o meu esprito estava cheio de ideias de vingana
e carnificina, porque os sinais de barbaridade desses cruis
antropfagos no faziam seno animar-me cada vez mais na
execuo do meu desgnio.
  Finalmente encontrei num dos lados da colina um lugar cmodo
onde podia esperar com segurana a chegada dos seus barcos, e
do qual, enquanto desembarcassem, podia escapar-me para a
parte mais espessa do bosque; descobrira l uma rvore oca,
suficientemente oca para poder esconder-me dentro; dali podia
espiar todos os seus movimentos, e apontar sobre eles quando
se achassem de tal maneira prximos uns dos outros em torno do
seu terrvel festim que seria quase impossvel no pr trs ou
quatro fora de combate s com o primeiro tiro.
  Resolvido a executar a minha empresa, preparei dois
mosquetes e a minha espingarda de caa; carreguei cada
mosquete com ferragem e quatro ou cinco balas de pistola e a
espingarda com um punhado do meu chumbo mais grado; meti
tambm quatro balas em cada pistola, e nesta posio,
fornecido de munies para segunda e terceira descarga,
preparei-me para o combate.
  Com esta resoluo, no deixei de estar todas as manhs no
alto da colina, afastado do meu palcio pouco mais de uma
lgua; mas durante mais de dois meses em que estive de
sentinela no fiz a menor descoberta, no vi a menor barca,
tanto junto  margem como em todo o oceano, pelo menos na rea
que a minha vista podia alcanar com o auxlio dum culo.
  Durante todo esse tempo, o meu projecto subsistia em todo o
seu vigor, e continuei a ter a disposio de esprito
necessria para arcabuzar uns trinta desses selvagens para os
castigar por um crime no qual s estava interessado devido ao
calor de um zelo deslocado. No me vinha  ideia que esses
pobres homens no tinham outro guia para o seu proceder seno
as suas paixes corrompidas, e que uma tradio desgraada os
familiarizava com um costume horrvel.
  Finalmente, a fadiga de tentar tanto tempo, em vo, a mesma
empresa, fez-me raciocinar com exactido sobre a aco que ia
cometer: "Que autoridade", disse comigo, "que vocao tenho eu
para me fazer juiz e carrasco desses miserveis selvagens? Que
direito tenho eu de vingar no seu sangue o sangue que eles
derramam? Estes homens nunca me fizeram mal pessoalmente, e o
que eu penso empreender, s poderia ser desculpado pela


                                    132


necessidade em que pudesse achar-me para eu prprio me
defender contra os seus ataques".
  Estas consideraes sossegaram o meu furor, e pouco a pouco
renunciei s medidas que tomara, reconhecendo que eram
injustas e que no me seria permitido execut-las a no ser
que os selvagens comeassem as hostilidades contra mim. :
Tomei esta resoluo de bom grado, ainda mais que a primeira
que longe de ser um meio de me conservar, tendia absolutamente
para a minha runa, pois bastava que um s selvagem de todo o
bando pudesse escapar-me das mos para comunicar a minha
existncia a um povo inteiro e anim-lo a vir vingar a morte
dos seus compatriotas.
  Conclu que no devia meter-me nas aces dos selvagens mas
sim manter-me afastado e no deixar que suspeitassem da
existncia de um homem na ilha.
  Esta prudncia era sustentada pela religio que me proibia
de molhar as mos em sangue inocente; digo inocente em relao
a mim porque para os crimes que o costume tornara comuns a
todos esses povos, devia abandon-los  justia de Deus.
  Fiquei nesta disposio durante um ano inteiro, sem procurar
meio de os atacar; no me dignei subir uma s vez  colina
para examinar se tinham desembarcado ou no, receando sempre
ser tentado por alguma ocasio que renovasse os meus desgnios
contra eles. Afastei o meu barco e conduzi-o para o lado
oriental da ilha, onde o coloquei numa cavidade que encontrei
debaixo de rochedos elevados e as correntes tornavam
inabordvel s canoas dos selvagens.
  Vivi desde ento mais retirado do que nunca, no saindo
seno para me desempenhar dos meus deveres ordinrios: mungir
as cabras, sustentar o pequeno rebanho que eu escondera no
bosque, rebanho este que se achava inteiramente abrigado
porque, os canibais no pareciam estar de humor a abandonar a
praia; e tinham estado nela muitas vezes, muito tempo antes de
eu ter tomado todas as precaues que depois tomei. Quando
pensava nisso, reflectia com horror sobre a situao em que
estaria se os tivesse encontrado outrora, quando nu e
desarmado apenas tinha para minha defesa uma espingarda
carregada com chumbo mido.
  Nesse tempo percorria incessantemente toda a minha ilha, e
qual teria sido o meu terror se, em vez de um s vestgio,
tivesse achado uns vinte selvagens, que no teriam deixado de
me dar caa e de me alcanar bem depressa pela ligeireza
extraordinria com que correm!


                              133


  Estremecia ao pensar que nessa ocasio no tinha recurso.
  As inquietaes e os perigos nos quais passava a vida
desviavam-me inteiramente do cuidado de procurar o que pudesse
tornar-me a existncia mais suave; pensava mais em viver do
que em viver agradavelmente. No cuidava j em pregar um
prego, enterrar um pedao de madeira, com receio de fazer
rudo; muito menos nimo tinha para disparar um tiro, e era
com toda a inquietao possvel que me aventurava a acender
lume, cujo fumo visvel a grande distncia, poderia trair-me
facilmente.
  Por esta razo, transportei as coisas que requeriam o
emprego do fogo para o lado do meu quarto no bosque, onde
encontrei enfim, depois de muitas idas e vindas e com toda a
satisfao imaginvel uma gruta natural de grande extenso
que, estou certo, nunca nenhum selvagem vira, e muito menos se
atrevera a entrar nela; poucos homens ousariam aventurar-se a
faz-lo, a no ser que tivessem como eu uma necessidade
extrema dum retiro seguro.
  A entrada dessa caverna era por trs de um grande rochedo, e
descobri-a por acaso - ou melhor, por um efeito particular da
Providncia -, cortando alguns ramos grossos de rvore para
queimar e conservar o carvo, meio de que me prevenira para
evitar fazer fumo cozendo o meu po e preparando os meus
outros manjares.
  Logo que encontrei essa abertura, por trs de alguns tojos
espessos, a minha curiosidade levou-me a entrar nela, no sem
dificuldade. Achei o interior suficientemente grande para nele
estar de p, mas confesso que sa de l com mais precipitao
do que entrara quando, olhando mais longe nesse antro obscuro,
descobri dois grandes olhos, brilhantes como duas estrelas.
  No fim de alguns momentos retomei coragem e, pegando num
tio inflamado, tornei a entrar no antro, duma maneira
brusca; mas mal dera trs passos para a frente, ouvi um grande
suspiro seguido por um som semelhante a palavras mal
articuladas e novo suspiro ainda mais terrvel. O meu terror
redobrou. Um suor frio cobriu-me o corpo todo e, se tivesse
ento chapu na cabea creio que os meus cabelos o deitariam
no cho  fora de se porem em p. Fiz contudo todos os
esforos para dissipar o meu receio e, avanando com
intrepidez, descobri um velho bode de tamanho extraordinrio,
cado por terra e prestes a morrer de velhice.
  Empurrei-o um pouco para ver se o podia fazer sair dali, e
ele fez alguns esforos sem resultado para se levantar.


                                    134


Isso era-me indiferente, pois afinal, enquanto ele estivesse
vivo causaria o mesmo medo a algum selvagem que fosse
suficientemente intrpido para penetrar neste antro.  Ento,
plenamente tranquilizado, dirigi os olhos para todos os lados
e vi como a caverna era bastante estreita e sem figura
regular, pois a Natureza trabalhara a sem ajuda alguma do
engenho humano. Descobri uma segunda abertura, mas to baixa
que era impossvel entrar nela de outro modo que no fosse de
rastos, pelo que resolvi adiar at que pudesse tentar a
aventura, munido de candeia e de uma espingarda pronta para
fazer fogo.
  Voltei a no dia seguinte com uma proviso de seis grossas
velas que eu fizera com gordura de cabra, e depois de ter
serpeado por essa abertura estreita ao longo de dez metros,
encontrei-me muito mais  vontade.
  Achei-me debaixo de uma abbada, da altura pouco mais ou
menos de vinte ps, e posso assegurar que em toda a ilha no
havia nada to belo e to digno de ser visitado como esse
subterrneo; a luz das duas velas que eu acendera era
reflectida de mais de cem mil maneiras pelas paredes da gruta.
No sei dizer o que lhes dava esse brilho; seriam diamantes,
outras pedras preciosas, oiro? Esta ltima hiptese parece-me
a mais verosmel.
  Numa palavra, era a mais bela gruta que se pode imaginar,
ainda que completamente obscura; o fundo era liso e seco,
coberto por uma areia finssima; no se via qualquer vestgio
de animais venenosos, nenhum vapor se fazia a sentir,
humidade alguma se manifestava nas muralhas.
  Mesmo o seu nico defeito, a dificuldade de entrada, fazia
simultaneamente a sua segurana. Estava encantado com a minha
descoberta, e resolvi logo levar para essa gruta tudo aquilo
cuja conservao me inquietava mais, sobretudo as minhas
munies e as minhas armas de reserva.
  Este desgnio deu-me ocasio de abrir o meu barril de
plvora que salvara do mar. Vi que a gua a penetrara por
todos os lados, a trs ou quatro polegadas de profundidade, e
que a plvora molhada formara uma espcie de crosta que
conservara o resto, como uma noz  conservada na sua casca;
desta maneira restava-me no centro do barril perto de sessenta
libras de boa plvora, que levei para a minha gruta com todo o
chumbo que ainda tinha, e s deixei no meu palcio a
necessria para me defender em caso de surpresa.
  Nesta situao, comparava-me aos gigantes da Antiguidade que
habitavam antros inacessveis, e estava bem persuadido de que,
quando os selvagens me dessem caa, fosse em que nmero fosse,


                              135


no me atingiriam, ou pelo menos no ousariam atacar-me  viva
fora na minha nova gruta.
  O velho bode morreu  entrada da gruta no dia seguinte  sua
descoberta; achei mais conveniente enterr-lo nesse stio do
que esforar-me por arrastar o cadver para fora.
  Estava ento no vigsimo terceiro ano de residncia nessa
ilha, e to acostumado ao meu modo de a viver que, sem receio
dos selvagens, ficaria satisfeito se passasse a o resto dos
meus dias. Arranjara mesmo com que me divertir e entreter,
coisa que me faltara outrora: ensinara a falar o meu papagaio,
como j disse, e ele habituara-se to bem, que a conversa com
ele foi um grande gosto para mim durante os vinte e seis anos
que vivemos juntos. Diz-se no Brasil, que estes animais vivem
um sculo inteiro: o meu papagaio talvez ainda viva, chamando
ainda segundo o seu costume, "o pobre Robinson Cruso".
  O meu co foi-me ainda um companheiro agradvel e fiel
durante dezasseis anos, at que morreu de pura velhice. Quanto
aos meus gatos, s guardara dois ou trs favoritos, cujos
filhos eu tinha o cuidado de afogar logo que vinham ao mundo.
Tinha tambm dois cabritos que acostumara a comer da minha
mo, e outros dois papagaios que palravam suficientemente bem
para pronunciar Robinson Cruso, embora longe da perfeio do
outro, com o qual tambm tivera muito trabalho.
  Possua ainda umas aves martimas, cujos nomes ignorava;
apanhara-as na praia, e cortara-lhes as asas; habitavam e
punham os ovos no bosque que eu plantara diante do
entrincheiramento do meu palcio e contribuam muito para o
meu divertimento. Estava contente, repito; desde que os
selvagens no viessem perturbar a minha tranquilidade.
  Mas o Cu destinara de outro modo, e aconselho todos aqueles
que lerem a minha histria a tirar a seguinte reflexo:
quantas vezes no acontece, no curso da nossa vida, que o mal
que evitamos com o maior cuidado e nos parece o mais terrvel
se torna, quando camos nele, a porta da nossa libertao, por
assim dizer, e o nico meio de acabar com as nossas desgraas!
Esta verdade foi notvel sobretudo nos ltimos quatro anos da
minha vida solitria, como o leitor ver dentro em pouco.


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                              XXII


                              Apario de selvagens.
                              - NAUFRGIO DE UM NAVIO ESPANHOL


  Foi no ms de Dezembro, tempo ordinrio da minha colheita,
que me obrigava a passar os dias quase inteiros no campo; um
dia, saindo eu, um pouco antes de nascer do Sol, fiquei
surpreendido ao ver uma luz na praia, a cerca de meia lgua de
distncia. No estava do lado onde eu observava que os
selvagens costumavam chegar; com a dor mais viva o vi: era do
lado da minha habitao.
  O medo de ser surpreendido fez-me entrar bem depressa na
gruta, onde me julgava em segurana, porque a vista da minha
sementeira meia cortada podia mostrar aos selvagens que a ilha
era habitada e lev-los a procurar-me por toda a parte at me
desencantar.
  Nesta apreenso, voltei para casa e, tendo retirado a
escada, preparei-me para a defesa; carreguei todas as armas,
resolvido a bater-me at ao ltimo alento, sem me esquecer de
implorar a proteco divina; e nesta atitude esperei o inimigo
durante duas horas, muito impaciente por querer saber o que se
passava l fora. Mas no tendo ningum para mandar em
explorao e incapaz de sustentar mais tempo to cruel
incerteza, aventurei-me a subir ao alto do rochedo pelas duas
escadas, e deitei-me l, de barriga para o cho; servi-me do
meu culo para conhecer o estado das coisas. Vi primeiro nove
selvagens sentados em roda de uma pequena fogueira, no para
se aquecerem, estava calor demais para isso, mas aparentemente
para preparar alguns manjares de carne humana, destinados aos
seus horrorosos festins.
  Tinham consigo duas canoas que estavam a seco na praia; e
como eram horas da mar encher pareciam esperar a baixa-mar
para se irem embora, o que acalmou a minha inquietao:


                              137


Com efeito conclu da que eles vinham e iam-se sempre do
mesmo modo, e que eu podia percorrer o campo sem perigo
durante a preia-mar, observao que me fez continuar a minha
colheita com bastante tranquilidade.
  A coisa sucedeu exactamente como eu conjecturara; logo que a
mar comeou a vasar, vi-os meter-se nos barcos e partir 
fora de remos; o que todavia no fizeram seno depois de se
terem divertido por algum tempo com danas, como o notei pelas
suas posturas e pelos seus gestos; pareceu-me que estavam
absolutamente nus. Logo que os vi embarcados, sa com duas
espingardas aos ombros, duas pistolas no cinto e a minha
grande espada ao lado e, com toda a pressa, subi  colina de
onde vira pela primeira vez os sinais dos festins horrveis
desses canibais; e ali descobri mais trs barcos que estavam
tambm no mar para se dirigir para o continente. Quando
cheguei  praia, vi novamente os horrveis vestgios do seu
brutal costume, e indignei-me tanto com isso que resolvi outra
vez cair sobre o primeiro bando que encontrasse, por mais
numeroso que ele fosse.
  As visitas que eles faziam  ilha deviam ser rarssimas,
pois passaram-se mais de quinze meses sem que eu notasse o
menor vestgio deles. Vivia contudo durante esse tempo nas
mais cruis apreenses, de que no via meio algum de me
livrar.
  Estava todavia sempre com as minhas ideias homicidas, e
empregava quase todas as horas do dia, das quais eu poderia
fazer melhor uso, em preparar o plano de ataque, para a
primeira ocasio que se apresentasse, sobretudo se as suas
foras estivessem divididas como da ltima vez. No reflectia
que se eu matasse ora os de um partido, ora os do outro,
estaria sempre a recomear, e que afinal tornava-me mais
carniceiro que aqueles cuja barbaridade queria castigar.
  As inquietaes, renovadas, tornavam a minha vida cheia de
amarguras: quando me aventurava a sair do meu retiro, era com
toda a precauo possvel e dirigindo continuamente os olhos
para todos os objectos de que estava rodeado.
  Que felicidade para mim ter posto o meu rebanho em
segurana, e estar dispensado de disparar sobre as cabras
selvagens! O rudo poderia pr em fuga um pequeno nmero de
ndios assustados, mas logo voltariam com muitas centenas de
barcos, e sabia o que teria ento a recear. Contudo fui
bastante feliz por no ver mais nenhum at ao ms de Maio do
vigsimo quarto ano da minha vida solitria, poca em que tive
com eles um encontro muito surpreendente, que contarei a seu
tempo. Durante estes quinze meses, passava os dias em
pensamentos inquietos, e todas  as noites tinha sonhos
assustadores, que me despertavam em sobressalto.
  Era pouco mais ou menos no meado de Maio; rebentou uma
tempestade terrvel, acompanhada de troves e relmpagos. A
noite seguinte no foi menos terrvel; absorto na leitura da
Bblia, fazia vrias reflexes sobre o que ia lendo quando me
surpreendeu um rudo semelhante a um tiro de pea dado no mar.
  Esta surpresa era bem diferente de todas que at ento tinha
sentido; levantei-me e com a maior rapidez cheguei ao cume do
rochedo por meio das escadas que tinha arranjado. Ao mesmo
tempo vi uma luz instantnea,  qual se seguiu um tiro de pea
que meio minuto depois chegou aos meus ouvidos, e cujo som
devia vir do lado do mar para o qual as correntes tinham
arrastado o meu barco.
  Pensei primeiro que devia ser algum navio em perigo, que,
por meio destes sinais, pedia socorro a outro que com ele
viesse. Depois reflecti que, se por um lado me era impossvel
socorr-lo, ele pela sua parte podia salvar-me, e com este fim
reuni todos os ramos secos que estavam ali perto, peguei-lhes
fogo no alto da colina, e, ainda que o vento soprasse com
violncia, no deixou de se inflamar segundo os meus desejos,
e tinha a certeza que o fogo deveria ser visto pelos do navio,
se eu no errava nas minhas conjecturas. E de facto, mal se
ateou o meu fogo ouvi um terceiro tiro de pea, seguido de
muitos outros, vindo todos do mesmo lado. Alimentei a fogueira
toda a noite, e quando o dia despontou e a atmosfera ficou
limpa, vi qualquer coisa a leste da ilha, sem contudo a poder
distinguir, mesmo com o culo, to grande era a distncia.
  Durante todo o dia conservei os olhos fixos nesse objecto, e
como o via sempre no mesmo stio, julguei que era um navio
ancorado.
  Tendo muita vontade de satisfazer a minha curiosidade,
agarrei na espingarda e encaminhei-me a largos passos para a
parte meridional da ilha, onde j as correntes me tinham
impelido para alguns rochedos; trepei ao mais alto, e, como o
tempo estava sereno, vi com grande pena o corpo do navio, o
qual se tinha despedaado durante a noite, nas rochas
escondidas pela gua, que eu tinha achado, quando ali fora na
minha canoa, e os quais, resistindo  fora da mar, formavam
uma espcie de mar oposta, que me tinha salvo do maior perigo
que eu decerto correra em toda a minha vida.
  E eis aqui como o que salva uns perde outros, porque me
parece que os tripulantes, no tendo conhecimento dos rochedos


                           138  139


escondidos debaixo de gua, tinham sido levados para cima
deles por um vento, ora este, ora este-nordeste. Se tivessem
descoberto a ilha, o que aparentemente no fizeram, tratariam
sem dvida de se safar para terra nos seus barcos. Mas os
tiros de pea que tinham atirado ao ver a minha fogueira
fizeram nascer um grande nmero de diferentes pensamentos na
minha imaginao: julgava que tinham embarcado nos seus
escaleres para atracar  margem mas tinham sido levados pelas
ondas; ou ento tinham comeado por perder o escaler o que
muitas vezes acontece quando as vagas, entrando no navio,
foram os marinheiros a fazer o escaler em pedaos ou a
lan-lo ao mar. Outras vezes, achava muito possvel que os
navios que iam com este de conserva, advertidos pelos seus
sinais, lhe tivessem salvo a tripulao.
  Em outros momentos, pensava que tinham entrado todos juntos
no escaler, e que as correntes os tinham levado para o vasto
oceano, onde no havia salvao a esperar por eles, e onde
morriam talvez de fome.
  No passava de conjecturas, e, no estado em que me achava,
s podia lanar um olhar de piedade para a sorte dessa pobre
gente.
  No encontro palavras suficientemente enrgicas para
exprimir o desejo que tinha de ver pelo menos um desses homens
salvos, a fim de encontrar um companheiro para a minha
solido; nunca suspirara tanto pela sociedade dos meus
semelhantes, nem sentira to vivamente a desgraa de estar
privado dela.
  Repeti cem vezes sucessivamente: "Queira Deus que escapasse
um s!" E, ao pronunciar estas palavras, a minha comoo era
to viva que as mos se juntavam com uma fora terrvel; os
dentes apertavam-se de tal modo, que estive muito tempo sem
poder separ-los.
  Mas, at ao ltimo ano da minha residncia na ilha, ignorei
se se salvou algum desse naufrgio. S alguns dias depois,
tive a dor de ver na praia o cadver dum grumete afogado.
  Tinha por fato uma farda de marinheiro, um mau par de calas
e uma camisa de pano branco, de maneira que era impossvel
adivinhar de que nao era: tudo o que encontrei nas
algibeiras consistia apenas em duas pequenas moedas de prata e
um cachimbo, infinitamente mais precioso para mim que o
dinheiro. O mar amansara contudo, e eu tinha grande desejo de
visitar o navio, no tanto na esperana de encontrar alguma
coisa de til, mas para ver se havia alguma criatura viva que
eu pudesse salvar.
  Com esta esperana preparei tudo para a minha viagem. Tomei
uma grande quantidade de po, um barril cheio de gua fresca,
uma garrafa do meu licor forte de que estava suficientemente
abastecido, e um cesto cheio de uvas secas.
  Carregado com estas provises, fui para o meu barco,
limpei-o, pu-lo na gua e meti-lhe dentro todo o carregamento;
depois fui buscar o resto que me era necessrio: arroz, um
chapu-de-Sol, duas dzias de bolos, um queijo e uma bilha de
leite de cabra. Carregado assim o meu pequeno barco, pedi a
Deus que abenoasse a minha viagem, e, costeando a praia, vim
at  ltima ponta da ilha do lado do nordeste, de onde era
preciso avanar mar adentro se fosse bastante atrevido para
prosseguir na minha empresa.
  Observei com muito terror as correntes que antes me tinham
quase perdido, e esta lembrana no podia seno desanimar-me,
porque, se eu tivesse a desgraa de a ir cair,
arrastar-me-iam certamente para dentro do mar, fora da vista
da minha ilha; e se um vento um pouco agitado se levantasse, o
que seria feito de mim!
  Estava de tal modo assustado que comecei a abandonar a minha
resoluo, e tendo conduzido o meu barco para uma pequena
sinuosidade da praia, fiquei hesitante, entre o desejo e o
receio de acabar a minha viagem; a fiquei at ao momento em
que vi que a mar mudava, e comeava a encher, o que tornava a
minha ideia impraticvel durante algumas horas. Passou-me
ento pelo esprito a ideia de subir a uma das dunas mais
elevadas, para observar a direco que as correntes levavam
durante o fluxo, a fim de julgar se, levado por uma das
correntes ao meter-me ao mar, encontrava uma outra que me
pudesse trazer com a mesma rapidez. Cheguei bem depressa a uma
eminncia de onde se podia observar o mar de um e outro lado,
e dali vi claramente que, como a corrente do refluxo saa do
lado da ponta meridional da ilha, assim a corrente do fluxo
entrava do lado norte e tendia por consequncia a
reconduzir-me a casa.
  Animado, resolvi sair no dia seguinte antes do comeo da
mar, e fi-lo depois de ter passado a noite no meu barco.
  Dirigi primeiro o meu caminho para o norte at ao momento em
que comecei a sentir o favor da corrente que me levou muito
para o lado de leste, sem que contudo fosse bastante forte
para desviar o rumo do meu barco que tinha um bom leme e que
eu ainda ajudava com um remo: desta maneira fui direito ao
navio e cheguei em menos de duas horas.
  Era um bem triste espectculo: o navio, que parecia espanhol


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pela construo, estava como que encaixado entre dois
rochedos: a popa e uma parte do corpo desse navio estavam
esmigalhados pelo mar, e como a proa batera contra os rochedos
com extrema violncia, o mastro grande e o da vela mestra
tinham-se quebrado pela base; mas o gurups ficara em bom
estado e parecia firme na ponta do esporo.
  Quando cheguei ao p, apareceu-me um co na ponte; ao ver-me
ps-se a gemer e a ladrar. Logo que o chamei, saltou para o
mar e ajudei-o a entrar no meu barco: achando-o meio morto de
fome e de sede, dei-lhe um pedao de po, que ele engoliu como
um lobo que tivesse padecido quinze dias na neve; em seguida
dei-lhe a beber da minha gua fresca.
  O primeiro espectculo que se ofereceu aos meus olhos no
navio foi dois homens afogados no camarote de proa, e que
estavam abraados um ao outro. Provavelmente quando o navio
embateu nos rochedos, o mar entrou, e em to grande
quantidade, e to violentamente, que aqueles pobres homens
morreram abafados como se tivessem estado continuamente
debaixo de gua.
  A no ser o co, nada havia vivo no navio, e quase toda a
carregao me pareceu submergida; contudo vi muitos barris
cheios, aparentemente de vinho e aguardente, mas demasiado
grandes para poder aproveit-los.
  Ainda havia alguns caixotes; pus dois no meu barco sem ver o
que continham. Depois, pelo que nele encontrei, pareceu-me vir
ricamente carregado; segundo as minhas conjecturas, vinha de
Buenos Aires, no Sul da Amrica, alm do Brasil, e
destinava-se a Havana e depois  Espanha.
  Alm destes dois caixotes, tambm encontrei um pequeno
barril que podia conter cerca de vinte canadas, e pu-lo no
barco com muito custo. Numa das cmaras vi muitas espingardas,
e um grande polvarinho cheio com umas quatro libras;
apoderei-me deste, mas deixei as armas porque estava bem
fornecido delas; ainda levei comigo uma p de forno, e
tenazes, de que tinha grande necessidade, bem como dois
caldeires de cobre, uma grelha e uma chocolateira. Retirei-me
com este carregamento e com o co, vendo aproximar-se a mar
que devia reconduzir-me a casa, e nessa mesma tarde voltei 
ilha, muito cansado.
  Depois de ter repousado na canoa, resolvi que era melhor
transportar as minhas novas aquisies para a gruta do que
para o palcio, mas achei conveniente fazer, antes disso, um
exame.
  O pequeno barril continha uma espcie de rum que no era to
bom como o do Brasil; quanto aos dois caixotes, estavam
recheados de coisas de grande utilidade para mim: entre outras
encontrei l um pequeno cesto com excelentes licores cordiais,
e em grande quantidade; estavam em garrafas ornadas com prata,
cada uma com trs pintas. Achei ainda dois boies com doces
to bem fechados que a gua no tinha podido penetrar; e
outros dois estragados pelo mar.
  Havia l camisas muito boas, gravatas de cores diversas,
meia-dzia de lenos brancos, magnficos para enxugar o rosto
nos grandes calores.
  Este achado foi-me muitssimo agradvel.
  Quando cheguei ao fundo do caixote, encontrei trs grandes
sacos com moedas de prata, alm de um papel contendo seis
pistolas de dois canos e algumas jias, que juntas pesariam
cerca de uma libra.
  No outro caixote achei muitos fatos, mas de pouco valor, e
trs frascos cheios de plvora para canho muito fina, que
parecia destinada a carregar as espingardas de caa na
ocasio. Concluso: pouco fruto colhi da minha viagem; o
dinheiro de pouco me servia, e de boa vontade o daria em troca
de dois ou trs pares de meias e botas, de que muito precisava
e me via privado havia um bom par de anos.  verdade que tinha
os dois pares de botas dos dois pobres marinheiros que
encontrara afogados no navio, mas no igualavam as nossas
botas inglesas, nem em comodidade, nem em servio.
  Para acabar, encontrei ainda umas cinquenta moedas de prata,
e nem uma s de ouro:
  Coloquei todo este dinheiro na gruta, ao p do que j tinha
salvo do nosso prprio navio. Foi pena que no tivesse podido
chegar ao fundo da embarcao, porque teria podido tirar com
que carregar mais de uma vez a minha canoa, e teria reunido um
tesouro considervel, perfeitamente seguro na gruta, e que
facilmente transportaria para a minha ptria, se a bondade
divina permitisse que eu um dia deixasse a ilha.
  Depois de assim ter posto todas as minhas aquisies em
lugar seguro, levei a minha canoa para o seu abrigo ordinrio,
e voltei  minha morada, onde encontrei tudo como tinha
deixado. Recomecei a minha vida como at ento, aplicando-me
aos afazeres domsticos. Durante uma temporada, gozei de um
grande sossego, embora sempre alerta, saindo raramente e
sempre com inquietao, excepto quando me dirigia para o lado
oeste, onde tinha a certeza que os selvagens nunca iam, e que
portanto me dispensava da grande quantidade de armas que
sempre levava comigo nas outras excurses.
  Foi assim que vivi dois anos a fio, razoavelmente feliz,


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se o meu esprito no se tivesse povoado de mil projectos para
me escapar da ilha. Algumas vezes queria fazer uma segunda
visita ao navio encalhado, de onde nada tinha a esperar que
valesse o trabalho da viagem; outras vezes pensava partir, ora
para um lado, ora para outro, e creio firmemente que se ainda
tivesse em meu poder a chalupa com que tinha deixado Sal,
ter-me-ia j metido ao mar, confiando no acaso.
  Um dia, estes pensamentos agitaram-me com tanta fora que
por um momento me tiraram a tranquilidade que outrora me tinha
dado a minha resignao  vontade da Providncia.
  No estava em meu poder afastar o meu esprito deste
projecto de viagem que excitava em mim desejos to impetuosos,
aos quais nem a minha razo resistia. Durante duas horas, esta
paixo arrebatou-me com tanta violncia que me fez ferver o
sangue nas veias, como se tivesse febre; mas um cansao de
esprito, sucedendo a esta agitao, mergulhou-me num profundo
sono.
  Era natural que os meus sonhos fossem todos a respeito da
mesma coisa; contudo, pouqussima relao havia entre eles e a
minha ideia fixa. Sonhei que saindo como de costume, do meu
palcio pela manh, via na praia duas canoas de onde saam
onze selvagens com um prisioneiro destinado a servir de
alimento. Este infeliz, no momento em que ia ser morto,
escapa-se e desata a correr para o meu lado, com o fim de se
esconder no espesso bosque que ocultava o meu
entrincheiramento; vendo-o s, sem que ningum o perseguisse,
apareo, e animando-o com um rosto risonho, ajudo-o a subir a
escada, levo-o comigo para a minha habitao e ele torna-se
meu escravo. Estava encantado com este encontro, persuadido
que achara um homem capaz de me servir de piloto na minha
empresa, de me dar os conselhos necessrios para evitar os
perigos desconhecidos por mim. E eis o meu sonho, que,
enquanto durou, me encheu de uma alegria inexprimvel. mas foi
seguido de uma dor extravagante assim que acordei.


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                              XXIII


                              ROBINSON SALVA A VIDA A UM
                         NDIO: D-LHE O NOME DE
               SEXTA-FEIRA


  Conclu de a que o nico meio de executar o meu desgnio
com xito era apanhar algum selvagem; sobretudo, se fosse
possvel, algum prisioneiro que me ficasse reconhecido pela
sua libertao; mas via nisto essa terrvel dificuldade de,
para ter resultado, ser absolutamente preciso massacrar toda
uma multido, empresa desesperada e que podia falhar muito
facilmente. Por outro lado, estremecia ao pensar nos motivos
de que falei, e que me faziam considerar essa aco como
extremamente criminosa.  verdade que tinha no esprito outras
razes que advogam a inocncia do meu projecto, a saber: que
esses selvagens eram realmente meus inimigos, pois  certo que
me devorariam logo que lhes fosse possvel; atac-los era, na
verdade, trabalhar para a minha prpria conservao, sem sair
dos limites de uma defesa legtima.
  Estes argumentos no me tranquilizavam contudo, e eu tinha
dificuldade em me familiarizar com a resoluo de alcanar a
minha liberdade  custa de tanto sangue.
  Todavia, depois de muitas deliberaes inquietas, depois de
ter pesado muito tempo o pr e o contra, a minha paixo
prevaleceu sobre a minha humanidade, e eu determinei que faria
tudo o que me fosse possvel para me apoderar dum desses
selvagens fosse l como fosse.
  A questo era a maneira de o conseguir; mas, como no podia
decidi-la ainda, resolvi unicamente pr-me de sentinela para
descobrir os meus inimigos quando desembarcassem, e formar
ento o meu plano conforme as circunstncias.
  Com este fim, no deixei um s dia de ir reconhecer o
terreno: mas nada descobri no espao de dezoito meses,


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posto que durante todo esse tempo eu fosse incessantemente ora
para o lado de oeste da ilha, ora para o lado de sudoeste, os
dois stios mais frequentados pelos selvagens. A fadiga que
esses passeios inteis me davam, bem longe de me desgostar,
como dantes, da minha empresa e de abrandar a minha paixo,
no fez seno inflam-la mais: desejava to ardentemente
encontrar os canibais, quanto desejava outrora evit-los.
  Tinha mesmo ento tanta confiana em mim mesmo, que fazia
teno de prender trs desses selvagens para os avassalar
inteiramente e lhes tirar todo o meio de me fazerem mal;
agradava-me esta ideia vantajosa da minha habilidade e nada me
faltava, no meu entender, seno a ocasio de a empregar.
  Pareceu apresentar-se finalmente. Um dia, distingui na praia
uns seis barcos; os selvagens estavam j em terra e fora do
alcance da minha vista. Sabia que vinham ordinariamente cinco
ou seis em cada barco, e por consequncia o seu nmero
transtornava todos os meus projectos. Que possibilidade havia
para um homem s combater contra trinta? Contudo, depois de
ter estado indeciso durante alguns momentos, preparei tudo
para o combate: escutei atentamente se ouvia algum rudo;
depois, deixando as minhas duas espingardas ao p da escada,
coloquei-me de maneira que a minha cabea no excedia o alto
da escada.
  De a avistei, por meio do meu culo, que eram pelo menos
trinta, que tinham acendido lume para preparar o seu festim, e
que danavam em volta da fogueira com mil posturas, e com mil
gestos extravagantes, segundo o costume do pas.
  Um momento depois, vi-os tirar de um barco dois miserveis
para os fazerem em pedaos. Um dos dois caiu logo por terra
desancado, creio eu, por uma pancada de maa ou de sabre de
madeira; e, sem demora, dois ou trs daqueles carrascos
lanaram-se a ele, abriram-lhe o corpo e prepararam todos os
pedaos para a sua infernal cozinha, enquanto que a outra
vtima estava ali ao p, esperando que chegasse a sua vez de
ser imolada. Este desgraado, achando-se ento com alguma
liberdade, alimentou uma esperana de se salvar, e desatou a
correr com toda a ligeireza imaginvel, em linha recta para o
meu lado, quero dizer, para o lado da praia que conduzia 
minha habitao.
  Confesso que fiquei terrivelmente aterrado ao v-lo enfiar
por esse caminho, sobretudo porque esperava que o bando o
perseguiria, e pensei que ia confirmar o meu sonho quanto 
busca de refgio no meu bosque, sem ter ocasio de crer que o
resto do meu sonho se verificaria tambm.
  Fiquei todavia no mesmo lugar, e sosseguei logo, ao ver que
apenas trs homens o perseguiam, e que ele ganhava
consideravelmente terreno sobre eles, de maneira que devia
escapar-lhes indubitavelmente se ele aguentasse aquela corrida
durante meia hora.
  Havia na praia, entre ele e o meu palcio, uma pequena baa
onde ele seria apanhado necessariamente, a no ser que a
atravessasse a nado; mas quando ele a chegou no esteve com
hesitaes e apesar da mar estar muito cheia, atirou-se 
gua, ganhou a outra margem nuns trinta impulsos, no mximo, e
depois tornou a correr com a mesma fora que dantes. Quando os
seus inimigos chegaram ao mesmo stio, notei que apenas dois
sabiam nadar; e que o terceiro, depois de se ter demorado um
pouco na margem, voltava lentamente para o lugar do festim, o
que no era felicidade pequena para aquele que fugia. Observei
ainda que os dois que nadavam levaram a atravessar essa gua o
dobro do tempo que o seu prisioneiro gastara.
  Vi ento que era esta uma ocasio favorvel para arranjar um
companheiro e um criado, e que eu era chamado evidentemente
pelo Cu para salvar a vida desse pobre infeliz. Nesta
persuaso desci precipitadamente do rochedo para pegar nas
minhas espingardas, e subindo com o mesmo ardor, avancei para
o mar; no tinha muito que andar, e depressa me lancei entre
os perseguidores e o perseguido, tratando de lhe fazer
entender pelos meus gritos que parasse. Fiz-lhe ainda sinal
com a mo, mas creio que ao princpio tinha tanto medo de mim
como daqueles de quem fugia. Avancei contudo sobre eles com
passos lentos, e em seguida, lanando-me bruscamente sobre o
primeiro, derrubei-o com uma coronhada; antes queria
desfazer-me deles desta maneira do que fazendo fogo sobre ele,
pois receava ser ouvido pelos outros, apesar disso ser difcil
a to grande distncia, e ser impossvel aos selvagens saber o
que significava esse rudo desconhecido.
  O segundo, ao ver cair o seu camarada, parou como que
assustado; continuo direito a ele mas ao aproximar-me vejo-o
armado de um arco cuja flecha ele aponta, o que me obriga a
antecipar-me e fao-o cair por terra, morto ao primeiro tiro.
O pobre fugitivo, posto que visse os seus dois inimigos fora
de combate, estava to aterrado com o fogo e com o rudo que
ouvira que ficou imvel no mesmo lugar, e eu vi, no seu ar
desvairado, mais vontade de fugir imediatamente do que de
aproximar-se. Fiz-lhe novamente sinal para que viesse ter
comigo; deu alguns passos, depois parou ainda, e estes
movimentos repetiram-se durante alguns momentos. Imaginava sem
dvida que ia ser preso outra vez, e ser morto como os seus
dois inimigos.


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  Enfim, depois de lhe ter feito sinal pela terceira vez, com
a maneira mais prpria para o sossegar, aventurou-se a vir ter
comigo, pondo-se de joelhos a cada dez ou doze passos para me
testemunhar o seu reconhecimento. Durante todo esse tempo eu
sorria-Lhe o mais graciosamente possvel.
  Finalmente, quando chegou ao p de mim, deita-se-me aos ps,
beija o cho, pega num dos meus ps e pe-o na sua cabea,
para me fazer compreender sem dvida que me jurava fidelidade
e que me prestava homenagem na qualidade de meu escravo.
  Levantei-o e tentei anim-lo cada vez mais; mas o negcio
no estava ainda acabado; vi logo que o selvagem que eu fizera
cair com uma coronhada no estava morto mas apenas atordoado,
fi-lo notar ao meu escravo que em resposta pronunciou algumas
palavras que no entendi mas no deixaram de me encantar, pois
era o primeiro som de uma voz humana que ouvia depois de vinte
e cinco anos.
  Mas ainda havia trabalho para acabar; o selvagem em questo
j recuperara foras bastantes para se pr em p, e o terror
reapareceu no rosto do meu escravo; todavia como me viu com ar
de quem ia descarregar a minha espingarda sobre o desgraado,
deu-me a entender por sinais que desejava que eu lhe
emprestasse o meu sabre, ao que acedi. Mal pegara nele,
lana-se sobre o seu inimigo, e corta-Lhe a cabea de um s
golpe, to depressa e to habilmente como o poderia fazer o
mais hbil carrasco de toda a Alemanha.
  Era contudo a primeira vez na sua vida que ele vira uma
espada, a no ser que se queira dar esse nome aos sabres de
madeira que so armas comuns naqueles povos.
  Contudo soube depois que esses sabres so de uma madeira to
dura e to pesada, e que eles sabem to bem agu-los, que de
um s golpe fazem voar uma cabea de cima dos ombros.
  Depois de ter feito essa expedio, vem ter comigo aos
saltos e s gargalhadas celebrando o seu triunfo e vem pousar
aos meus ps o meu sabre e a cabea do selvagem.
  O que o confundia extraordinariamente, era a maneira como eu
matara o outro ndio a to grande distncia, e mostrando-mo
pediu-me por sinais licena para o ver de perto. Ao
aproximar-se, a sua surpresa aumenta, observa-o, volta-o ora
de um lado, ora de outro; examina a ferida que a bala fizera
exactamente no peito, que no parecia ter sangrado muito,
porque o sangue espalhara-se para dentro.
  Depois de ter parado muito tempo a consider-lo, veio ter
comigo com o arco e as frechas do morto; eu, resolvido a ir-me


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embora, ordenei-lhe que me seguisse, fazendo-lhe entender que
receava que os selvagens fossem logo seguidos de um maior
nmero.
  Fez-me depois sinal de que ia enterrar os dois que ns
tnhamos morto, com medo que os outros ao ver os corpos
conseguissem descobrir-nos. Deixei-o fazer isso, e num
instante tinha aberto duas covas na areia onde enterrou ambos.
  Tomada esta precauo, levei-o comigo, no para o meu
palcio, mas para a gruta que eu tinha na ilha; o que
desmentiu o meu sonho que designara o meu bosque para asilo do
meu escravo.
  Foi nesta gruta que lhe dei po, um cacho de uvas secas, e
gua que era o que mais falta lhe fazia devido  muita sede
que a corrida provocara. Fiz-lhe sinal para ir dormir,
mostrando-lhe um monte de palha de arroz e um cobertor que
muitas vezes tinha servido de leito a mim mesmo.
  Era um rapazola reforado, de vinte e cinco anos, mais ou
menos; era bem constitudo, tinha um ar hbil e robusto, e o
seu aspecto no era o de algum feroz: pelo contrrio, via-se
nas suas feies, e sobretudo quando sorria, uma doura e um
agrado mais prprios de um europeu.
  No tinha os cabelos semelhantes  l frisada, mas sim
negros e compridos; a sua fronte era grande e elevada, os seus
olhos briLhantes e cheios de fogo. A sua tez no era negra mas
muito acobreada, sem nada dessa desagradvel cor acastanhada
dos habitantes do Brasil e da Virgnia; aproximava-se mais de
uma ligeira cor de azeitona, de que no  fcil dar ideia
exacta.
  Tinha o rosto redondo e o nariz bem feito, a boca bonita, os
lbios delgados, os dentes bem enfileirados e brancos como o
marfim.
  Depois de ter dormitado durante meia hora, acorda e sai da
gruta para vir ter comigo; neste intervalo fora mungir as
cabras, que estavam num recinto ali perto. Veio correndo para
mim, lanou-se a meus ps com todos os sinais de uma alma
verdadeiramente reconhecida, renovou a cerimnia de me jurar
fidelidade, pondo o meu p sobre a sua cabea; numa palavra,
fez todos os gestos que se podem imaginar para me exprimir o
seu desejo de ser meu escravo para sempre.
  Eu compreendia a maior parte das coisas pelos seus gestos, e
fiz quanto podia para lhe dar a entender que estava contente
com ele.
  Comecei em pouco tempo a falar-lhe, e ele aprendeu a falar
comigo, por seu turno; primeiro ensinei-lhe que se chamaria
Sexta-feira, nome que lhe dei em memria do dia em que cara
em meu poder.
  Ainda lhe ensinei a chamar-me seu senhor, e a dizer a
propsito sim e no.
  Em seguida dei-lhe leite num vaso de barro; bebi primeiro, e
molhei nele o po; tendo-me imitado, fez-me sinal de que
gostara.
  Ficmos na gruta, mas apenas o dia despontou, fiz-lhe
compreender que me seguisse, e que lhe daria vesturio, o que
pareceu regozij-lo, porque estava completamente nu. Ao passar
pelo stio onde enterrara os dois selvagens, mostrou-mo assim
como os sinais que ali deixara para o reconhecer, manifestando
a ideia de os desenterrar e de os comer.
  Tomei o ar de um homem zangado; exprimi-lhe o horror que
tinha de tal pensamento e, fingindo que ia vomitar,
ordenei-lhe que se afastasse desses cadveres, o que ele fez
imediatamente com muita humildade.
  Levei-o em seguida ao alto da colina, para ver se os
inimigos tinham partido, e servindo-me do meu culo no
descobri seno o lugar onde eles tinham estado, sem os ver nem
a eles nem s suas canoas, prova de que tinham embarcado.
  Ainda no estava completamente satisfeito com esta
descoberta, e achando-me ento com mais coragem e portanto com
mais curiosidade, fui com o meu escravo ao lugar do festim;
armei-o com a espada, o arco e as setas e levmos trs
mosquetes.
  Quando chegmos, o meu sangue gelou-se de horror pelo
espectculo, que no produziu o mesmo efeito em Sexta-feira;
todo aquele stio estava coberto de ossadas e de carne humana
meio comida; numa palavra, de todas as provas do festim de
triunfo por meio do qual os selvagens tinham celebrado a
vitria sobre os seus inimigos.
  Vi na areia trs crnios, cinco mos, os ossos de duas ou
trs pernas e outros tantos ps, e Sexta-feira fez-me
compreender por gestos que eles tinham trazido quatro
prisioneiros dos quais ele era o quarto; e que houvera uma
grande batalha entre eles e a tribo a que pertencia, e que de
ambas as partes se tinham feito muitos prisioneiros destinados
a um fim igual ao daqueles cujos restos eu ali via.
  Fi-lo reunir todos estes miserveis restos em monte, e
obriguei-o a reduzi-los a cinzas fazendo uma grande fogueira;
eu bem percebia que o seu estmago estava vido desta carne, e
que no fundo do corao ainda era um verdadeiro canibal, mas
testemunhei-lhe um to grande horror por um apetite to


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desnaturado, que ele no ousava manifest-lo com medo que o
matasse.
  Acabado este trabalho, voltmos para o meu castelo, onde me
pus a trabalhar no vesturio de Sexta-feira. Primeiro dei-lhe
umas calas de pano, que tinha encontrado na caixa de um dos
marinheiros e que um pouco arranj adas Lhe ficavam menos mal.
Juntei-lhe um casaco de pele de cabra, e como me tinha tornado
j um alfaiate como deve ser, ainda lhe fiz um barrete de pele
de lebre, cuja forma no era feia. Ele estava encantado de se
ver tambm vestido como o seu senhor, ainda que ao princpio
tinha um ar muito grotesco nestas vestes s quais no estava
acostumado e que no comeo o incomodaram muito.
  No dia seguinte pus-me a pensar onde alojaria o meu escravo
de um modo cmodo para ele, e sem que houvesse nada a recear
por mim, para o caso de ele ser to mau que tentasse alguma
coisa contra a minha vida. No achei melhor que fazer-lhe uma
cabana entre os meus dois entrincheiramentos, e tomei todas as
precaues necessrias para o impedir de vir ao meu palcio
contra a minha vontade; alm disso, resolvi levar todas as
noites para a minha casa as armas que tinha em meu poder.
  Felizmente estas precaues no eram precisas: nunca se viu
um servidor mais fiel, mais cheio de candura e de afecto para
o seu dono. Ligava-se a mim com uma ternura verdadeiramente
filial; no tinha fantasias nem teimas, incapaz de um
arrebatamento, e em qualquer ocasio daria a sua vida para
salvar a minha. Em to pouco tempo deu-me tantas provas disto,
que me foi impossvel duvidar do seu bom corao e da
inutilidade das muitas precaues tomadas a seu respeito.
  Estava encantado com ele; tomei a peito instru-lo e
ensin-lo a falar a minha lngua, e achei-o o melhor discpulo
do mundo; punha-se to alegre, to arrebatado quando me podia
compreender ou exprimir-se de modo que eu o entendesse, que
at me comunicou a mesma alegria, e fazia com que eu tivesse
um verdadeiro prazer em conversar com ele.
  Os dias decorriam ento para mim com uma doce tranquilidade,
e contanto que os selvagens me deixassem em paz, estava
contente por acabar ali a minha vida.


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                              XXIV


                              SEXTA-FEIRA INSTRUDO E BEM
                              TRATADO POR ROBINSON, PRESTA-LHE
                              TEIS SERVIOS


  Trs ou quatro dias depois de ter comeado a viver com
Sexta-feira, resolvi faz-lo perder o seu gosto canibal
dando-lhe a provar os meus petiscos; levei-o pois uma manh ao
bosque, onde eu tencionava matar um cabrito mas, ao entrar no
bosque, descobri por acaso uma cabra deitada  sombra com dois
filhotes: fiz sinal a Sexta-feira para parar e no se mexer, e
fiz fogo sobre um dos cabritos e matei-o. O pobre selvagem
tremia como varas verdes: sem sequer olhar para o cabrito para
ver se estava morto, s pensou em abrir o seu fato para
examinar se ele mesmo estava ferido. Julgava sem dvida que eu
resolvera desfazer-me da sua pessoa, porque veio pr-se de
joelhos diante de mim e fez-me longos discursos de que eu nada
compreendia seno que me suplicava para no o matar.
  Para o sossegar, peguei-lhe na mo sorrindo, fi-lo levantar,
e mostrando-lhe com o dedo o cabrito, fiz-lhe sinal para o ir
buscar, o que ele fez, e enquanto ele estava ocupado a
descobrir como esse animal fora morto, carreguei novamente a
espingarda. Nesse mesmo instante avistei numa rvore, e ao
alcance da espingarda, uma ave que tomei por uma ave de presa,
mas que logo depois vi ser um papagaio.
  Chamei logo o meu selvagem e mostrando-lhe com o dedo a
minha espingarda, o papagaio e o cho debaixo da rvore,
dei-lhe a entender a minha teno de derrubar a ave:
efectivamente derrubei-a, e vi o selvagem outra vez assustado,
apesar de tudo o que lhe dera a entender.
  No me tendo visto meter nada na espingarda, considerou-a
como uma origem inesgotvel de runa e destruio. Durante
muito tempo no pde voltar a si da surpresa, e se eu o


                                    153


deixasse, creio que adoraria a minha espingarda e a minha
pessoa. No se atreveu a tocar nela durante muitos dias: mas
falava-lhe como se esse instrumento fosse capaz de lhe
responder. Era, como depois vim a saber, para lhe pedir que
no Lhe tirasse a vida.
  Quando o vi mais sossegado, fiz-lhe sinal para ir buscar a
ave, o que ele fez: mas ao ver que tinha trabalho em ach-la,
porque o animal, no estando inteiramente morto, arrastara-se
para muito longe dali, gastei esse tempo a carregar a minha
espingarda s escondidas do meu selvagem.
  Veio logo depois com a minha presa, e eu, no tendo j
ocasio de o assustar ainda uma vez, voltei com ele para casa.
  No mesmo dia, esfolei o cabrito, cortei-o aos pedaos, e pus
alguns no tacho que tinha: fi-los estufar, fiz um caldo, e dei
uma parte dessa carne assim preparada ao meu escravo, que,
vendo que eu comia dela, se ps tambm a prov-la. Fez-me
sinal de que gostava muito; mas o que lhe pareceu estranho foi
eu comer sal com o caldo. Deu-me a entender que o sal no era
bom, e depois de ter metido alguns gros na boca, cuspiu-os
fora, fez uma careta como se tivesse nuseas, e depois lavou a
boca com gua fresca. Eu, pelo contrrio, fiz as mesmas
caretas ao tomar um pedao de carne sem sal; mas no pude
conseguir que ele fizesse o mesmo, e esteve muito tempo sem
poder acostumar-se.
  Depois de o ter assim habituado com esse alimento, quis no
dia seguinte regal-lo com um prato de assado, o que fiz
atando um pedao de cabrito a uma corda, e fazendo-o girar
continuamente diante do fogo, como vira praticar algumas vezes
em Inglaterra.
  Logo que Sexta-feira o provou, fez-me tantas e to
diferentes caretas para me dizer que o achara excelente e que
no comeria mais carne humana, que seria bem estpido se no o
compreendesse.
  No dia seguinte, ocupei-o em bater trigo e descasc-lo 
minha moda, o que em pouco tempo ele fez to bem como eu:
aprendeu at a fazer po; numa palavra, poucos dias foram
precisos para ele ser capaz de me servir de todas as maneiras.
  Tinha agora duas bocas a sustentar, logo, necessidade de
maior quantidade de trigo do que dantes.
  Foi por isso que escolhi um campo mais extenso, e me pus a
rode-lo, como fizera s minhas outras terras; no que
Sexta-feira me ajudou no s com muita habilidade e
diligncia, mas ainda com muito prazer, sabendo que era para
aumentar as minhas provises e para ficar em estado de as
compartilhar com ele. Pareceu muito sensvel aos meus
cuidados, e deu-me a entender que o seu reconhecimento o
animaria a trabalhar com mais assiduidade. Foi este o ano mais
agradvel que passei na ilha. Sexta-feira comeava a falar
ingls sofrivelmente; sabia j o nome de quase todas as coisas
de que eu podia precisar, e de todos os lugares onde eu tinha
de o mandar, o que me restitua o uso da minha lngua que por
tanto tempo me fora intil. Tinha por mim toda a dedicao
possvel.
  Um dia perguntei-lhe se a sua nao nunca ficava vitoriosa
nos combates; e pondo-se a sorrir:
  "Sim - respondeu -, ns sempre combater melhor, isto , ns
alcanar sempre a vitria."
  Tivemos ento a conversa que aqui reproduzo:
  Amo - A tua nao combate sempre melhor? Como foi ento que
foste preso?
  Sexta-feira - Eles muito mais que a nao onde mim estar.
Eles prender um, dois, trs e mim. Minha nao bater eles
noutro lugar onde mim no estar; ali a minha nao prender um,
dois, muitos, mil...
  Amo - Porque foi ento que os teus no correram a tirar-te
aos inimigos?
  Sexta-feira - Eles levar um, dois, trs e mim no barco.
Minha nao no ter barcos ento.
  Amo - Dize-me agora, Sexta-feira o que  que a tua nao faz
aos seus prisioneiros: leva-os para os comer?
  Sexta-feira - Sim, minha nao tambm comer homens, comer
inteiramente.
  Amo - Para onde os levam?
  Sexta-feira - Lev-los para toda a parte onde acham bom.
  Amo - Trazem-nos s vezes para aqui?
  Sexta-feira - Sim, aqui e muitos outros lugares.
  Amo - Estiveste aqui j com os teus?
  Sexta-feira - Sim, mim vir aqui - disse indicando com o dedo
o nordeste da ilha.
  Por isto compreendi que o meu selvagem j estivera na ilha,
na ocasio de algum festim de canibais, na margem mais
afastada de mim, e algum tempo depois, quando me aventurei a
ir para esse lado com ele, reconheceu primeiro o stio, e
contou-me que ajudara um dia a comer vinte homens, duas
mulheres e uma criana. No sabia contar at vinte, mas ele
ps vinte pedras na areia, e pediu-me para eu as contar.
  Este discurso deu-me azo para lhe perguntar a distncia da
ilha ao continente, e se nesse trajecto os barcos no iam a
pique. Respondeu-me que no havia perigo, e que um pouco para
fora do mar se achava cada manh o mesmo vento e a mesma
corrente, e todas as tardes um vento e uma corrente opostos.


                           154  155


  Julguei primeiramente que isso era o praia-mar e o
baixa-mar; mas compreendi depois que esse fenmeno era causado
pelo grande rio Orenoco, na foz do qual estava situada a minha
ilha, e que a terra que descobria a oeste e a noroeste era a
grande ilha da Trindade, situada no setentrio do rio. Fiz mil
perguntas a Sexta-feira relativas ao pas, habitantes, mar,
costumes e povos vizinhos, e ele deu-me todas as explicaes
que podia; mas debalde lhe perguntei o nome dos diferentes
povos dos arredores, nada me respondia, seno Caribs, donde eu
inferia que eram as Carabas, que as nossas cartas colocam
para o lado da Amrica que se estende desde o rio Orenoco at
Guiana e Santa Marta.
  Disse-me ainda que, muito para trs da Lua (queria ele dizer
para o poente da Lua, o que deve ser a oeste do seu pas),
havia homens brancos e barbados como eu, e que tinham morto
grande nmero de homens: era essa a sua maneira de se
exprimir. Era fcil de compreender que designava assim os
Espanhis cujas crueldades se espalharam por todos esses
pases e a quem os habitantes detestam por tradio.
  Informei-me ento de como poderia eu ir ter com esses homens
brancos. Replicou-me que podia l ir em dois barcos, o que
primeiro no percebi; mas quando ele se explicou por sinais,
vi que ele entendia por isso um barco to grande como dois
barcos juntos.
  Esta conversa causou-me grande prazer, e deu-me a esperana
de me tirar algum dia da ilha, e de achar para isso um
poderoso auxiliar no meu fiel selvagem.
  No me descuidava, entre estas diferentes conversaes, de
assentar na sua alma as bases da religio crist.
  Consegui instru-lo no conhecimento do verdadeiro Deus:
disse-Lhe que o grande Criador de todos os seres reside no
Cu, que governa tudo pelo mesmo poder e pela mesma sabedoria
pelas quais tudo formou, que  omnipotente, capaz de fazer
tudo por ns, de nos dar tudo, de tudo nos tirar, e abri-lhe
assim os olhos gradualmente. Escutava-me com ateno, e
parecia receber com prazer a noo de Jesus Cristo enviado ao
Mundo para nos resgatar, e da verdadeira maneira de dirigir as
nossas preces a Deus, que podia ouvi-las mesmo no Cu.
  Na agradvel disposio de esprito em que estava ento, e
graas s conversaes com o meu querido selvagem, passei trs
anos inteiros perfeitamente feliz se  permitido chamar
felicidade perfeita a alguma situao do homem nesta vida. O
meu escravo era j to bom cristo como eu, e talvez melhor, e
podamos gozar juntos a leitura da palavra de Deus.


                                    156


  Logo que chegmos a estado de nos entendermos um ao outro, e
que ele comeou a falar um mau ingls, narrei-lhe as minhas
aventuras; revelei-lhe o mistrio da plvora e das balas, e
ensinei-lhe a maneira de atirar; alm disso, dei-lhe uma faca,
que ele tinha um prazer extraordinrio em possuir, e
fabriquei-lhe um cinturo com um gancho, como aquele em que se
metem, em Inglaterra, as facas de caa, mas apropriado a
trazer um machado, cuja utilidade  muito mais geral.
  Fiz-lhe ainda uma descrio da Europa, e principalmente de
Inglaterra, minha ptria.
  Mostrei-lhe os restos do escaler que tnhamos perdido quando
me salvei do naufrgio, ao que se ps a reflectir com ar de
espanto, sem dizer uma palavra. Perguntei-lhe pelo assunto da
sua meditao ao que respondeu apenas: "Mim ver escaler assim
na minha nao". Custou-me a compreender o que ele queria
dizer; mas, depois de um exame mais maduro, adivinhei que um
escaler igual fora levado por uma tempestade para a praia da
sua nao. Conclu da que algum navio europeu devia ter
naufragado nessas costas, e que talvez os ventos, tendo
destacado o escaler, o impelissem para a praia. Pedi-lhe uma
descrio do escaler em questo, misso que desempenhou muito
bem; mas fez-me entrar inteiramente no seu pensamento,
acrescentando:
  - Ns salvar homens brancos de afogar.
  - Havia ento homens brancos nesse escaler?
  - Sim - disse ele -, escaler cheio de homens brancos.
  E, contando pelos dedos, fez-me compreender que eram
dezassete e estavam na sua nao.
  Este discurso encheu o meu crebro de novas quimeras;
imaginei primeiramente que era a gente do navio encalhado 
vista da minha ilha, que logo que o navio dera contra os
rochedos e que se julgaram perdidos, se tinham lanado no
barco, e por felicidade tinham-se salvo nas costas habitadas
pelos selvagens. Este pensamento excitou-me a pedir com mais
exactido o que fora feito dessa gente. Assegurou-me de que
ainda l estavam; que l tinham vivido durante quatro anos,
subsistindo de vveres que lhe eram fornecidos pela sua nao;
e quando lhe perguntei porque eles no tinham sido comidos,
fez-me compreender que a sua nao fizera a paz com eles e que
no comia seno os prisioneiros de guerra.
  Aconteceu, pouco tempo depois, que estando ns no alto da
colina, do lado de leste, donde, como disse, se podia
descobrir, em tempo sereno, o continente da Amrica,


                                    157


Sexta-feira, depois de ter olhado atentamente para esse lado,
pareceu extasiado.
  Ps-se a saltar e a pular; perguntei-lhe o motivo, ao que
comeou a gritar com todas as suas foras:
  - O alegria! Ali ver meu pas! Ali ver minha nao!
  O sentimento da sua alegria espalhara-se em todo o seu
rosto, e julguei ler no fogo dos seus olhos um desejo violento
de voltar  ptria.
  Esta descoberta tornou-me menos sossegado sobre o seu
captulo, e no duvidei que se ele achasse uma ocasio para l
voltar, no s esquecesse o que eu lhe ensinara acerca da
religio, mas tambm todo o reconhecimento que podia ter
comigo. Receei mesmo que ele fosse capaz de me descobrir aos
seus compatriotas, e de me trazer  ilha algumas centenas
deles para os fazer deliciar-se com a minha carne, com o mesmo
prazer que ele dantes tinha em comer algum dos seus inimigos.
  Mas eu era injusto com o pobre rapaz, o que depois me
mortificou muito. Contudo, durante algumas semanas que a minha
desconfiana durou, fui mais circunspecto a seu respeito; era
contudo no tempo em que esse honrado selvagem fundava todo o
seu procedimento sobre os mais excelentes princpios do
cristianismo e duma natureza bem dirigida.
  No custar a crer que eu no me descuidava de tentar
penetrar as intenes que nele suspeitava; mas achei em todas
as suas palavras tanta candura, tanta honestidade, que as
minhas suspeitas deviam desvanecer-se necessariamente, por
falta de motivo. No reparava que os meus modos tinham mudado
a seu respeito: prova evidente de que no pensava de modo
algum em enganar-me. Um dia, passeando com ele na colina de
que j muitas vezes falei, num tempo muito carregado para
descobrir o continente, perguntei-Lhe se no desejava ver-se
no seu pas, no meio da sua nao.
  - Sim, respondeu ele, mim muito alegre ver minha nao.
  - Oh!, que farias tu l?, disse-lhe eu. - Querias tornar a
ser selvagem e comer ainda carne humana?
  Pareceu ficar triste a esta pergunta, e moveu a cabea.
  - No, replicou ele; Sexta-feira lhes contar viver bons,
orar a Deus, comer po de trigo, carne de animal, leite; no
mais comer homens.
  - Mas eles comer-te-o!, repliquei eu.
  - No, disse ele, eles no matar mim; gostar de aprender, de
boa vontade.
  Ao que ele acrescentou que tinham aprendido muitas coisas
dos homens barbados que a tinham vindo no escaler.
Perguntei-lhe ento se tinha vontade de l voltar, e quando me
respondeu sorrindo que no podia nadar at l, prometi
fazer-lhe um barco. Disse-me ento que bem o desejava,
contando que eu fosse, e assegurou-me que, longe de me
comerem, fariam grande caso de mim quando ele lhes contasse
que eu lhe salvara a vida e matara os seus inimigos. Para me
tranquilizar a esse respeito, fez-me uma descrio de todas as
bondades que eles tinham tido para com os homens barbados que
a tempestade lanara  praia.
  Da para c, resolvi aventurar a passagem, na inteno de ir
ter com esses estrangeiros, que deviam ser, segundo as
aparncias, espanhis ou portugueses, no duvidando de que
havia de voltar  minha ptria se tivesse uma vez a felicidade
de me achar no continente com to numerosa companhia, o que j
no poderia esperar ficando numa ilha afastada da terra firme
mais de quarenta lguas.
  Com este fim, resolvi pr Sexta-feira a trabalhar, e levei-o
para o outro lado da ilha para lhe mostrar o meu barco, e,
tendo-o tirado da gua sob a qual o conservava, pu-lo a
flutuar, e entrmos ambos nele. Vendo que ele o governava com
muita habilidade e fora e que o fazia avanar o dobro do que
eu era capaz, perguntei-lhe:
  - Ento, Sexta-feira, iremos aqui at  tua nao? - Mas
quando o vi muito estupefacto pelo receio que o barco fosse
demasiado fraco para essa viagem, mostrei-lhe o outro que
construra e que, estando em seco durante vinte e trs anos,
estava esburacado e quase todo podre. Deu-me a entender que
esse barco era grande de sobra para passar o mar com todas as
provises que nos eram necessrias.
  Decidido a executar o meu desgnio, disse-lhe que nos
devamos ocupar em fazer um daquele tamanho, para que ele
pudesse voltar  sua ptria.
  A esta proposta baixou a cabea com um ar muito triste, sem
responder uma s palavra; e quando lhe perguntei a razo do
seu silncio, disse-me em tom lamentvel:
  - Porque estar em clera contra Sexta-feira?, o que mim
fazer contra si?
  Respondi-lhe que se enganava, e que eu no estava em clera.
  - No clera - replicou ele repetindo muitas vezes as mesmas
palavras -, no clera! Porqu ento enviar Sexta-feira para
minha ptria?
  - O qu! - disse eu -, no me disseste que desejavas l
estar?


                           158  159


  - Sim - replicou - desejar ambos l; no Sexta-feira s l
sem senhor l.
  Ou seja, vi bem que no pensava efectuar a passagem sem mim.
  No obstante estas provas da sua dedicao, fingi perseverar
na minha teno de o mandar embora, o que tanto o desesperou
que correu a um dos machados que de ordinrio trazia consigo,
estendeu-mo e disse:
  - Senhor, tomar, senhor matar Sexta-feira, no enviar
Sexta-feira para a sua ptria.
  Pronunciou estas palavras com os olhos cheios de lgrimas e
dum modo to comovedor, que me convenceu da sua constante
ternura por mim, e que lhe prometi no o mandar embora contra
sua vontade.
  O fim com que o meu selvagem desejava tanto levar-me consigo
 sua ptria, era o seu amor pelos seus compatriotas, para os
quais ele julgava que as minhas instrues seriam muito teis.
  Quanto a mim, as minhas visitas eram doutra natureza: s
pensava em encontrar-me com os homens civilizados, e sem mais
demora pus-me a escolher uma rvore bastante grossa para fazer
dela um grande barco prprio para a viagem que meditvamos.
Havia bastantes rvores na ilha; mas eu desejava encontrar uma
perto do mar para poder lan-la ao mar, sem muito trabalho,
logo que estivesse transformada em barco.
  O selvagem achou uma que me era desconhecida, mas que ele
sabia ser prpria para o nosso desgnio. Era de opinio que se
devia cav-la queimando-lhe o interior; mas, depois de eu lhe
ter ensinado a maneira de o conseguir por meio de instrumentos
de ferro, trabalhou habilmente, e, no fim de um ms de
trabalho rude, aperfeioou a sua obra.
  O barco estava muito bem feito, sobretudo quando, por meio
dos nossos machados, lhe demos por fora a verdadeira forma de
um barco; depois do que estivemos ocupados uns quinze dias a
met-lo na gua, onde o fizemos entrar palmo a palmo, por meio
de rolos.
  Estava surpreendido ao ver com que destreza o meu selvagem
sabia govern-lo, por muito grande que fosse. Perguntei-lhe se
era suficientemente grande para nos aventurarmos a tentar a
travessia, e assegurou-me que podamos, mesmo quando o vento
fosse muito forte. Tinha contudo ainda uma outra teno:
juntar-lhe um mastro, uma vela, uma ncora, um cabo; quanto ao
mastro, escolhi um cedro novo muito direito e empreguei
Sexta-feira em abat-lo e em dar-Lhe a forma necessria.
  Quanto  vela, foi negcio para mim: sabia que me restava um
bom nmero de pedaos de panos velhos, mas como no me
preocupara em conserv-los durante vinte e seis anos, receava
que tivessem apodrecido completamente.
  Achei contudo dois farrapos sofrivelmente bons; pus-me a
trabalhar nisto, e depois da fadiga de uma costura, longa e
difcil por falta de agulhas, fiz uma m vela triangular.
  Gastei dois meses a guarnecer e endireitar o mastro e velas,
e a dar a ltima demo a tudo o que era necessrio ao barco;
liguei um leme  popa, apesar de ser mau carpinteiro; como
sabia a utilidade, e mesmo a necessidade desta pea, trabalhei
com tanta aplicao que consegui faz-lo. Mas quando considero
todas as invenes de que me servi para suprir o que me
faltava, estou persuadido que s o leme me custou tanto
trabalho como todo o barco.
  Tratava-se ento de ensinar toda a manobra ao selvagem;
porque embora ele soubesse perfeitamente fazer andar um barco
 fora de remos, era muito ignorante no manejo de uma vela e
de um leme. Mostrava um espanto inexprimvel quando me via
voltar e virar o barco  minha vontade, e as velas mudar e
enfunar-se para o lado onde eu queria ir. Contudo um pouco de
hbito tornou-lhe todas essas coisas familiares, e em pouco
tempo tornou-se um perfeito marinheiro, se esquecermos que me
foi impossvel fazer-lhe compreender o uso da bssola. No era
uma grande desgraa, porque raras vezes tnhamos um tempo
coberto, e nunca nevoeiro, de sorte que a bssola era-nos bem
intil: durante a noite podamos ver as estrelas e descobrir o
continente mesmo durante o dia, excepto nas estaes chuvosas,
nas quais ningum se atreve a ir ao mar.
  Entrara ento no Vigsimo stimo ano do meu exlio nesta
ilha, ainda que no deva chamar exlio os trs ltimos,
durante os quais gozara a companhia do meu fiel selvagem.
  Continuava sempre a celebrar o aniversrio do meu
desembarque na ilha, com o mesmo reconhecimento para com Deus
de que fora animado desde o princpio;  mesmo certo que, na
minha situao presente, esse reconhecimento devia redobrar
pelos novos benefcios com que a Providncia me enchia, e
sobretudo pela esperana prxima que ela me fazia conceber da
minha liberdade.
  Estava persuadido de que no se passaria o ano sem ver os
meus desejos realizados; mas esta persuaso no me fazia
descuidar nada das minhas ocupaes ordinrias, pois lavrava a
terra como de costume, plantava, secava as minhas uvas; numa
palavra, procedia como se tivesse que acabar a minha vida na
ilha.


                           160  161


  Tendo sobrevindo a estao das chuvas, vi-me obrigado a
ficar em casa mais do que noutros tempos: tomara j
antecipadamente as minhas medidas para pr o nosso barco em
segurana, fizera-o entrar na pequena baa de que muitas vezes
falei, puxara-o para a praia durante a mar cheia; Sexta-feira
cavara-lhe um pequeno estaleiro para lhe poder dar tanta gua
quanta fosse necessria para o pr a flutuar; e durante a mar
vazia tnhamos tomado todas as precaues necessrias para
impedir que a gua do mar entrasse nesse estaleiro. A fim de o
pr ao abrigo da chuva, cobrimo-lo com to grande nmero de
ramos de rvores, que um tecto de colmo no  mais
impenetrvel. Desta maneira espermos o ms de Novembro e
Dezembro, poca para a qual eu determinara fazer a passagem.


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                              XXV


Combate contra os selvagens
                              ROBINSON SALVA A VIDA A UM
                              ESPANHOL E AO PAI DE
                              SEXTA-FEIRA


  A ideia de executar a minha empresa ganhou firmeza com a
volta da estao seca, e eu estava continuamente ocupado em
preparar tudo, principalmente em juntar as provises
necessrias para a viagem, com teno de embarcar dentro de
quinze dias.
  Uma manh, enquanto eu trabalhava assim nos nossos
preparativos, ordenei a Sexta-feira que fosse  beira-mar
procurar alguma tartaruga, iguaria que nos era muito
agradvel, tanto pelos ovos, como mesmo pela carne. Havia
apenas um momento que ele sara, quando o vi voltar a correr,
e voar por cima do entrincheiramento exterior, como se os ps
no tocassem no cho. Sem me dar tempo de lhe fazer perguntas,
ps-se a gritar:
  -  senhor, senhor!,  dor!,  mau!
  - O que , Sexta-feira? - perguntei-lhe.
  - Oh!, ali abaixo, um, dois, trs barcos, um, dois, trs.
  Custava-me acalm-lo, o pobre rapaz continuava a estar em
transes mortais, persuadindo-se de que os selvagens tinham
vindo expressamente para faz-lo em pedaos e devor-lo.
  - Coragem, Sexta-feira; estou em to grande perigo como tu;
se nos apanham, no pouparo mais a minha pele do que a tua: 
preciso pois que nos aventuremos a combat-los. Sabes
bater-te, meu rapaz?
  - Mim atirar - replicou ele -, mas vir l muitos, grande
nmero.
  - No h-de ser difcil, as nossas armas de fogo assustaro
aqueles que no matarem: estou resolvido a arriscar a minha
vida por ti, contanto que me prometas outro tanto e que
queiras seguir exactamente as minhas ordens.
  - Sim, mim morrer quando senhor ordena morrer.


                              163


  Dei-lhe a beber ento um bom trago do meu rum para lhe
fortalecer o corao.
  Entreguei-lhe as minhas duas espingardas de caa, que
carreguei com o meu chumbo mais grosso: peguei ainda em quatro
mosquetes em cada um dos quais meti dois pregos e cinco balas
pequenas; carreguei as minhas pistolas  proporo; cingi o
meu sabre desembainhado, e ordenei a Sexta-feira que levasse o
seu machado.
  Tendo-me preparado desta maneira, peguei num dos meus
culos, e subi ao alto de uma colina para descobrir o que se
passava na praia: vi logo que os meus nimigos estavam ali, em
nmero de vinte e um, com trs prisioneiros; que tinham vindo
trs barcos, e que tencionavam fazer um festim de triunfo
desses trs corpos humanos.
  Observei ainda que tinham desembarcado no no stio onde
Sexta-feira lhes fugira, mas muito mais perto da minha pequena
baa, onde a margem era baixa e um bosque espesso se estendia
at ao mar. Esta descoberta deu-me nova coragem; voltando para
o meu escravo, disse-lhe que estava decidido a mat-los todos
se ele quisesse ajudar-me com vigor. O medo passara-lhe e o
rum pusera-lhe as ideias em movimento; pareceu ento cheio de
fogo, e repetiu com ar firme:
  - Mim morrer quando senhor ordene morrer.
  Para aproveitar esse momento de nobre furor, distribu as
armas entre ns; dei-lhe uma pistola para pr  cintura, trs
espingardas ao ombro; levei outro tanto. Pusemo-nos em marcha.
  Alm das minhas armas fornecera-me de uma garrafa de rum e
carregara ainda o meu escravo com um saco cheio de plvora e
balas.
  A nica ordem que ele tinha a seguir era marchar atrs de
mim, no fazer movimento algum, no dizer palavra sem eu
mandar.
  Procurei  direita uma volta para passar para o outro lado
da baa e chegar ao bosque, a fim de ter os canibais ao
alcance da espingarda antes que eles me descobrissem. Consegui
facilmente achar uma entrada por meio do meu culo.
  Entrei no bosque com todas as precaues e o maior silncio
possvel, vindo Sexta-feira logo atrs de mim, e avancei de
forma a que houvesse apenas um pequeno extremo de bosque entre
ns e os selvagens. Vendo ento uma rvore muito alta, chamei
em voz baixa Sexta-feira, e ordenei-lhe que fosse at ali para
saber em que se ocupavam os selvagens. Ele fez isto e em breve
veio  dizer-me que se viam perfeitamente dali, que eles
estavam todos sentados em volta da fogueira regalando-se com a
carne de um dos prisioneiros, e que a alguns passos estava um
outro algemado, sentado na areia, que em breve teria a mesma
sorte: este preso no pertencia  sua nao, era um dos homens
barbados que se tinham refugiado no seu pas com uma chalupa.
Esta narrao e sobretudo a particularidade do prisioneiro
barbado, fez reacender todo o meu furor; arrastei-me ento eu
prprio para a rvore, e dali vi distintamente um homem branco
estendido na areia, tendo os ps e as mos atados com cordas;
o fato que vestia no me deixou dvida alguma de que era um
europeu.
  Ali perto havia uma outra rvore cercada com uma pequena
moita que distava cerca de cinquenta passos do lugar do
banquete, onde se pudesse chegar sem ser visto, estaria a meio
alcance da minha espingarda.
  Esta descoberta deu-me bastante prudncia para dominar a
minha impacincia por alguns minutos, embora a minha raiva
estivesse no cmulo, e esgueirando-me por detrs dalguns ramos
cheguei a este stio, onde achei uma pequena elevao da qual
vi tudo quanto se passava.
  Vi que no havia tempo a perder: dezanove destes brbaros
estavam sentados na areia, chegados uns para os outros, tendo
destacado dois para trazer aparentemente o pobre cristo,
membro a membro.
  J lhe estavam a desligar os ps, quando eu, voltando-me
para o meu escravo lhe disse:
  - Agora Sexta-feira, segue as minhas ordens, faz exactamente
o que me vires fazer, sem exceptuar uma nica coisa.
  Prometeu-mo; e ento, pondo na areia um dos mosquetes e uma
das armas de caa, vi que ele me imitava com exactido.
  Com o meu outro mosquete fiz pontaria aos selvagens,
ordenando-lhe que fizesse outro tanto.
  - Ests pronto? - disse-lhe eu.
  - Sim, respondeu ele, e fizemos ambos fogo ao mesmo tempo.
Sexta-feira de tal forma me tinha excedido na pontaria que
matou dois e feriu trs, enquanto eu s feri dois e matei um.
Pode imaginar-se em que estado de consternao ficaram os
outros: todos os que no estavam feridos, levantaram-se
precipitadamente, sem saber de que lado fugir para evitar um
perigo cuja causa desconheciam.
  Sexta-feira entretanto tinha os olhos fixos em mim para
observar e imitar os meus movimentos. Depois de ver o efeito
produzido pela primeira descarga, larguei o mosquete para
agarrar a espingarda de caa, e ele fez a mesma coisa.


                                 164  165


  Fez pontaria como eu.
  - Ests pronto? - disse-lhe eu outra vez, e quando ele me
disse que sim, tornei:
  - Ento fogo!
  Ao mesmo tempo atirmos para o grupo aterrado, e, como as
nossas armas tinham apenas um chumbo to grosso como pequenas
balas de pistola, s caram dois; mas tantos feridos fez, que
os vimos correndo de um lado para o outro, cobertos de sangue,
e pouco depois caram trs semimortos.
  Largando as armas descarregadas, agarrei o meu segundo
mosquete, e ordenei a Sexta-feira que me seguisse, o que ele
fez com muita intrepidez. Apareci bruscamente seguido de
Sexta-feira e, logo que estive a descoberto, dei um grande
grito, que ele repetiu; em seguida desatei a correr com toda a
velocidade permitida pelo peso das armas que levava, para a
pobre vtima estendida no solo, entre o lugar do banquete e o
mar. Os carniceiros, que iam exercer a mesma arte neste
desgraado, abandonaram-no  nossa primeira descarga, e,
fugindo com um terror enorme, tinham-se lanado nas canoas,
seguidos por trs outros. Gritei a Sexta-feira que corresse
naquela direco e fizesse fogo. Ouviu-me logo e, avanando
cem passos para eles descarregou. Ao princpio pensei que
matara todos, vendo-os cair uns sobre os outros; mas depressa
vi dois em p outra vez; afinal Sexta-feira matara dois, e
ferira to gravemente um terceiro que caiu como morto no fundo
da canoa.
  Enquanto o meu selvagem se empregava assim na destruio dos
meus inimigos, cortei com a minha faca os laos que prendiam o
pobre prisioneiro e, pondo em liberdade os seus ps e as suas
mos sentei-o e perguntei-lhe em portugus quem ele era.
Respondeu-me em latim Christianus; mas vendo-o to fraco que
tinha dificuldade em se conservar de p e em falar, dei-lhe a
minha botija, e fiz-lhe sinal que bebesse.
  Bebeu, e comeu um bocado de po, que eu igualmente lhe dera.
  Depois de ter voltado a si, deu-me a entender que era
espanhol e me estava agradecidssimo pelo importante servio
que eu acabava de lhe prestar: servi-me de todo o espanhol que
conhecia, e disse-lhe:
  - Senhor, falaremos depois: mas agora  preciso combater: se
lhe restam algumas foras, pegue nesta pistola e nesta espada,
e faa bom uso delas.
  Pegou nelas reconhecido, e parecia que essas armas lhe
restituam todo o seu vigor.


                           166  167


  Caiu imediatamente sobre os inimigos como uma fria, e num
instante deu cabo de dois  espadeirada -  verdade que no se
defendiam.
  Estes pobres brbaros estavam to assustados com o rudo das
nossas espingardas, que j no eram capazes de pensar na sua
conservao, como se a sua carne no fosse para resistir s
nossas balas. Notara isso, quando Sexta-feira fizera fogo
sobre aqueles que estavam no barco, de que uns tinham sido
derrubados pelo medo, assim como os outros pelas feridas.
  Continuava a estar com a minha espingarda na mo, sem a
disparar, para no ficar desarmado.
  Era tudo o que tinha para me defender, porque dera a minha
pistola e a minha espada ao espanhol.
  Ordenei contudo a Sexta-feira que voltasse ao stio onde
tnhamos comeado o combate, e que de l trouxesse as minhas
armas descarregadas; o que ele fez com grande rapidez.
Enquanto eu estava ocupado em carreg-las de novo, vi um
combate muito encarniado entre o espanhol e um dos selvagens
que se precipitara sobre ele com uma dessas espadas de madeira
que podia ter servido para lhe tirar a vida, se eu no tivesse
impedido.
  O espanhol que, apesar de fraco, era to valente e to
atrevido como  possvel s-lo, tinha j combatido o ndio
durante algum tempo, e fizera-lhe duas feridas na cabea,
quando o outro, tendo-o agarrado pelo meio do corpo, o lanou
por terra, e fez todos os esforos para lhe arrancar a espada.
O espanhol no perdeu o sangue-frio nessa ocasio; deixou
sabiamente a espada, pegou na pistola, e matou o seu inimigo
imediatamente.
  Sexta-feira, que j no estava ao alcance de receber as
minhas ordens, vendo-se em plena liberdade, perseguiu os
outros selvagens com o seu machado, dando cabo de trs
daqueles que tinham sido derrubados pelas nossas descargas e
todos os outros que pde apanhar.
  Por outro lado, o espanhol, tendo pegado numa das minhas
espingardas, ps-se em perseguio de outros dois, a quem
feriu; mas como no tinha fora para correr, safaram-se para o
bosque, onde Sexta-feira ainda matou um deles: o outro, que
era de uma agilidade extrema, escapou-se, deitando-se ao mar,
e alcanou a nado o barco onde estavam trs dos seus
camaradas, dos quais um, como j disse, estava ferido: estes
quatro foram os nicos de todo o bando que se escaparam das
nossas mos.
  Aqueles que estavam no barco faziam fora de remos para se
pr fora do alcance da espingarda.
  Sexta-feira desejava muito que nos metssemos num barco e
lhes dssemos caa.
  No deixava de ter razo: era muito para recear, se
escapassem, que fizessem a narrao da sua triste aventura aos
seus compatriotas, e que eles voltassem com algumas centenas
de barcos para nos acabrunhar com o nmero. Consenti pois
nisso; lancei-me num dos seus barcos, mandando Sexta-feira que
me seguisse; mas fiquei muito surpreendido ao ver nele um
terceiro prisioneiro amarrado da mesma forma que o espanhol, e
quase morto de medo, no tendo sabido o que se passava; estava
de tal modo amarrado, que lhe era impossvel levantar a
cabea, e apenas lhe restava um sopro de vida.
  Cortei-lhe primeiro as cordas que tanto o incomodavam;
esforcei-me em levant-lo, mas ele no tinha foras de se ter
em p ou de falar. Deu somente gritos surdos, mas lamentveis,
receando certamente que o desamarrassem para lhe tirar a vida.
  Assim que Sexta-feira entrou no barco, disse-lhe que o
sossegasse a respeito da sua liberdade, e que lhe desse um
gole de rum: o que, junto  boa notcia que no esperava, o
fez reviver e lhe deu bastante fora para se tornar senhor de
si.
  Alguns minutos depois de Sexta-feira o ter olhado bem e
ouvido falar, era uma coisa de fazer chegar lgrimas aos olhos
do homem mais insensvel, v-lo beijar, abraar esse selvagem;
v-lo chorar, rir, saltar, danar em roda, depois torcer as
mos, bater na cara, e depois saltar, danar outra vez: enfim
proceder como se tivesse perdido o juzo. Durante alguns
instantes, no tinha fora para me explicar a causa de tantos
movimentos opostos; mas ao voltar um pouco a si, disse-me que
esse selvagem era seu pai.
  -me impossvel exprimir at que ponto me comoveram os
transportes que o amor filial produziu no corao desse pobre
rapaz, ao ver o pai salvo das mos dos seus carrascos.
  -me tambm difcil pintar todas as ternas extravagncias em
que esse espectculo o lanara: ora entrava no barco, ora saa
dele, ora entrava outra vez, assentava-se ao p do pai, e para
o aquecer tinha-lhe a cabea apertada contra o seu peito
durante horas inteiras; pegava-lhe nas mos e nos ps
inteiriados pela fora com que tinham estado ligados, e
tratava de os amolecer esfregando-os. Vendo qual era o seu
fim, dei-lhe o meu rum, para tornar essa esfregadela mais
til, o que fez muito bem ao pobre velho.
  Este incidente fez-nos esquecer a perseguio do barco dos
selvagens, que j estava fora do alcance da nossa vista,


                                 168  169


o que foi uma felicidade para ns, porque duas horas depois,
quando eles ainda no podiam ter andado um quarto de caminho,
levantou-se um vento terrvel que durou toda a noite e, como
vinha do nordeste e lhes era contrrio, no me pareceu de
forma alguma possvel que eles pudessem alcanar as costas do
seu pas.


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                              XXVI


                              ROBINSON CONCEBE A ESPERANA DE
                              SAIR DA SUA ILHA


  Sexta-feira estava de tal forma ocupado com o seu pai, que
durante muito tempo no tive nimo de o distrair; mas quando
julguei que ele tinha satisfeito suficientemente os seus
transportes, chamei-o. Veio ter comigo a saltar, rindo e
mostrando a mais viva alegria.
  Dei-lhe um pastel de cevada, que tinha na algibeira,
juntei-lhe uma gota de rum para ele mesmo. No s no provou,
mas foi levar tudo a seu pai, com uma mo-cheia de uvas secas,
que eu lhe dera para esse bom homem.
  Um momento depois, vi-o sair do barco e ps-se a correr para
a minha habitao com tal rapidez, que num instante o perdi de
vista; porque era o rapaz mais hbil e ligeiro que em dias da
minha vida... Fartei-me de gritar, no me ouvia; um quarto de
hora depois vi-o voltar com menos ligeireza porque trazia
alguma coisa.
  Era um vaso cheio de gua fresca e alguns pedaos de po que
me deu: quanto  gua, levou-a a seu pai depois de eu ter
bebido um gole para matar a sede.
  A gua reanimou completamente o pobre velho, e fez-lhe
melhor que todo o licor forte que tinha tomado, porque ele
morria de sede.
  Quando acabou de beber, e como ainda deixara gua, ordenei a
Sexta-feira que a levasse ao espanhol com um dos pastis que
ele fora buscar. O espanhol estava extremamente fraco e
deitara-se na erva  sombra de uma rvore: levantou-se todavia
para comer e beber, e eu mesmo me aproximei dele para lhe dar
uma mo-cheia de uvas.
  Olhou para mim ternamente e cheio do mais vivo
reconhecimento;


                                    171


mas estava to fraco, apesar de mostrar tanto vigor no
combate, que no podia ter-se nas pernas; tentou-o duas ou
trs vezes, mas em vo; os seus ps, inchados prodigiosamente
 fora de estarem amarrados, causavam-lhe muitas dores. Para
o aliviar, ordenei a Sexta-feira que lhos esfregasse com rum,
como fizera a seu pai.
  Posto que o meu pobre selvagem tivesse satisfeito este dever
com afecto, no podia deixar de vez em quando de olhar para o
pai para ver se estava no mesmo lugar e na mesma posio. Uma
entre outras, no o vendo, levantou-se com precipitao, e
correu para esse lado com tanta pressa que era difcil ver se
os ps tocavam o cho; mas ao entrar no barco, viu que nada
tinha a recear, que seu pai estava deitado s para descansar.
  Logo que o vi de volta, pedi ao espanhol que deixasse
Sexta-feira ajud-lo a levantar-se e a conduzi-lo para o
barco, para dali o levar para a minha habitao, onde cuidaria
dele o melhor possvel. O meu selvagem no esperou que o
espanhol fizesse o menor esforo; como era to robusto como
gil, carregou com ele s costas, levou-o at ao barco, e
f-lo sentar num dos bordos; em seguida colocou-o ao p do
pai; depois saindo do barco, lanou-o  gua, e, posto que
fizesse muito vento, f-lo seguir perto da praia mais depressa
do que eu era capaz de andar. Depois de o ter feito entrar na
baa, ps-se de novo a correr para ir buscar o outro barco dos
selvagens que nos ficara, e l chegou com esse barco to
depressa como eu, que viera por terra. Fez-me passar a baa, e
depois ajudou os nossos novos companheiros a sair do barco
onde estavam, mas no se achavam nem um nem outro em estado de
andar, de maneira que Sexta-feira no sabia o que havia de
fazer.
  Depois de ter meditado sobre os meios de remediar esse
inconveniente, pedi ao meu selvagem que se sentasse e
descansasse e, quanto a mim, pus-me a fazer uma espcie de
maca; pusemos os dois nela, e levmo-los at ao nosso
entrincheiramento exterior: mas eis-nos agora num maior
embarao. No tinha vontade alguma de escangalhar essa
trincheira, e no via meio de os fazer passar por cima. O
nico partido que tinha a tomar era trabalhar de novo; e, com
a ajuda de Sexta-feira levantei em menos de duas horas uma
linda barraca coberta de ramada e velas velhas, entre o meu
entrincheiramento exterior e o bosque que eu tivera o cuidado
de plantar a alguns passos dali.
  Nesta cabana, fiz-lhes dois leitos com algumas medas de
palha, em cada um dos quais pus dois cobertores, um para
debaixo e outro para os cobrir.
  Ora aqui est a minha ilha povoada; julgava-me rico em
vassalos, e era uma ideia muito satisfatria para mim
considerar-me aqui como um pequeno monarca; toda esta ilha era
domnio meu por ttulos incontestveis. Os meus vassalos
estavam-me perfeitamente sujeitos; era o seu legislador e o
seu soberano senhor. Deviam-me todos a vida, e estavam todos
prontos a arrisc-la por mim logo que se oferecesse ocasio.
  Assim que eu alojei os meus dois novos companheiros, pensei
em restabelecer as suas foras com uma boa refeio.
  Mandei Sexta-feira buscar de entre o meu rebanho domesticado
um cabrito de um ano; cortei-o em bocados pequenos, fi-los
cozer e assar, e asseguro-Lhes que servi aos meus vassalos um
bom prato de carne e de caldo, onde eu deitara cevada e arroz.
Levei tudo para a nova barraca e, tendo servido, pus-me  mesa
com os meus novos hspedes a quem regalei e animei o melhor
possvel, servindo-me de Sexta-feira como intrprete, no s
junto do pai, mas tambm junto do espanhol, que falava muito
bem a lngua dos selvagens. Depois de ter jantado - ou melhor,
ceado - ordenei ao meu escravo que se metesse num dos barcos e
fosse buscar as armas de fogo, que tnhamos deixado no campo
de batalha, e no dia seguinte disse-lhe que sepultasse os
mortos e enterrasse ao mesmo tempo os terrveis restos do
festim, que estavam espalhados em grande quantidade pela
praia. Estava to longe de eu prprio o fazer, que no podia
pensar nisso sem horror, e que desviava os olhos da quando
era obrigado a passar por esse stio. Quanto ao meu selvagem,
desempenhou-se to bem disso, que no se via, nem por sombras,
sinal do combate e do festim, e eu no teria podido reconhecer
o meu lugar, se no fosse a ponta do bosque que se adiantava
para esse lado.
  Julguei que era tempo de entrar em conversao com os meus
novos vassalos. Comecei pelo pai de Sexta-feira a quem
perguntei o que pensava dos selvagens que se tinham safado, e
se devamos recear a sua volta a esta ilha com foras capazes
de nos esmagar. O seu pensamento era de que no havia
aparncia alguma de que eles tivessem podido resistir 
tempestade, e que tinham perecido todos, a no ser que
tivessem sido levados para o lado sul, para certas costas onde
seriam devorados indubitavelmente.
  A respeito do que poderia acontecer no caso de os selvagens
terem sido bastante felizes para chegar  sua praia, disse-me
que os julgava to aterrados pela maneira como tinham sido
atacados, to atordoados pelo fogo e pelo rudo das nossas


                                 172  173


armas, que no deixariam de contar ao seu povo que os seus
companheiros tinham sido mortos pelo raio e pelo trovo e que
os dois inimigos que lhes tinham aparecido eram certamente
espritos descidos do cu para destru-los. Estava confirmado
nessa opinio porque ouvira dizer aos fugitivos que no podiam
compreender que homens pudessem assoprar raios, falar troves
e matar a to grande distncia, sem levantar sequer a mo.
  Este velho selvagem tinha razo; porque soube depois que os
que se tinham safado no barco tinham voltado para suas casas,
e tinham dado um tal espanto aos seus companheiros que ficaram
imaginando que todo aquele que ousasse aproximar-se desta ilha
encantada seria destrudo pelo fogo do cu: pode julgar-se se
foram bastante atrevidos para a tal se exporem. Mas como ento
me eram desconhecidas essas circunstncias, fiquei durante
algum tempo com apreenses contnuas, que me obrigaram a estar
em guarda e a ter as minhas tropas em armas. ramos ento
quatro, e eu no receava defrontar um cento dos nossos
inimigos em campo raso.
  Contudo, no fim de bastante tempo, no vendo chegar um nico
barco  minha praia, os meus terrores apaziguaram-se, e
comecei a deliberar sobre a minha viagem ao continente, onde o
pai de Sexta-feira me assegurava que seria bem recebido pelos
selvagens da sua tribo, por amor dele.
  A execuo do meu desgnio ficou um pouco suspensa por uma
conversa muito sria que tive com o espanhol. Disse-me ele que
deixara no continente outros dezasseis cristos, tanto
espanhis como portugueses; tinham naufragado mas salvaram-se
e chegaram a essas costas; l viviam em paz com os selvagens,
mas mal lhes chegavam os vveres para no morrer de fome.
Pedi-Lhe todas as particularidades da sua viagem, e soube que
tinham tripulado um navio espanhol que ia do Rio da Prata para
Havana, para l levar peles e dinheiro, para se carregar de
todas as mercadorias europeias que l pudessem achar; que
tendo naufragado, se tinham salvo atravs de uma infinidade de
perigos, na praia dos canibais, com receio de serem devorados
assim que fossem avistados. Mas essa tribo era menos feroz do
que as outras e deixara-os em paz: l viviam, com falta de
tudo, e expostos a morrer de fome. Contou-me ainda que tinham
algumas armas consigo, mas que Lhes eram absolutamente inteis
por falta de balas e de plvora, de que tinham salvo uma
pequenssima quantidade que consumiram nos primeiros dias do
seu desembarque, indo caar.
  - Mas o que faro eles? Nunca tentaram sair de l?
 Respondeu-me que tinham pensado nisso mais de uma vez, mas
sem navios e sem instrumentos necessrios para construir um,
sem proviso alguma, todas as suas deliberaes tinham
terminado com lgrimas e desespero.
  Perguntei-lhe de que maneira julgava ele que os seus
companheiros pudessem receber uma proposta da minha parte,
tendente ao seu libertamento, e se no julgava que fosse fcil
de executar, no caso de todos eles poderem vir para a minha
ilha.
  - Mas - acrescentei ainda -, confesso-Lhe francamente que
receio muito uma traio  sua moda. A gratido no  uma
virtude muito familiar aos homens, que, de ordinrio, orientam
o seu modo de aco menos pelos servios que receberam, do que
pelas vantagens que podem esperar.
  Seria para mim uma coisa bem dura - continuei -, se, em paga
de ter sido o instrumento da sua liberdade, eles me levavam
como seu prisioneiro  Nova Espanha, onde todo o ingls, seja
o que for que Lhe acontecer, no deve esperar seno o mais
cruel destino.
  Sem esta dificuldade - acrescentei eu ainda -, julgaria o
meu desgnio muito fcil, e se eles se achassem todos aqui,
poder-se-ia facilmente construir um navio bastante grande para
nos levar a todos ou para o sul para o Brasil, ou para o norte
para as ilhas espanholas.
  Depois de ter escutado muito atentamente o meu discurso, o
espanhol respondeu-me com ar de candura que os seus
companheiros sentiam com tanta vivacidade tudo o que havia de
miservel na sua situao, que estava certo que se
horrorizariam s com o pensamento de maltratar um homem que
contribusse para livr-los.
  - Se quer - continuou ele -, irei ter com eles e com o velho
selvagem, comunicar-lhes-ei a sua inteno, e trar-Lhe-ei a
resposta: no entrarei em tratado com eles, sem que me
asseverem cumpri-lo com os mais solenes juramentos. Quero
estipular que o ho-de reconhecer por seu comandante e
f-los-ei jurar pelos sacramentos e pelo Evangelho, que o
ho-de seguir a qualquer pas cristo que o senhor achar
melhor, e obedecer-lhe exactamente, at que l cheguemos;
conto mesmo trazer-lhe a esse respeito um contrato formal,
assinado por todos eles.
  Para me dar mais confiana, props-me prestar ele mesmo
juramento antes da sua partida, e jurou-me que no me deixaria
sem ordem minha, e que me defenderia at  ltima gota de
sangue, caso os seus compatriotas fossem to covardes


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que faltassem s suas promessas.
  Alm disso, asseverou-me que eram todos honrados, que
estavam reduzidos  mais miservel condio por falta de armas
e fatos, e no tendo outros vveres seno os que Lhe fornecia
a piedade dos selvagens; que no tinham esperana de tornar a
ver a sua ptria, e se eu quisesse acabar as suas desgraas
eram gente para viver e morrer comigo.
   vista do que o espanhol me dizia, resolvi trabalhar para a
sua felicidade, e enviar para tratar com eles o espanhol com o
velho selvagem. Mas quando tudo estava pronto para a partida,
o meu espanhol levantou-me ele mesmo uma dificuldade em que
achei tanta prudncia e sinceridade, que fiquei muito
satisfeito com ele, e segui o conselho que me deu de
transferir esse negcio para dali a cinco ou seis meses. Eis o
facto.
  Havia j um ms que ele estava connosco, e eu mostrara-lhe
j todas as provises juntas com a ajuda da Providncia. Ele
compreendia perfeitamente que o que eu juntara de trigo e
arroz, ainda que suficiente para mim mesmo, no bastava para a
minha nova famlia, a no ser com uma extrema economia, bem
longe de poder acudir s necessidades dos seus camaradas, que
eram ainda em nmero de dezasseis. Alm disso era preciso uma
boa quantidade para abastecer o navio que eu queria construir
a fim de passar para qualquer colnia crist, e a sua opinio
era de roar outros campos, semear neles toda a semente que eu
pudesse arranjar, e esperar uma nova colheita antes de mandar
vir os seus companheiros.
  - A dieta, disse-me ele, poderia lev-los  revolta,
fazendo-lhes ver que saram duma desgraa para cair noutra.
  Pareceu-me to razovel este conselho que me decidi a
segui-lo. Pusemo-nos pois, todos quatro a trabalhar a terra,
tanto quanto os nossos instrumentos de madeira no-lo
permitiam; e, no espao de um ms, tendo chegado o tempo de
semear as terras, tnhamos cultivado bastante para nela semear
vinte e dois alqueires de cevada e seis de arroz; era toda a
sementeira que podamos poupar. Pouco nos ficou para viver
durante os seis meses que deviam decorrer antes da prxima
colheita; porque a semente est seis meses na terra nesse
pas. , Sendo ento bastante fortes para nada recear dos
selvagens, a no ser que viessem em grande nmero, passevamos
por toda a ilha sem inquietao alguma; e como todos tnhamos
o esprito cheio da nossa liberdade, era-me impossvel no
pensar nos meios de a alcanar. Entre outras coisas, marquei
muitas rvores que me pareciam prprias para o meu fim:
incumbi Sexta-feira e  seu pai de as cortar, e dei-lhes o
espanhol por inspector. Mostrei-lhes com que trabalho
infatigvel eu fizera tbuas de uma rvore muito espessa, e
ordenei-lhes que fizessem o mesmo.
  Fizeram-me uma dzia de boas tbuas de carvalho de pouco
mais ou menos dois ps de largura, trinta e cinco de
comprimento e da grossura de duas a quatro polegadas. Pode
compreender-se o trabalho enorme que tiveram para o conseguir.
  Pensava ao mesmo tempo aumentar o meu rebanho; umas vezes ia
 caa com Sexta-feira outras vezes mandava-o com o espanhol,
e desta maneira apanhmos vinte e dois cabritos que juntmos
ao nosso rebanho domesticado; porque quando nos acontecia
matar uma cabra, nunca deixvamos de guardar os filhos. Alm
disso, tendo chegado a estao de colher as uvas, fiz secar
uma to grande quantidade de cachos, que havia com que encher
mais de sessenta barris.
  Esta fruta fazia, com o nosso po, uma grande parte dos
nossos alimentos e posso asseverar-vos que  uma coisa
extraordinariamente nutritiva.
  Era ento o tempo da colheita, e o nosso gro achava-se em
muito bom estado: os vinte e dois alqueires de cevada que
tnhamos semeado produziram-nos duzentos e vinte, e o nosso
arroz multiplicara-se proporcionalmente; o que formava uma
proviso suficiente para ns e para os hspedes que
espervamos, at  nossa colheita prxima; ou ento se se
tratasse de fazer a viagem projectada, havia bastante para
atulhar abundantemente o navio, para qualquer lado da Amrica
para onde quisssemos dirigir o nosso rumo.
  Depois de termos apanhado os nossos gros, pusemo-nos a
trabalhar de cesteiro e a fazer quatro grandes cestos para
neles conservar a colheita. O espanhol era extremamente hbil
nessas espcies de trabalhos, e censurava-me muita vez por eu
no ter empregado essa arte a fazer o meu recinto e
entrincheiramento.
  Mas por felicidade a coisa no era necessria.
  Feitos todos esses preparativos, permiti ao espanhol passar
 terra firme para ver se havia alguma coisa a fazer com os
seus compatriotas; e dei-lhe uma ordem por escrito de no
trazer consigo um s homem sem o ter feito jurar na sua
presena e na do velho selvagem, que bem longe de atacar o
senhor da ilha, e de causar o menor dissabor a um homem que
tinha a bondade de trabalhar para a sua salvao, nada
desprezaria para o defender contra toda a espcie de
atentados, e que se submeteria inteiramente s suas ordens,
fossem elas quais fossem. Ordenei mais ao espanhol que me
trouxesse um tratado formal por escrito, assinado por todo o


                                 176  177


bando, sem pensar que, segundo todas as aparncias no tinham
papel nem tinta.
  Munido destas instrues, partiu com o velho selvagem no
mesmo barco que servira para os trazer  ilha para a serem
devorados pelos canibais seus inimigos. Dei a cada um deles um
mosquete e perto de oito cargas de plvora e balas,
dizendo-lhes que as economizassem e no as empregassem seno
em ocasies apertadas.
  Foram estas as primeiras medidas que tomei para a minha
liberdade depois de vinte e sete anos e alguns dias de
residncia nesta ilha. Tambm no desprezei precauo alguma;
dei aos viajantes uma proviso de po e uvas secas para muitos
dias; e uma outra proviso para oito dias destinadas aos
espanhis: combinei ainda com eles um sinal que deviam trazer
no barco  volta, para eu poder reconhec-los antes que
abordassem; e depois desejei-lhes uma feliz viagem.
  Partiram com vento fresco no tempo da lua cheia. Segundo os
meus clculos corria o ms de Outubro.


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                              XXVII



                              MARINHEIROS REVOLTADOS ABORDAM 
                              ILHA. ROBINSON CORRE EM AUXLIO
                              DO SEU CAPITo


  Esperava j havia oito dias a volta dos meus companheiros,
quando me aconteceu de improviso uma aventura que no tem
talvez outra igual em histria alguma. Era pela manh e ainda
estava a dormir, quando Sexta-feira veio ter comigo
precipitadamente, gritando:
  - Senhor, senhor, eles a esto, eles a esto!
  Levantei-me e, depois de me vestir, pus-me a atravessar o
meu bosque, j muito espesso, pensando to pouco na
possibilidade do perigo, que fui sem armas, fora do que era
costume; mas fiquei muito surpreendido ao ver, a lgua e meia
de distncia, um escaler com uma vela triangular, dirigindo-se
para o lado da minha praia, impelido por um vento favorvel.
Vi primeiramente que no vinha do lado directamente oposto 
minha praia, mas do lado sul da ilha. Disse ento a
Sexta-feira que no fizesse o menor movimento, pois no era a
gente que espervamos e no podamos saber ainda se eram
amigos ou inimigos.
  Para me certificar melhor, fui buscar o meu culo, e subi ao
alto do rochedo, como costumava fazer quando avistava alguma
coisa que desejava examinar sem me pr a descoberto.
  Mal pusera o p no alto da colina, vi claramente um navio
ancorado a pouco mais de duas lguas e meia, a sudoeste de
mim, e julguei reconhecer pela estrutura da embarcao que o
navio era ingls, assim como o escaler.
  No saberia exprimir as impresses confusas que essa vista
fez na minha imaginao. Apesar de ser extrema a minha alegria
ao ver um navio cuja tripulao era provavelmente da minha
nao, no deixava de sentir alguns movimentos secretos, cuja
causa ignorava, e me inspiravam circunspeco.
  No podia conceber que negcios podia ter um navio ingls


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nessa parte do Mundo, pois no era certamente o caminho de
algum dos pases onde os Ingleses estabeleceram o seu
comrcio; alm disso sabia que no houvera tempestade alguma
capaz de os arrastar  fora para esse lado, pelo que tinha
razo em acreditar que no tinham boas intenes e que mais
valia ficar na minha solido do que cair entre as mos de
ladres e assassinos.
  Em pouco pude ver distintamente o escaler aproximar-se da
praia, como se procurasse uma baa, para a comodidade do
desembarque; mas no descobrindo aquela de que tanta vez
falei, empurraram o escaler para sobre a areia, a distncia de
meio quarto de lgua de mim; fiquei satisfeito; porque se no
fosse isso teriam desembarcado exactamente diante da minha
porta, expulsar-me-iam certamente do meu palcio, e saqueariam
todo o meu bem.
  Quando saltaram em terra, reconheci que eram ingleses,
excepto um ou dois que tomei por holandeses, embora no o
fossem na realidade. Eram ao todo onze; mas trs no tinham
armas, e pareeu-me estarem amarrados. Logo que cinco ou seis
de entre eles tinham saltado em terra, fizeram sair esses trs
do escaler, como prisioneiros: vi um destes mostrar pelos seus
gestos uma aflio que ia at  extravagncia; os outros dois
levantavam s vezes as mos ao cu, e pareciam muito aflitos,
mas a sua dor parecia mais moderada.
  Enquanto eu estava incerto, sem conceber o que significava
tal espectculo, Sexta-feira exclamou no seu mau ingls:
  -  mestre, v homens ingleses comer prisioneiros to bem
como homens selvagens; v, eles quer-los comer!
  - No, no, Sexta-feira, - disse eu: receio que os matem,
mas est certo que no os comem.
  Tremia, contudo, e estava penetrado de horror ao ver tal; a
cada momento esperava v-los assassinar; vi at um desses
celerados levantar uma grande espada para ferir um desses
desgraados, e julguei que o ia ver cair por terra, o que me
gelou todo o sangue nas veias.
  Nestas circunstncias, lamentava extremamente o meu espanhol
e o meu velho selvagem, e desejava muito poder apanhar esses
indignos ingleses sem ser visto, ao alcance da espingarda,
para livrar os prisioneiros das suas mos cruis, porque eu
no Lhes via armas de fogo; mas aprouve  Providncia fazer-me
conseguir o meu desgnio desta maneira.
  Enquanto esses insolentes marinheiros andavam por toda a
ilha, como se quisessem explorar o seu interior, notei que os
trs prisioneiros estavam em liberdade para ir onde quisessem;
mas  no tiveram nimo; sentaram-se no cho com ar pensativo e
desesperado.
  A mar estava justamente cheia quando esses marotos
desembarcaram; e seja falando aos prisioneiros, como andando
por todos os cantos da ilha, tinham-se entretido at que o
mar, vasando, deixou o escaler em seco.
  Tinham a deixado dois homens que,  fora de beber
aguardente, haviam adormecido: contudo, um, acordando mais
cedo que o seu camarada e encontrando o escaler muito
enterrado na areia para que pudesse tir-lo sozinho, chamou os
outros aos gritos; mas no tiveram bastante fora todos juntos
para o tirarem de l, porque era extremamente pesado, e desse
lado a praia no era seno uma areia movedia.
  Vendo esta dificuldade, como verdadeiros homens do mar, isto
, os mais negligentes de todos os homens, resolveram no
pensar mais nisso, e puseram-se a percorrer a ilha. Ouvi um
que chamava um dos seus camaradas para o fazer vir a terra:
"Oh! John - gritou ele -, deixa-o sossegado; a mar prxima o
por a nado.
  Este discurso confirmou-me ainda na opinio de que eram
compatriotas meus.
  Durante este tempo conservei-me no recinto do meu castelo,
sem ir mais longe do que o observatrio, e dei por bem
empregado o trabalho e a prudncia que tivera em fortificar
to bem a minha habitao; sabia que o escaler no podia
flutuar antes das dez horas da noite, pois com o escuro
poderia observar as suas manchas com toda a segurana.
  Enquanto esperava, preparava-me para o combate, mas com mais
precauo do que nunca, persuadido de que tinha de me haver
com inimigos de espcie diferente da dos antigos.
  Ordenei a Sexta-feira que fizesse o mesmo, e tinha grande
confiana nele, pois atirava com uma justeza espantosa;
dei-lhe trs mosquetes, e tomei eu mesmo duas espingardas. A
minha fisionomia era terrvel, tinha na cabea o meu terrvel
barrete de pele de cabra; ao lado pendia a minha espada
desembainhada, e trazia duas pistolas  cinta e uma espingarda
em cada ombro.
  O meu desgnio era de nada empreender antes da noite, mas,
pelas duas horas, no mais quente do dia, vi que os marinheiros
tinham ido todos para o bosque, aparentemente para nele
descansarem; e ainda que os prisioneiros no estivessem em
disposio de dormir, vi-os deitar-se  sombra de uma grande
rvore bastante perto de mim, e fora da vista dos outros.
  Resolvi ento mostrar-me a eles para saber a sua situao,


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e logo me pus em marcha, com Sexta-feira atrs de mim, armado
to formidavelmente como eu, mas no parecendo contudo um
espectro.
  Assim que me aproximei deles, sem ser visto, o mais que me
foi possvel, disse-Lhes em voz alta em espanhol:
  - Quem so os senhores?
  No responderam nada, e vi-os disporem-se a fugir, quando me
pus a falar em ingls:
  - Senhores no tenham medo; talvez encontrassem aqui um
amigo, sem esperar.
  -  preciso que nos tenha sido enviado pelo Cu - respondeu
com modo grave um deles, com o chapu na mo. - Porque as
nossas desgraas esto acima de todo o socorro humano.
  - Todo o socorro vem do Cu, senhor, - disse-Lhe eu; - mas
no quer ensinar a um estrangeiro o meio de os socorrer?
Porque parecem acabrunhados com uma grande aflio; vi-os
desembarcar, e quando conversavam com os brutos que os
trouxeram aqui vi um deles desembainhar a espada e parecia
querer mat-lo.
  O pobre homem, trmulo, e com os olhos cheios de lgrimas,
replicou-me com ar espantado:
  - Falo a um homem ou a um anjo?
  - No tenha dvida alguma a esse respeito, senhor -
disse-lhe eu -, se Deus enviasse um anjo em seu auxlio,
apareceria aos seus olhos com melhores vestes e com outras
armas. Sou realmente um homem, sou mesmo um ingls, e todo
disposto a ajud-los. Comigo tenho apenas um escravo; temos
armas e munies: digam livremente se podemos ajud-los, e
expliquem-me a natureza das vossas desgraas.
  - Ai!, senhor - disse ele -, a narrativa  muito longa para
lhe ser feita enquanto os nossos inimigos esto to prximos.
Bastar que lhes diga que fui comandante do navio que alm
vem; os meus marinheiros revoltaram-se contra mim; pouco
faltou para me matarem; mas  quase o mesmo o que querem
fazer-me,  abandonar-me neste deserto com estes dois homens,
um dos quais  o meu contramestre, e o outro um passageiro.
Espervamos morrer aqui em poucos dias, julgando a ilha
deserta e desabitada, e ainda no estamos sossegados sobre
esse ponto.
  - Mas o que  feito desses patifes?
  - Esto ali deitados - respondeu ele - mostrando com o dedo
uma acumulao muito espessa de rvores; tremo de medo que nos
tenham ouvido falar; se ouviram, matam-nos a todos com
certeza.
  Perguntei-lhe ento se os tratantes tinham armas de fogo e
soube que no tinham consigo seno duas espingardas, e que
tinham deixado uma no escaler.
  - Deixem-me pois manobrar - respondi eu -, esto todos a
dormir: nada mais fcil do que mat-los, a no ser que prefira
faz-los prisioneiros.
  Contou-me ento que havia entre eles dois tratantes, de quem
no havia a esperar nada de bom, e que, se os pusessem em
estado de no fazer mal, julgava que o resto facilmente
voltaria ao seu dever; acrescentou que no podia indicarmos de
to longe, e que estava pronto a seguir as minhas ordens em
tudo.
  - Pois bem! - disse eu -, comecemos por nos afastar daqui,
para que nos no avistem se despertarem, e sigam-me para um
lugar onde poderemos deliberar  nossa vontade.
  Depois de nos abrigarmos no bosque:
  - Escute pois, senhor - disse-lhe eu -, quero aventurar tudo
para a sua salvao, contando que me concedam duas condies.
  Interrompeu-me para me asseverar que, se eu Lhe restitusse
a sua liberdade e o seu navio, empregaria um e outro em me
testemunhar o seu reconhecimento e que, se eu no pudesse
restituir-lhe seno o primeiro desses dois servios, estava
resolvido a viver e a morrer comigo em qualquer parte do Mundo
para onde eu quisesse lev-lo. Os seus dois companheiros
fizeram-me as mesmas asseres.
  - Ouam as minhas condies, - disse-lhes eu novamente, -
so s duas.
  1, Enquanto estiverem nesta ilha comigo, renunciaro a toda
a espcie de autoridade e, se eu lhes puser as armas nas mos,
restituir-mas-o logo que eu as pedir: obedecero
completamente s minhas ordens, sem nunca pensarem em me
causar o menor prejuzo; 2, Se conseguirmos retomar o navio,
levar-me-o a Inglaterra com o meu escravo, sem me pedirem
nada pela passagem.
  Prometeu-mo com as expresses mais fortes que um corao
reconhecido pode ditar.
  Dei-lhes ento trs mosquetes com balas e plvora, e
perguntei ao capito de que maneira achava melhor dirigir esta
empresa. Disse que se contentaria em seguir exactamente as
minhas ordens, e que me deixava de boa vontade toda a direco
do negcio. Respondi-lhe que me parecia bastante espinhoso,
mas o melhor partido era, no meu entender, fazer fogo sobre
todos eles ao mesmo tempo enquanto estavam deitados e se
algum, escapando  nossa primeira descarga, quisesse
render-se, poderamos salvar-lhe a vida.


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  Replicou-me com muita moderao, que lhe custaria mat-los
se houvesse meio de fazer de outro modo.
  - Mas quanto a esses dois celerados de que lhe falei -
continuou -, e que foram os autores da revolta, se nos
escapam, estamos perdidos certamente; traro consigo toda a
tripulao para nos exterminar.
  - Sendo assim - repliquei eu -, voltemos  minha primeira
opinio: uma necessidade absoluta torna a aco legtima.
  Contudo, vendo-lhe sempre averso para derramar tanto
sangue, disse-lhe que fosse e tomasse a dianteira com os seus
companheiros, e procedesse segundo as circunstncias. No meio
desta conversa, vimos levantarem-se dois e retirarem-se dali;
perguntei ao capito se eram os chefes da rebelio, dos quais
me falara. Disse-me que no.
  - Ento, bem! - disse-lhe eu -, deixemos escap-los, pois a
Providncia parece t-los acordado expressamente para Lhes
salvar a vida; quanto aos outros, se no forem salvos,  por
culpa sua.
  Animado por estas palavras, avana para os tratantes, com um
mosquete no brao e uma das minhas pistolas  cinta.
  Os seus dois companheiros, adiantando-se-lhe alguns passos,
fazem primeiramente um pouco de rudo, que acorda um dos
marinheiros.
  Aquele pe-se a gritar para acordar os seus camaradas; mas
ao mesmo tempo fazem ambos fogo, guardando o capito o seu
tiro com muita prudncia e visando com toda a justeza possvel
o chefe dos revoltosos, matam logo um. O outro apesar de
perigosamente ferido levanta-se com precipitao, pe-se a
gritar por socorro; mas o capito vai ter com ele, dizendo-lhe
que j no era tempo de pedir socorro, e que s tinha tempo de
pedir a Deus que perdoasse a sua traio; e d cabo dele com
uma coronhada.
  Restavam ainda trs, dos quais um estava ligeiramente
ferido; mas vendo-me chegar, e sentindo que lhes era
impossvel resistir, pediram quartel. O capito consentiu, com
a condio que lhe mostrariam o horror que deveriam ter do seu
crime, ajudando-o fielmente a recuperar o seu navio e a
reconduzi-lo  Jamaica, de onde vinha.
  Deram-lhe todas as asseveraes que ele podia desejar do seu
arrependimento e da sua boa vontade, e resolveu salvar-lhes a
vida, o que no reprovei; obriguei-o somente a conserv-los de
ps e mos atados enquanto estivessem na ilha.
  Neste intervalo mandei Sexta-feira com o contramestre para o
escaler, com ordem de o pr em segurana e de lhe tirar os
remos  e as velas, o que eles fizeram; ao mesmo tempo os trs
marinheiros que, para sua felicidade se tinham afastado do
bando, voltaram devido ao rudo dos mosquetes e, vendo o seu
capito, de prisioneiro tornado vencedor, submeteram-se a ele,
e consentiram em deixar-se amarrar como os outros.
  Vendo ento todos os nossos inimigos fora de combate, tive
tempo de fazer ao capito a narrativa de todas as minhas
aventuras: escutou-a com uma ateno que ia ao xtase,
sobretudo a maneira miraculosa como eu fora fornecido de
munies e vveres. Como toda a minha histria  um tecido de
prodgios, muito o impressionou. Mas quando comeava a
reflectir sobre a sua prpria sorte e a considerar que a
Providncia no parecia ter-me conservado seno para lhe
salvar a vida, estava to comovido, que derramava uma torrente
de lgrimas, e era incapaz de pronunciar uma s palavra.
  Tendo acabado a nossa conversao, levei-o com os seus dois
companheiros ao meu castelo, e dei-lhes todos os refrescos que
podia agora fornecer.



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                              XXVIII


                              O CAPITO, COM A AJUDA DE
                         ROBINSON, REASSUME O COMANDO DO
                         SEU NAVIO


  Disse ao capito que era preciso desde j pensar nos meios
de nos assenhorearmos do navio, mas ele confessou no saber
que medidas tomar.
  - H ainda - disse ele -, vinte e seis homens a bordo que,
sabendo que pela sua conspirao merecem perder a vida,
obstinar-se-o por desespero, porque esto persuadidos
certamente que, no caso de se renderem, sero enforcados logo
que cheguem a Inglaterra ou a qualquer das suas colnias: qual
o meio, pois, de os atacar com um nmero to inferior ao seu?
  Achei este raciocnio muito justo, e vi que nada havia a
fazer, a no ser preparar alguma armadilha  tripulao e pelo
menos impedi-la de desembarcar e fazer-nos perecer.
  Estava certo que dentro em pouco a gente do navio, espantada
com a demora dos seus camaradas, lanaria o outro escaler ao
mar para ver o que fora feito deles, e eu receava que viessem
armados em nmero grande demais para podermos resistir.
  Disse ento ao capito que a primeira coisa que tnhamos a
fazer era meter a pique o escaler, a fim de que no pudessem
lev-lo, o que ele aprovou. Pusemos pois mos  obra;
comemos por tirar do escaler o que nele restava, isto , uma
garrafa de aguardente e uma outra cheia de rum, alguns
biscoitos, um saco cheio de plvora, e um po de acar de
perto de seis libras, enrolado num pedao de pano.
  Este achado era-me muito agradvel, e sobretudo a aguardente
e o acar a que tivera mais que tempo de esquecer o sabor.
  Depois de ter levado tudo isso para terra, fizemos um grande
buraco no fundo do escaler, a fim de que, se eles
desembarcassem em nmero bastante grande para nos serem
superiores, no pudessem todavia fazer uso desse barco e
lev-lo.
  A dizer a verdade, j no pensava seriamente em recuperar o
navio; o meu nico fim era, no caso de que eles partissem
deixando-nos o escaler, consert-lo e p-lo em estado de nos
levar aos nossos amigos espanhis.
  No contente por ter feito no escaler um buraco bastante
grande para no poder ser tapado com facilidade, empregmos
todas as nossas foras a empurr-lo bastante para dentro da
praia, para que nem a prpria mar pudesse p-lo a flutuar.
Mas, no meio desta penosa ocupao, ouvimos um tiro de pea, e
vimos ao mesmo tempo no navio o sinal usual para fazer o
escaler regressar a bordo; mas bem se podiam cansar a fazer
sinais e a redobrar os tiros de pea: o escaler no podia
obedecer.
  Depois vimo-los, por meio dos nossos culos, deitar o outro
escaler ao mar, e dirigirem-se para a praia  fora de remos;
e quando estiveram ao alcance da nossa vista, reconhecemos
distintamente que eram em nmero de dez e tinham armas de
fogo. Pudemos distinguir at mesmo as feies de cada um
durante muito tempo, porque, tendo sido derivados pela mar,
eram obrigados a seguir a margem para desembarcar no mesmo
stio onde avistavam o seu primeiro escaler.
  Deste modo, o capito podia examin-los  vontade; no
deixou de assim fazer, e disse-me que via entre eles trs
valentes rapazes, e que estava certo que os outros os tinham
arrastado  fora na conspirao; mas que, quanto ao oficial
inferior que comandava o escaler e aos outros, eram os maiores
celerados de toda a tripulao, que no desistiriam da sua
empresa, e receava que fossem fortes de mais para ns.
  Respondi-lhe sorrindo: - Tenha coragem; s vejo para ns, em
todo este negcio, uma circunstncia embaraadora.
  - Qual ? - disse-me ele.
  -  - respondi eu -, que h entre esse bando quatro homens
honrados que  preciso poupar; se fossem todos patifes,
julgaria que a Providncia os tinha separado do resto para
no-los entregar nas mos; porque, fie-se em mim, todo aquele
que desembarcar ficar  nossa merc, e seremos os senhores da
sua vida e da sua morte.
  Estas palavras, pronunciadas com voz firme e uma feio
alegre, deram-lhe coragem, e ps-se a ajudar-me vigorosamente
a fazer os nossos preparativos.
  Logo que vimos o escaler dirigir-se para ns, j tnhamos
pensado em separar os nossos prisioneiros e p-los em lugar
seguro.


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  Havia dois de quem o capito estava menos seguro; fizera-os
conduzir, por Sexta-feira e pelo companheiro do capito, para
a minha gruta, donde lhes era absolutamente impossvel
fazer-se ver ou ouvir, ou achar o caminho atravs dos bosques,
isto se conseguissem desembaraar-se dos seus laos. Dera-lhes
algumas provises asseverando-lhes que, se se deixassem estar
sossegados, os poria brevemente em plena liberdade, mas se
fizessem a menor tentativa para se safarem, no lhes daria
quartel.
  Prometeram-me sofrer o seu cativeiro pacientemente, e
mostraram-me um vivo reconhecimento da bondade que eu tivera
em dar-lhes provises e luz; imaginavam eles que ele devia
ficar de sentinela  gruta.
  Os nossos outros prisioneiros eram mais felizes: na verdade,
tnhamos amarrado dois que eram um pouco suspeitos, mas,
quanto aos outros dois, tomara-os ao meu servio, por
recomendao do capito, com juramento solene de nos serem
fiis at  morte. Desta maneira ramos sete bem armados, e
estou persuadido de que estvamos em estado de vir s mos com
os nossos inimigos, sobretudo por causa dos trs ou quatro
homens honrados que o capito me asseverava ter descoberto
entre eles.
  Logo que chegaram ao stio em que estava o seu primeiro
escaler, empurraram sobre a areia aquele em que estavam e,
deixando-o todos ao mesmo tempo, puxaram-no para a praia, o
que me causava prazer, porque receava que o deixassem
ancorado, a alguma distncia, com alguns de entre eles para o
guardar, e que assim nos fosse impossvel apossarmo-nos dele.
  A primeira coisa que fizeram, foi correr para o outro
escaler; e conhecemos facilmente a surpresa que sentiram ao
v-lo furado no fundo, e destitudo de todos os seus aprestos.
Um momento depois, deram todos ao mesmo tempo dois ou trs
grandes gritos para se fazerem ouvir dos seus companheiros;
mas, vendo que era trabalho perdido, puseram-se em crculo e
deram uma descarga geral com as suas armas, cujo rudo fez
ressoar todo o bosque; mas ns estvamos bem certos que os
prisioneiros da gruta no a ouviam, e que aqueles que ns
guardvamos no tinham a coragem de lhes responder.
  Os do escaler, no recebendo o menor sinal de vida da parte
dos seus companheiros, estavam numa tal surpresa, como ns
depois soubemos por eles, que tomavam a resoluo de voltarem
todos para bordo do navio para a irem contar que o primeiro
escaler fora para o fundo, e que os seus camaradas tinham sido
certamente massacrados. Vimo-los lanar o escaler ao mar e
entrar todos nele.
  Apenas deixaram a praia, voltaram outra vez, depois de ter
deliberado aparentemente sobre algumas novas medidas para
achar os companheiros; ficaram trs no escaler, e os outros
desembarcaram para fazer a busca.
  Eu considerava o partido que acabavam de tomar como um
grande inconveniente para ns; debalde nos apoderaramos dos
sete que estavam em terra, se o escaler nos escapasse; porque,
nesse caso, os que estavam nele voltariam certamente para o
navio, que no deixaria de se fazer de vela, o que nos tiraria
todo o meio possvel de o recuperar.
  Contudo o mal no tinha remdio, tanto mais que vimos o
escaler afastar-se da praia e ancorar a alguma distncia. Tudo
o que nos restava fazer era esperar os acontecimentos.
  Os sete que tinham desembarcado avanaram unidos para o lado
da colina sob a qual estava a minha habitao, e podamos
v-los claramente sem sermos descobertos. Desejvamos que eles
se aproximassem mais a fim de fazermos fogo sobre eles, ou
ento que se afastassem para podermos sair do nosso
esconderijo sem ser descobertos.
  Quando chegaram ao alto da colina, donde podiam descobrir
uma grande parte do bosque e dos vales da ilha, sobretudo do
lado do nordeste, onde o terreno  mais baixo, puseram-se
novamente a gritar at no poder mais, e no ousando, ao que
parece, aventurar-se a penetrar mais para o interior,
sentaram-se para deliberar juntos. Se tivessem julgado a
propsito dormir, ter-nos-iam prestado um bom servio; mas
estavam muito cheios de terror para se atreverem a entregar-se
ao sono, ainda que seguramente no tivessem ideia alguma do
perigo que os ameaava.
  O capito, julgando adivinhar o assunto da sua deliberao e
imaginando que iam dar uma segunda descarga para se fazer
ouvir pelos seus camaradas, props-me cair sobre todos eles ao
mesmo tempo logo que tivessem atirado, e for-los por esta
maneira a render-se, sem que fossem obrigados a derramar
sangue. Aproveitei este conselho, contanto que fosse executado
com justeza, e que estivssemos to perto deles que no
tivessem tempo de tornar a carregar as armas.
  Mas este desgnio desvaneceu-se por falta de ocasio, e
estivemos muito tempo sem saber que partido tomar. Enfim disse
 minha gente que nada havia a fazer antes da noite, e que, se
ento eles ainda no tivessem embarcado, podamos achar meio
de nos metermos entre eles e a praia, e servir-nos de
estratagema para entrarmos com eles no escaler e obrig-los a
voltar para terra.


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  Depois de ter esperado muito tempo pelo resultado da sua
deliberao, vimo-los, com grande pesar nosso, levantar-se e
caminhar para o mar: tinham aparentemente uma ideia to
terrvel dos perigos que os esperavam nesse stio, que estavam
resolvidos, considerando os seus companheiros como perdidos
sem remdio, a voltarem para bordo do navio e a continuarem a
sua viagem.
  O capito, vendo que se iam embora, estava fora de si; mas,
para os fazer voltar atrs lembrei-me de um estratagema que
teve bom resultado.
  Ordenei ao contramestre e a Sexta-feira que passassem a
pequena baa para o lado oeste, para o stio onde eu salvara o
ltimo do furor dos seus inimigos: recomendei-lhes que logo
que chegassem a alguma colina, se pusessem a gritar com todas
as suas foras; que ficassem ali at que tivessem a certeza de
ter sido ouvidos pelos marinheiros; que em seguida soltassem
outro grito logo que tivessem respondido; que, depois disso,
ficando sempre fora da vista deles, voltassem em crculo
continuando a soltar gritos de cada colina que encontrassem, a
fim de os atrair para os bosques, e que depois viessem ter
comigo pelos caminhos que lhes indicava.
  Punham justamente o p no escaler quando a minha gente deu o
primeiro grito.
  Ouviram-no primeiro, e correndo para a praia para o lado
oeste, donde tinham ouvido a voz, foram detidos pela baa, que
lhes foi impossvel atravessar por causa da altura das guas:
o que fez com que eles levassem o escaler, como eu previra.
  Quando se viram do outro lado, observei que o faziam subir
mais alto na baa, como numa boa enseada, e que um dos
marinheiros saa dele, deixando apenas dois dos seus
companheiros, que ataram o escaler ao tronco de uma rvore.
Era justamente o que eu desejava: deixando Sexta-feira e o
contramestre executar as minhas ordens, levei os outros
comigo, dando uma volta para poder vir do outro lado da baa,
surpreendemos os do escaler de improviso. Um ficara dentro;
achmos o outro deitado na areia, meio adormecido. Acordou em
sobressalto  nossa aproximao; o capito, que era o mais
avanado, saltou sobre ele, quebrou-lhe a cabea com uma
coronhada, e gritou em seguida ao que ficara no escaler que se
rendesse ou ento morria.
  No foi preciso muito trabalho para o resolver a isso:
via-se cercado por cinco homens; o seu camarada estava
derrubado. Era um daqueles de quem o capito me dissera bem, e
assim no s se rendeu, mas aliou-se a ns e serviu-nos com
muita fidelidade.
  Entretando, Sexta-feira e o contramestre conduziram to bem
os seus negcios que, gritando e respondendo aos gritos dos
marinheiros, levaram-nos de colina em colina, de maneira a
p-los nas nossas mos. No os deixaram em sossego seno
depois de os ter atrado bastante para dentro do bosque para
que no pudessem voltar para o seu escaler antes da noite.
  Eles estavam mesmo cansados ao voltar para o p de mim; 
verdade que tinham tempo para descansar, pois o mais seguro
para ns era atacar o escaler durante a escurido. Os
marinheiros no voltaram ao escaler seno algumas horas depois
da volta de Sexta-feira e podamos ouvir distintamente os que
iam mais diante gritar aos outros que se apressassem; ao que
os outros respondiam que estavam meio mortos de cansao:
notcia agradabilssima para ns.
  No  possvel exprimir qual foi o seu espanto quando viram
a mar vazia, o escaler encalhado e sem guardas. Ouvimo-los
gritar uns aos outros, da maneira mais lamentvel, que estavam
numa ilha encantada, e que, se era habitada por homens, seriam
eles massacrados, e que, se era espritos, seriam roubados e
devorados.
  Puseram-se a gritar de novo e a chamar os seus camaradas
pelos seus nomes; mas nada de resposta. Vimo-los ento, com a
ajuda do pouco de dia que ainda restava, correr por aqui e por
ali e torcerem as mos como uns desesperados. Ora entravam no
escaler para a descansarem, ora saam dele para correr pela
praia, e continuaram este trabalho sem descanso durante
bastante tempo.
  A minha gente tinha grande vontade de atacar; mas o meu
desgnio era prend-los com vantagem minha, a fim de matar o
menos que me fose possvel, e de no arriscar a vida de um s
de entre ns.
  Resolvi pois esperar, na esperana de que se separassem; e
para que no se escapassem fiz aproximar mais a minha
emboscada, e ordenei a Sexta-feira e ao capito que se
arrastassem de gatas para se colocarem o mais perto deles que
fosse possvel, sem se descobrir.
  No estavam ainda h muito tempo nessa posio, quando o
oficial inferior, o chefe principal da insubordinao, que se
mostrava na sua desgraa mais covarde e mais desesperado do
que qualquer outro, dirigiu os seus passos para esse lado com
dois seus camaradas. O capito estava to furioso contra esse
celerado, que tinha dificuldade em deix-lo aproximar-se para
estar seguro dele. Reteve-se contudo; mas depois de se ter
concedido ainda um pouco de pacincia, levanta-se dum salto


                                 190  191


com Sexta-feira e faz fogo sobre ele.
  O oficial inferior foi morto logo; um outro foi ferido no
ventre, mas no morreu seno duas horas depois, e o terceiro
fugiu.
  Ao rudo destes tiros avancei bruscamente com todo o meu
exrcito, que consistia em oito homens. Era eu mesmo o
generalssimo; Sexta-feira era o meu ajudante, e tnhamos por
soldados o capito com os seus dois companheiros, e os trs
prisioneiros a quem eu confiara armas.
  A noite estava muito escura, de maneira que foi impossvel
aos nossos inimigos conhecer o nosso nmero; em consequncia
ordenei ao que tnhamos achado no escaler, e que era ento um
dos meus soldados, que os chamasse pelos seus nomes, para ver
se queriam capitular: o que teve bom resultado, como  fcil
de crer.
  Ps-se a gritar muito alto:
  - Ol! Toms Smith! Toms Smith!
  Este respondeu primeiro:
  - s tu, Johnson? - porque o reconheceu pela voz.
  - Sou, sim - replicou o outro. - Em nome de Deus, Toms,
abaixem as armas e rendam-se, seno morrem todos
imediatamente.
  - A quem nos havemos de render? - disse Smith - onde esto
eles?
  - Esto aqui - respondeu Johnson -,  o capito com
cinquenta homens que vos procuraram j h duas horas. O
oficial foi morto; William Frie est perigosamente ferido, eu
mesmo estou prisioneiro de guerra; e se vocs no se querem
render, esto todos perdidos.
  - Dar-nos-o quartel - replicou Smith -, se depusermos as
armas?
  - Vou pedi-lo ao capito - disse Johnson.
  O capito ps-se ento a falar ele mesmo com Smith.
  - Conheces a minha voz - gritou-lhe ele -, se depuserem as
armas, tm a vida salva, excepto William Atkins.
  - Por amor de Deus, capito, - exclamou logo Atkins, - d-me
quartel! Que fiz eu mais do que os outros? So to culpados
como eu.
  No dizia a verdade, porque esse Atkins fora o primeiro a
maltratar o capito. Tinha-lhe amarrado as mos, dizendo-lhe
as injrias mais ultrajantes.
  Assim o capito disse-lhe que nada prometia, que devia
render-se  descrio, e ter recurso  bondade do governador
da ilha.
  Era eu quem ele designava com este belo ttulo.
  Numa palavra, depuseram todos as armas, implorando pela
vida. Enviei Johnson e outros dois para os amarrar a todos; em
seguida o meu fingido exrcito de cinquenta homens, que na
realidade era de oito, com o destacamento, avanou e
apoderou-se deles com o seu escaler. Quanto a mim, deixei-me
afastado com um s dos meus, por razes de Estado.
  O capito teve ento vagar de falar com todos os
prisioneiros. Censurou-lhes severamente a sua traio e as
outras ms aces de que fora seguida, e que seguramente os
teriam arrastado s ltimas desgraas, e conduzido  forca.
  Pareceram todos muito arrependidos, e pediram de novo a vida
com um ar muito submisso.
  Respondeu-lhes que no eram seus prisioneiros, mas sim do
governador da ilha. Julgaram, continuou ele, abandonar-me numa
ilha deserta; mas aprouve a Deus dirigi-los de uma tal
maneira, que este stio se achasse habitado, e mesmo governado
por um ingls.
  Este governador  senhor de os mandar enforcar a todos; mas,
tendo-lhes dado quartel, poder contentar-se em os enviar para
Inglaterra, para serem entregues nas mos da justia, excepto
Atkins, a quem tenho ordem de dizer da sua parte que se
prepare para a morte; porque deve ser enforcado amanh pela
manh.
  Esta fico produziu todo o efeito esperado; Atkins
lanou-se de joelhos para pedir ao capito que intercedesse
por ele junto do governador, e os outros conjuraram-no de
maneira a que no fossem enviados a Inglaterra.
  Como eu pusera no esprito que o tempo da minha liberdade ia
chegar, pensei que seria fcil persuadir todos esses
marinheiros que empregassem as suas foras a recuperar o
navio. Para os enganar mais, afastei-me deles, a fim de que
no vissem que personagem tinham por governador.
  Ordenei ento que fizessem vir o capito  minha presena, e
a um dos meus, que estava a alguma distncia de mim, ps-se a
gritar:
  - Capito, o governador quer falar-lhe!
  - Diga a Sua Excelncia - respondeu o capito -, que a vou
imediatamente.
  Engoliram maravilhosamente esta comdia, e no duvidaram um
momento que o governador estivesse por perto com os seus
cinquenta soldados.
  Quando o capito chegou, comuniquei-lhe o desgnio que


192  193


formara de nos apoderarmos do navio. Aprovou-o e resolveu
p-lo em execuo no dia seguinte. Para o executar com mais
segurana, julguei que devia separar os nossos prisioneiros, e
ordenei ao capito e aos seus dois companheiros que agarrassem
Atkins e outros dois dos mais criminosos do bando, para os
levar para a gruta, onde estavam os dois primeiros; no era
certamente um lugar agradvel, sobretudo para gente assustada.
  Enviei o resto para a minha casa de campo, que tinha uma
cerca em volta; e como estavam amarrados, e a sua sorte
dependia do seu procedimento, estava certo de que no me
escapavam.
  Foi a estes que enviei no dia seguinte o capito para tratar
de aprofundar os seus sentimentos e ver se era prudente
empreg-los na execuo do nosso projecto. Falou-lhes do seu
mau procedimento e da triste sorte a que se viam reduzidos, e
repetiu-lhes que ainda que o governador lhes tivesse dado
quertel, no deixariam certamente de ser enforcados se os
mandassem para Inglaterra.
  - Contudo - acrescentou -, se me prometerem ajuda fiel numa
empresa to justa como a de me apoderar do meu navio, o
governador empenhar-se-ia formalmente em lhes alcanar o
perdo.
  Pode julgar-se que efeito fez uma tal proposta nesses
desgraados. Puseram-se de joelhos diante do capito e
prometeram-lhe com juramento que lhe seriam fiis at  ltima
gota do seu sangue, que o seguiriam por toda a parte e que o
considerariam sempre como se fosse seu pai, pois ficavam a
dever-lhe a vida.
  - Pois bem! Vou comunicar as suas promessas ao governador, e
farei todos os esforos para a tornar favorvel.
  Veio ento trazer-me a resposta, acrescentando que no
duvidava da sua sinceridade. Contudo, a fim de nada desprezar
para nossa segurana, pedi-lhe que voltasse a ir ter com eles,
e que lhes dissesse que consentia em escolher cinco de entre
eles para os empregar na sua empresa; mas que o governador
guardaria como refns os outros dois junto com os trs
prisioneiros que tinha no seu palcio, e que os faria enforcar
 beira-mar se os seus camaradas fossem to prfidos que
faltassem a juramentos. Havia em tudo isto um ar de severidade
que fazia ver que o governador no brincava. Os referidos
cinco aceitaram a proposta com alegria.
  O estado das foras que ento tnhamos era o seguinte: 1 o
capito, o seu contramestre e o seu passageiro; 2, dois
prisioneiros feitos no primeiro encontro, que tinham sido
libertados e armados por recomendao do capito; 3, os dois
que conservara at ento amarrados na minha casa de campo,


                                    194


mas que eu acabava de soltar a pedido do capito; 4, os cinco
que pusera ultimamente em liberdade. Segundo este clculo,
eram doze ao todo, alm dos cinco refns.
  Era tudo o que o capito podia empregar para se apoderar do
navio, porque eu e Sexta-feira no podamos abandonar a ilha,
onde tnhamos sete prisioneiros que devamos conservar
separados e alimentados. Quanto aos cinco refns que estavam
na gruta, pareceu-me melhor conserv-los amarrados; mas
Sexta-feira tinha ordem de lhes levar de comer duas vezes por
dia. Quanto aos outros dois, empreguei-os a levar provises a
uma certa distncia onde Sexta-feira devia receb-las deles. A
primeira vez que me mostrei a estes ltimos estava em
companhia do capito, que lhes disse que eu era o homem que o
governador escolhera para tomar conta deles, com ordem de no
os deixar ir a parte alguma sem minha licena, sob pena de
serem levados para o castelo e algemados.
  Como no me conheciam na qualidade de governador, podia
representar uma outra personagem para eles; o que fiz s mil
maravilhas, falando sempre, com muita ostentao, do palcio,
do governador e da guarnio.
  A nica coisa que restava fazer ainda ao capito, para se
pr em estado de executar o seu desgnio, era armar os dois
escaleres e equip-los. Num meteu o seu passageiro, comandando
quatro homens; no outro foi ele mesmo, com o seu contramestre
e outros cinco marinheiros, e conduziu a sua empresa na
perfeio.
  Era perto da meia-noite quando descobriu o navio, e logo que
o viu ao alcance da voz ordenou a Johnson que gritasse 
tripulao que traziam o primeiro escaler que partira com os
marinheiros, mas que tinham tido um trabalho para os
encontrar; Johnson foi entretendo os tratantes com estes
discursos e outros semelhantes, at que o escaler atracou ao
navio. O capito e o contramestre foram os primeiros a subir,
com as armas nas mos; comearam por derrubar o segundo mestre
e o carpinteiro  coronhada e, fielmente secundados pelos
outros, tornaram-se senhores de tudo o que encontraram nos
tombadilhos.
  Estavam j ocupados em fechar as escotilhas, a fim de
impedir os de baixo de ir em socorro dos seus camaradas,
quando a gente do segundo escaler subiu pelo lado da proa,
tomaram o castelo, e apoderaram-se da escotilha que conduzia
ao camarote do cozinheiro, onde fez prisioneiros trs dos
revoltosos.
  Estando assim senhor de quase todo o navio, o capito
ordenou ao contramestre que fosse com trs homens forar o



                                    195


camarote onde estava o novo comandante. Este, ouvindo o
alarme, levantara-se, ajudado por dois marinheiros e um
grumete, apoderaram-se das armas de fogo. Assim que o
contramestre abriu a porta por meio de uma alavanca, esses
quatro tratantes fizeram fogo sobre ele e os seus
companheiros, ferindo dois ligeiramente e quebrando o brao ao
prprio contramestre, que no deixou, ferido como estava, de
queimar os miolos ao novo capito com um tiro de pistola. A
bala entrou-lhe pela boca e saiu-lhe pela orelha; vendo-o
morto, os outros renderam-se. O combate acabou assim, e o
capito recuperou o seu navio sem ter sido necessrio derramar
mais sangue.


                                    196



                              XXIX


                              ROBINSON EMBARCA NO NA VIO
                         INGLS E VOLTA AO SEU PAS


  O capito comeou por dar-me parte do bom resultado da sua
empresa, mandando disparar sete tiros de pea, sinal que
havamos combinado. Eu continuava na praia desde a partida dos
escaleres, e pode imaginar-se a alegria que tive em ouvi-lo.
  Com esta feliz nova, fui deitar-me e, como estava
extremamente fatigado do dia precedente, dormi profundamente
at que fui despertado por um tiro de pea; ia-me levantar
para saber a causa, quando ouvi chamar o governador; reconheci
primeiro a voz do capito, e logo que subi ao alto do rochedo,
onde ele me esperava, deu-me um grande abrao.
  - Meu caro amigo - disse ele -, meu caro libertador, ali
est o seu navio; pertence-lhe, assim como ns e tudo quanto
possumos.
  Voltei os olhos para o mar, e vi efectivamente o navio,
ancorado a um pequeno quarto de lgua da praia, porque o
capito fizera-se de vela assim que terminou a sua empresa;
como estava bom tempo, pudera conduzir o navio at  foz da
minha pequena baa, e como a mar estava cheia, trouxera-o,
por assim dizer, at  minha porta.
  Considerava ento a minha liberdade como segura, pois j
tinha os meios; um bom navio me esperava para me levar onde
quisesse.
  Mas estava de tal modo cheio de alegria, que estive muito
tempo sem poder pronunciar uma palavra, e desmaiaria se os
braos do capito me no tivessem sustido. Vendo-me prestes a
desmaiar, deu-me a beber um copo de um licor cordial que
trouxera de propsito para mim.
  Depois de ter bebido, sentei-me no cho; voltei a mim,



                              197


pouco a pouco, mas estive ainda muito tempo sem poder dar uma
palavra.
  O pobre homem no estava menos alegre do que eu, apesar de
no sentir os mesmos efeitos; disse-me, para me tranquilizar,
uma infinidade de coisas ternas e delicadas, que substituram
o meu xtase por uma torrente de lgrimas, e pouco a pouco
recuperei o uso da fala.
  Abracei-o ento por minha vez como meu libertador,
dirigindo-lhe mil agradecimentos.
  Imagina-se certamente que no esqueci tambm de elevar ao
Cu o meu corao reconhecido: seria preciso que eu fosse
muito duro para que no abenoasse o nome de Deus, que no s
provera tanto tempo a minha subsistncia de maneira
miraculosa, mas queria agora tirar-me desse triste deserto de
um modo mais miraculoso ainda.
  Depois destes protestos mtuos, o capito disse-me que
trouxera alguns refrescos dos que um navio acabado de ser
saqueado por revoltosos podia fornecer.
  Gritou aos homens do seu escaler que pusessem em terra os
presentes destinados ao governador: e, na verdade, era um
verdadeiro presente para um governador, e para um governador
que devia ficar na ilha, e no prestes a embarcar, como era a
minha resoluo.
  Este presente consistia num pequeno cesto cheio de algumas
garrafas de licor cordial; seis garrafas de vinho da Madeira,
cada uma com dois litros; duas libras de excelente tabaco;
dois grandes pedaos de boi; seis de porco; um saco de
ervilhas; e perto de cem libras de bolacha. Juntara-lhe ainda
uma caixa de acar e uma outra cheia de noz-moscada, duas
garrafas de sumo de limo, e um grande nmero de outras coisas
teis e agradveis.
  Mas o que me causou maior prazer foram seis camisas novas,
outras tantas gravatas muito boas, dois pares de luvas, um par
de sapatos, chapu e um fato completo tirado do seu prprio
guarda-roupa, mas que quase nunca tinha vestido.
  Numa palavra, trouxe-me tudo o que eu precisava para me
vestir desde os ps at  cabea. Imaginam sem dificuldade que
ar eu tinha nesses fatos, e como me sentia pouco  vontade
quando os vesti pela primeira vez, depois de ter passado sem
eles durante um to grande nmero de anos.
  Mandei transportar todos estes presentes para a minha
habitao, e pus-me a deliberar com o capito sobre o que
devamos fazer com os nossos prisioneiros. Valia a pena fazer
qualquer coisa, sobretudo aos dois cabecilhas cuja malvadez
enraizada e incorrigvel bem conhecamos. O capito
assegurava-me que os benefcios eram to pouco capazes de os
submeter como os castigos, e que se ele se encarregasse deles
seria s para os conduzir, algemados, a Inglaterra ou 
primeira colnia inglesa, a fim de os pr nas mos da justia.
Como eu via que o capito era humano demais para tomar esse
partido sem grande pesar, disse-lhe que sabia um meio de levar
esses dois celerados a pedir-lhe como uma graa a permisso de
ficar na ilha, e consentiu nisso de todo o corao.
  Mandei Sexta-feira e dois dos refns (que acabava de pr em
liberdade, porque os seus companheiros tinham feito o seu
dever) ir buscar  gruta os cinco marinheiros e lev-los
amarrados para a minha casa de campo guardando-os at  minha
chegada.
  Algum tempo depois fui at l com o meu fato novo em
companhia do capito, e foi ento que me trataram de
governador abertamente.
  Fiz primeiro trazer os prisioneiros  minha presena, e
disse-lhes que estava perfeitamente a par da sua conspirao
contra o capito e das medidas que todos tinham tomado para
cometer piratarias com o navio de que se haviam apoderado; mas
que, por felicidade, tinham cado no lao que tinham armado
para os outros, pois o navio acabava de ser recuperado sob a
minha direco e iam ver j o seu chefe, em paga da sua
traio, enforcado na verga grande; que queria saber que
razes tinham a alegar em sua defesa, fortes a ponto de eu
deixar de os castigar, como tinha direito de fazer,
tratando-se de piratas.
  Um deles respondeu-me que nada tinham a dizer em seu favor,
seno que o capito, ao prend-los, lhes prometera a vida, e
pediam perdo.
  Repliquei-lhes que no sabia muito bem que graa devia eu
fazer-lhes, pois ia deixar a ilha e embarcar para Inglaterra;
e que, a respeito do capito, ele no podia lev-los seno
amarrados, e com o fim de os entregar  justia como
revoltosos e como piratas, o que os levaria direitinhos 
forca; que, assim, no achava melhor partido para eles do que
os deixar na ilha, que eu tinha licena de abandonar com toda
a minha gente, e estava bastante tentado a perdoar-lhes se
quisessem contentar-se com essa sorte.
  Pareceram receber a minha proposta com reconhecimento,
dizendo-me que preferiam infinitamente essa moradia ao destino
que os esperava em Inglaterra; mas o capito simulou no
aprovar e no ousar consentir em tal; ento disse-lhe, com ar
zangado, que eram meus prisioneiros e no seus, e tendo-lhes
oferecido o perdo, no era homem que faltasse  palavra;


                              198  199


quanto muito punha-os em liberdade, como os achara, deixando-o
correr atrs deles e apanh-los se pudesse.
  Fiz como disse, mandei desatar-lhes as cordas, disse que
fossem para os bosques, e prometi deixar-lhes armas de fogo,
munies, e as instrues necessrias para a viverem 
vontade, se quisessem segui-las. Depois comuniquei ao capito
o meu propsito de ficar ainda essa noite na ilha, a fim de
preparar tudo para a viagem, e pedi-lhe que voltasse para
bordo, para ter tudo em ordem, e enviar o escaler no dia
seguinte. Adverti-o tambm de no se esquecer de enforcar na
verga o novo capito, que fora morto, a fim de que os nossos
prisioneiros o vissem.
  Logo que o capito partiu, mandei-os vir  minha habitao,
e entrei numa conversao muito sria a respeito da situao.
Louvei-os pela escolha que tinham feito, pois que o capito,
se os fizesse conduzir a bordo do navio, os enforcaria
certamente, como ao novo capito que lhes apontei ao longe
pendurado na grande verga.
  Quando os vi determinados a ficar na ilha dei-lhes todos os
pormenores sobre esse lugar e a maneira de fazer po, semear
as terras e secar as uvas; numa palavra ensinei-lhes tudo o
que pudesse tornar a sua vida agradvel e cmoda. Falei-lhes
ainda do pai de Sexta-feira e de dezasseis espanhis que
tinham a esperar, e para os quais deixei uma carta,
fazendo-lhes prometer viver com eles em boa amizade.
  Deixei-lhes as minhas armas, a saber trs mosquetes, trs
espingardas de caa, e trs sabres: tinha ainda, alm disso,
barril e meio de plvora, porque gastara muito pouca.
  Ensinei-lhes tambm a maneira de criar as cabras, de as
mungir, de as engordar, e fazer manteiga e queijo com o seu
leite.
  Alm disso prometi-lhes fazer com que o capito lhes
deixasse uma proviso maior de plvora, e algumas sementes
para horta, com as quais eu ficaria muito satisfeito quando
estava na posio em que eles iam encontrar-se. Dei-lhes ainda
de presente um saco cheio de ervilhas, que o capito me dera,
e disse-lhes at que ponto se multiplicariam, se tivessem o
cuidado de seme-las.
  Algum tempo depois, o escaler foi enviado a terra com as
provises que o capito prometera aos exilados (era o nome que
lhes dvamos), aos quais mandou, por minha causa, os seus
caixotes e os seus fatos, que receberam com muita gratido.
  Dizendo adeus  minha ilha, levei comigo, como recordao,
um grande barrete de pele de cabra, o meu chapu-de-sol e o
meu papagaio: no me esqueci tambm do dinheiro que mencionei,
e que ficara enterrado tanto tempo que estava to enferrujado


                                    200


que no poderia ser reconhecido pelo que era seno depois de
ter sido limpo e esfregado; tambm no deixei l a pequena
quantia que tirara do navio espanhol naufragado.
  Foi assim que abandonei a ilha com o meu fiel Sexta-feira a
18 de Dezembro do ano de 1686, segundo o clculo do navio,
depois de nela ter residido vinte e oito anos, dois meses e
dezanove dias; o dia em que me vi livre desta triste vida era
o aniversrio daquele em que me escapara de Sal num barco.
  A minha viagem foi feliz; chegueia Inglaterra a 11 de Junho
do ano 1687, tendo estado ausente da minha ptria trinta e
cinco anos.
  Quando cheguei ao meu pas natal, achei-me l to estranho
como se nunca a tivesse posto os ps. A boa mulher a quem eu
confiara o meu pequeno tesouro ainda vivia, mas sofrera
grandes desgraas e estava viva pela segunda vez. Disse que
no a incomodaria mais, e fiz-lhe o maior bem possvel que a
minha situao podia permitir, dando-lhe a minha palavra de
que nunca esqueceria as suas bondades passadas.
  Fui em seguida  provncia de York; meu pai e minha me
tinham morrido e toda a minha famlia se extinguira, excepto
duas irms e o filho dum dos meus irmos; e como h tanto
tempo passava por morto, tinhm-me esquecido na partilha dos
bens, de maneira que no tinha outros recursos alm do meu
pequeno tesouro, que no bastava para eu arranjar uma
colocao.
  Recebi ento um benefcio com que no contava.
  O capito que me devia a vida e a salvao do seu navio e
respectiva carga dera aos proprietrios uma informao exacta
do meu procedimento a esse respeito; depois chamaram-me e
deram-me um presente de perto de duzentas libras esterlinas.
  Resolvi ir a Lisboa, para a me informar ao certo do que
fora feito da minha plantao do Brasil, e do estado em que
podiam estar os meus negcios, e embarquei com Sexta-feira que
me acompanhava em todas as minhas viagens, e dava cada vez
mais provas da sua fidelidade e da sua probidade. Fiz bem em
tomar essa resoluo: encontrei o capito que trinta anos
antes me salvara e recolhera.
  Nesta ocasio voltava do Brasil com o seu filho, que lhe
devia suceder no comando do navio: disse-me que a minha
plantao prosperava perfeitamente, sob a direco dos
negociantes meus associados, que tinham cuidado dos meus
negcios como dos seus; e que os rendimentos da minha
plantao tinham sido depositados anualmente no banco do
Estado, que certamente estaria pronto a restituirmos,


                                    201


embora sem juros, logo que eu fizesse conhecer os meus
direitos.
  Estas notcias encheram-me de alegria. Contudo no julguei
necessrio ir eu mesmo ao Brasil. O filho do capito, que para
l partiu dois meses depois, encarregou-se de todos os meus
papis; levantou em meu nome no banco do Estado todo o meu
dinheiro a depositado, e vendeu a minha propriedade em
condies muito vantajosas


                                    FIm



                              Os mais representativos autores
                              de todas as pocas e literaturas


                              Obras dos grandes clssicos, em
                              verses integrais ou adaptaes
                              criteriosamente condensadas para
                              a juventude.



                    PEREGRINAO
                    de Ferno Mendes Pinto


  A viagem mais acidentada que um portugus jamais empreendeu
comea perto da nossa costa, quando a caravela em que seguia
foi aprisionada e roubada por um corsrio francs.
  Depois  a partida para a ndia e a viagem at ao mar
Vermelho, onde participa num combate naval. Aprisionado por
muulmanos,  vendido, sucessivamente, a um grego e a um
judeu, at que, em Ormuz,  resgatado.
  Durante 21 anos, ao longo dos quais foi 13 vezes cativo e 17
vendido, erra pelo Oriente, de aventura em aventura, at ao
seu regresso a Portugal, onde escreveu esta impressionante
novela romanesca.



                    A VOLTA AO MUNDO EM 80 DIAS
                    de Jlio Verne


  No ano de 1872, Phileas Fogg, um rico e enigmtico
cavalheiro londrino, aposta metade da sua fortuna em como
conseguir dar a volta ao Mundo em apenas 80 dias. E, de
imediato, deixa Londres com o seu criado francs, Jean
Passepartout.
  Como era de prever, esta viagem contra o tempo no se
efectuar sem incidentes, e no faltaro obstculos para
superar ao longo daqueles 80 dias - desde a hostilidade dos
elementos  m vontade dos homens.


                           204  205


                    OS TRS MOSQUETEIROS
                    de Alexandre Dumas


  Em 1625 DArtagnan, um adolescente, chega a Paris em busca da
fortuna. A conhece trs mosqueteiros do rei a quem chamam os
trs inseparveis: Athos, o nobre, Porthos, o forte, e Aramis,
o astuto.
  Nasce entre eles uma amizade sem limites e DArtagnan
conquista a farda de mosqueteiro. Juntos, os quatro batem-se
para salvar a honra da rainha, ameaada por uma conjura
montada pelo homem mais temido da Europa: o cardeal Richelieu.
  O misterioso homem de Meung, a prfida Milady, de
estonteante beleza mas marcada no ombro pelo carrasco, e os
inmeros guardas, duelistas e esbirros do cardeal so alguns
dos obstculos que os mosqueteiros tm de enfrentar neste
espantoso romance de aventuras.



                    O CORSRIO NEGRO
                    de Emilio Salgari


  No fim do sculo xvI, a ilha das Tartarugas, nas Antilhas,
era o refgio dos temidos irmos da costa, os corsrios que
assaltavam os navios espanhis carregados de ouro, prata e
pedras preciosas que navegavam das Amricas para Espanha. O
mais famoso desses homens, o Corsrio Negro, jurou terrvel
vingana contra o governador de Maracabo, que matara os seus
dois irmos.
  Na luxuriante selva americana, na cidade de Maracabo,
perseguidos por soldados e assassinos, ou a bordo do
Relmpago, enfrentando as poderosas fragatas espanholas, o
Corsrio Negro e os seus homens lutam com coragem,
persistncia e tremendo arrojo sem nunca desistirem!



                    A ILHA DO TESOURO
                    de R. L. Stevenson


  Tudo muda na Estalagem do Almirante Bendow com a chegada do
estranho capito com o seu ba de bordo; o jovem Jim Hawkins
est longe de suspeitar que o segredo daquele ba o vai levar
muito longe. Pouco tempo depois, Jim parte numa expedio rumo
 ilha do Tesouro. Mas no seu caminho vai atravessar-se um
bando de piratas bbados, gananciosos e briges. Daqui resulta
uma histria apaixonante cheia de aventura e mistrio.



                    AS MINAS DE SALOMO

                    Traduo de

                    Ea de Queiroz


  Alo Quartelmar, um experiente caador de elefantes, 
procurado por um baro ingls que lhe pede ajuda para
encontrar o seu irmo mais novo, desaparecido em frica
quando, seguindo o rasto deixado por um aventureiro portugus
300 anos atrs procurava as lendrias minas do rei Salomo.
  Quartelmar, o baro e o capito John enfrentam as feras na
selva, atravessam o deserto, transpem uma barreira de
montanhas e descobrem a milenria nao dos Cacuanas,
governada por um tirano sanguinrio e uma feiticeira que se
diz imortal.


                           206  207


                    Prximo volume:


                    O CONDE DE MONTE CRISTO
                    de Alexandre Dumas


  Acusado de um crime que nunca cometera, o jovem
Edmond Dants  preso poucas horas antes do seu casamento e
lanado nas masmorras do Castelo de If.
  O prisioneiro da clula vizinha, o Abade de Faria, antes de
morrer revela-lhe o esconderijo de um fabuloso tesouro na ilha
de Monte Cristo.
  Edmond consegue fugir. Em poucos anos, transforma-se
numa das personagens mais invejadas e ricas de Paris, o
misterioso conde de Monte Cristo. E a sua vingana comea a
atingir, um a um, todos aqueles que tinham contribudo para a
sua desgraa. At que parece ir longe de mais...



                    Data da Digitalizao


                    Amadora, Maio de 1998
